quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Para o Carlos

 um ano cumprido, voltemos aos lugares

no alto do monte arroio

ouve-se o senhor Lopa

ouve-se o tango-história

e andamos pelos lugares

que não suspeitavas a existência


para quê perceber o sentido de

Independencia nos tempos d'arienzanos

ou saber que Emancipación comemora o Chile

entra pela memória a última exibição do mestre

entra pela memória a janela da cozinha de onde ouvi

que não estavas bem


sabes, estes andares não se perderam

continuam a improvisar passos na memória

enquanto os pés fazem sentido de um chão diferente

com paredes que parecem encurtá-lo


la vida es una herida absurda

dizem


avisa quando chegares a Bencanta

vamos lá repetir estes verbos franceses

queres café?


In memoriam, papá.


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Para o Ademar

Fui à procura da María, hoje
a última testemunha de que estás em Sequeira
a morar no ermo do tempo
descemos a montanha de mota
fomos buscar o Luís e a Laura
fomos-te buscar
e cá estamos
famílias improváveis
sem saber o que fazer do verdemar
que envolve a memória.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Para o Ademar

mais uma vez, o rumor da partida 

no arrumar de malas e agasalhos

o rolar hesitante nos carris nocturnos

dá-nos o mote da noite e da vida

deixamo-nos para trás

por onde passamos

e rimo-nos do absurdo

de contar os minutos de atraso

haveremos de chegar ao nosso destino

como o vento

como a pedra que se deslocou à passagem

do último comboio da noite

e rolou para o infinito

que a criou




sábado, 9 de dezembro de 2023

Contagem*

já todos morreram
os muito velhos para o mundo
e os que acabam agora de nascer

vive ainda e sempre o rumor de todas as coisas
que não podemos nomear nem conhecer

o que terá sido
e virá a ser. 





* Para o Ademar, sempre.

domingo, 4 de junho de 2023

Noite no Marquês

pego no livro mais próximo e leio 

o rasgar côncavo da lua na página

e o pequeno golpe no dedo

que cicatriza o gesto

é impossível

escapar


as coisas que são ditas antes

alcança esse medo sem querer vencê-lo

apenas senta-te com ele e conta-lhe

as muitas vezes que o viste abeirar-se

da liberdade

 

passar a outra coisa

 e

a outra coisa que é sempre outra

e que sempre vem

anuncia-se com o passar do momento

e inaugura a eternidade

compomos passos

titubeamos

o oceano não se pôde abraçar inteiro

nada se pode abraçar inteiro

entretanto

já resvalou o momento

e move-se o chão

e

já não estamos aqui.

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

a companhia

o teatro acabou

depois ele, a velha chinesa

morreu medicada em casa do filho

o novo palco é agora do outro lado da cidade

os dedos dos actores tremem mais agora

as cores de plástico parecem gritar

a sua inutilidade

as cadeiras vão vagando


a incerteza insinua-se, fria,

o gesto falha o contorno do lábio

ou será a boca que já não se oferece

ao disfarce do tempo em laços e máscaras

é insuportável pensar na sala vazia

são os últimos

a sua arte é a última


na grande mesa da única sala comum

ninguém se atreve a tocar na carta solene


alguém pede ajuda com um botão

alguém traz o chá

vem o encontro no meio de todas as vozes

brilha o pó que se anichou nas rugas

é a última performance 


todos pedem silenciosamente

que os matem



sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

kaleidoscope*

 foste um dia o rapaz maravilhado pela estrela cadente

e o homem que caía desamparado no chão da terra

e os olhos que leram e se arredondaram

e o grito que todos damos

quando tudo se acaba

ou inicia.


