a magia é rara mas troca de mãos terás de ensurdecer para lhe ouvir a vibração
sábado, 19 de junho de 2010
a andorinha era afinal um lenço branco e o lenço branco é o algodoeiro e o algodoeiro é o sangue das mãos que o colhem e a colheita és tu e o sangue é nosso
le tour du monde le tour de la piste le tour de tes bras
le tour de tes bras le tour de tes bras le tour de tes bras
et moi
terça-feira, 15 de junho de 2010
prête-moi tes mains et je défais le noeud la corde je joue avec
talvez o dia hesite a luz e os pés mal toquem o chão da ordem interior pouco sabemos talvez a terra, mãe de todos os passos saiba apenas embalar os seus e tremer sempre também talvez nada, e depois uma mulher e depois um homem
Narciso foi condenado a rever-se no mar Ariana cortou o fio com os dentes Pessoa foi biograficamente feliz
quarta-feira, 9 de junho de 2010
se me respondesses a tudo eu não deixava de perguntar o parisiense dizia que atrás do corpo não há nada mas esqueceu-se de que gostamos de espreitar
o porto das acumulações tem as janelas fechadas entra-se pela fechadura não há porta dentro, uma bengala cega e pó, versos, rosas passados de tudo tal e qual como num poema os navios chegam e partem é um porto entramos por ele devagar e vemos as manhãs amarar como num poema
da matéria-memória do tempo sobrou um eco: uma vibração por dentro escrita fora
terça-feira, 8 de junho de 2010
todos os meus poemas estão apenas a caminho de estarem prontos ou talvez estejam apenas sentados numa qualquer pedra a pensar nisso posso ainda voltar e arrancar dali o adjectivo que me afasta do nome do teu nome, que é verbo que é mar
o som e o silêncio dançam esquecidos num compasso só deles
os juízes recusaram sempre o embate entre o sabre e o florete: desigual! proibiram igualmente as máscaras: frágeis, todas! assentimos e saímos para uma rua onde constatámos a nossa surdez e caímos pelo toque ou pelo tempo
sexta-feira, 4 de junho de 2010
as palavras não têm de ser
a poesia nem sequer existe
e se existisse
esperaria pelas tuas mãos
contavas-me sempre a mesma história: a beleza impraticável de um desacerto que ficou por intitular
quando heteronimicamente nos juntavam nos mesmos dedos desprendiam-se deles verdades não-poéticas
quero-te ainda inteiro ainda que calado
esse recanto desconhecido do tempo é um campo aberto a céu perdido onde finges olhar em frente para espreitar pelos lados nossos
quarta-feira, 2 de junho de 2010
o que inacabou é um gerúndio doce de futuro inesperado
je dansais le silence cette nuit au bord des bras de la nuit
le départ pressé, toujours et inutile le dernier métro était passé
la voix a annoncé la fin du service pour cette nuit
aquele miúdo que passou há bocado levava o balde cheio de água trôpega ria-se para dentro, ajeitando as lentes corria como num arco-íris mas
descalço para sentir a terra
com a pressa, não viu as árvores que entretanto nasceram à sua passagem
no festival de poesia para os pássaros haverá maçãs sem aqueles pedaços que a fome arranca, vens?
terça-feira, 1 de junho de 2010
1935
2010
estão doispoetas no cais
um seminário sobre o teu poeta para fechar a tarde nela, o homem sozinho nas escadas e três passantes que param em tempo vagamente coincidente na borda do passeio, a chuva que tão fisicamente cai diz-me que foste ver o mar