*ao Ademar, sempre. 

domingo, 9 de outubro de 2022

a vantagem da loucura

é não sentirmos o frio da água no mediterrâneo

nem termos embarcado com bilhete maravilhosamente moderno

é termos já ido para lá do tempo e do espaço enquanto esperamos o comboio

que nunca pára


se silvam os obuses com promessas

se gemem as mãos das crianças nos fios de ferro da última coleção

nada disso sentimos porque já fomos para mais longe de todas as novíssimas galáxias

o universo está morto mas deixou-nos todas as ilusões de herança


a terra suspira e espera


 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

O timbó

roda com cuidado

não é um coração

é uma orelha negra

a ouvir-te fremir


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Tres Esquinas

 Por pouco tempo, parecias dizer

Já se anuncia o cinzento nos teus olhos

O assombro momentâneo não te ruborizou

Mas, estremeceste, brevemente,

E agora são minhas as tuas tardes

A passar tangos pelas ruas de Montserrat


segunda-feira, 28 de março de 2022

arquipélago

talvez sejas 

como as águas do mar Egeu 

vagam em sentido contrário ao tempo 

antes de se afundarem no seu próprio sal

às portas do oriente


na casa vazia

ouve-se a noite na montanha

e as ilhas abrem-se como braços

e fecham-se como colos 

somos imortais




terça-feira, 1 de março de 2022

afloat

flutuava como um corpo esquecido

mas a esquadria revelou que era Turner 

uma aguarela de Turner negra de tanto mar

à deriva 

uns passos mais à frente

do lado do mundo que passeia 

a serpentina presa na madeira do Tejo

permanecia imóvel ao dia 

com a dureza de quem ata 

talvez pela última vez

os destinos da tarde

recuei

é preciso revisitar os passos perdidos

e resgatar as mãos de Turner

e da criança alegre no instante circular

de tirar o rolo inteiro da serpentina do bolso

dar-lhe uma coroa pagã e ligeira

uns decretos de cores

histórias por contar


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

γλώσσα


abre o glossário na página onde diz
que esse tom de azul
é só teu

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

The broken nose*



are we ever brave enough

to give ourselves completely to this exact moment

that we would perish 

not knowing anything about boundaries

the borders of any gesture

the frailties of undivided attention?

life would reenact itself perpetually

extending its galactic arms around us

talking about the other Coltrane 

and the need for a change in view


what is the change that would have

stopped you from falling


it is now the time after that


the day was sunny, 

just like you. 



*In loving memory of

William Louis Mills.





domingo, 26 de dezembro de 2021

Penhasco

há na ilha um lugar 

frente a um espelho sujo

frente ao mar que afoga os seixos

entre vigílias e tempos mal medidos 

a posta restante

do teu olhar 


o que sobra da roupa encharcada

na luta de outrem?

quem beija a palavra certa

que faz Caronte esperar um pouco mais?


conto eu a história por ti

rasgando as noites

nas tuas ondas






sábado, 25 de dezembro de 2021

Conjunto de seis copos

 nunca ninguém bebeu por aqueles copos

estavam guardados para uma ocasião especial

passaram os anos e ninguém entrou para celebrar

seis cores juntas e por isso mais belas ainda

um conjunto que parecia chamar a sede

dos mais doces vinhos

soube-se que foram vendidos em perfeito estado de conservação

minuciosamente resguardados de toda a perturbação:

pó, sol e as mãos sujas 

do imprevisto 

correctos, limpos, inteiros

nunca ninguém lhes poderia apontar uma falha

(a tristeza não mancha)

(o vazio não quebra)

talvez não tenham sobrevivido depois

algum excesso, algum descuido

e o tempo

o tempo

tiveram o mesmo destino afinal

todos 


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Bleu-nuit

topografia de vida

sem mais nenhum registo do que

Caeiro em casa e

Penélope sem esperança


 


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Ossos*

um sopro mais e 

rodopiamos no salão grande

da eternidade

o vento leva-nos 

com as outras poeiras

e nem as estrelas já

nos distinguem

na roda


nada mais há

senão a eterna ficção

e o vago rumor

da memória


mas hoje

apenas hoje

ajeitas os óculos

e estremeces um pouco

para me desejares boa viagem.


*Para o Ademar, sempre.