segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

rien ne reste de la marée
elle est mouvement perpétuel
des eaux comme des jours
de toi comme de moi

rien ne reste de la trace salée
de tes lèvres

rien ne reste du bruit
de tes mains

il ne reste que la vie
insaisissable




domingo, 27 de fevereiro de 2011

souvenir

sabe-se que uma pedra perdida
continua sempre intacta no seu azul
e que até o pequeno corte que era de a ter
toda dentro da mão e dos olhos
perderá os bordos de ser dor

sábado, 26 de fevereiro de 2011

haverá algures uma ilha
a que queiras chamar utopia

talvez seja já o chão que pisamos

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

le vélin de kupka

je le touche lentement pour sentir sa nouveauté
il ne comporte aucune image fantôme
pour que je puisse être son ombre
et sa nuit
d'une souplesse maritime
léger comme un rêve blanc
il se donne à l'écriture
au dessin
il s'ouvre ainsi
à la fantaisie des mains qui cherchent
aux veines qui le longent et le traversent
ce veau mort-né sacrifié à l'envie d'un chant
ce veau mort-né sacrifié à l'envie du chant des chants

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

promenade

o voo não tem de coincidir com a asa
nem a asa tem de saber que se eleva
a algum céu mais baixo, de um
azul alcançável a roçar o
verde-mar

subir ou descer
é sempre aqui



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

l'oiseau que tu m'as ramené
survole discrètement les amants
avant de descendre sur les champs
car, à cet oiseau, j'ai ajouté la terre du début du printemps
avec ses fleurs ses ruisseaux cachés et si frais
ses ombres joueuses douces ivres
toute sa splendeur

l'oiseau que tu m'as ramené
s'est envolé et maintenant
il ne reste que nous

para que amanhã não sintas a minha falta
deixo aqui ainda hoje a minha vontade
de te escrever sempre e de nunca
mais te perder de vista

dizias da tua poesia
que estava lá tudo

dir-te-ei sempre
que esse tudo
não chega

e não,
não te deixo
mudar o tempo verbal

le marin a accosté
à l'île qui n'est pas déserte
les murs y sont majestueux et si solides
que même un rêve ne pourrait pas les percer
il a toutes ses clés bien dans sa main
il rentre, toujours

la passagère traverse l'océan
et danse avec le vent

et dans ce temps-là
l'instant d'une vie
bateau ou pas
métaphore ou pas
le poème s'ouvrira
à leur passage

cahier d'un bord
trop lointain
por vezes
morremos um pouco
para não morrer de vez

sábado, 19 de fevereiro de 2011

el agua de tu boca
el mar en tus ojos
la vida toda principia
algún día

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

sem bem querer
o corpo desviava-se
de uma linha imaginária
em que andamos rectos
com propósitos e intenções
alinhadas pelo tempo de um mistério
a que chamam a realidade
e ia de encontro ao teu

sem bem querer
o corpo alinhava-se
por um ponto imaginário
em que andamos coincidentes
na vontade de trespasse e roubo
de posse plena: esse corpo é meu
e dele poderei beber e comer e querer

ainda viver



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

fazer angústia é fácil
é só pegar em outra mão
e descobrir-lhe a reticência
que era apenas compasso longo
ou ficar à espera do fim da festa
antes que ela possa ter começado

pena que ela não esteja já feita
barata, embalada, prática
que fosse de usar e
deitar fora

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

o regresso

embarquei dessa vez
e ainda me encontro em viagem
tu ficaste e ainda por lá passas para ver
se o comboio voltou para trás e se eu afinal
impossivelmente fiquei
digo o nome da tua cidade como quem se perde
numa rua conhecida e aproveita para descansar
peço água e um café e preparo-me
para demorar

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ma voix me quitte
je deviens murmure
presque silence

dire, il faut dire
faire vibrer ainsi
une ou deux cordes
puis, dire

cántame un tango
por la tarde

ausência

je ne peux pas faire autrement
je porte, je passe, je reste
sans jamais me décider
pour Ulysse ou Pénélope
moi aussi,
je tisse des noeuds
aveugles et sourds
les noeuds qui résistent
à la morsure de la réalité
et bien sûr
je suis tellement
invraisemblable
que je cherche
et je trouve!
le vrai et le semblable
partout où mes pieds errent

ceci 'est pas un tableau car
je n'ai pas de couleurs
pour toutes les absences
que je dois ramasser
à chaque fois que je regarde
mes mains

ton absence,
une à la fois,
elle suffit

illusion

avant de tomber
l'équilibriste a essayé
de s'accrocher au moment
juste avant, où tout était parfait
en ce moment, l'équilibriste est par terre
juste avant le moment où il a fait son premier pas

disons de l'intimité qu'elle est
un noeud qui laisse passer
la lumière



o avô levou o menino a ver os golfinhos
tão felizes! brincam e nadam, tão perto!
tão meigos! ursinhos serão, mas grandes
e molhados!
a criança ri, encantada
o conto infantil está vivo
e o golfinho
é tão meiguinho!

à noite, o menino sonha
de manhã, acusa:
os golfinhos saltam muito alto
porque tentam voltar ao mar
nadam muito porque querem escapar
brincam para não verem as crianças chorar

o avô leva o menino a ver o mundo
e espera a manhã seguinte
enquanto o menino dorme
e sonha

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

a distância é um primeiro passo
seguido de todos os outros
paramos apenas para
viver

sábado, 12 de fevereiro de 2011

sentidos

a flor colhida
inebria e esquece


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

pêras, maçãs e um jarro pequeno
flores bravas sobre a mesa
bagas e pão escuro

morta, a natureza?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

se bastar ao vento passar
diz-lhe que se demore
com o que traz
para contar

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

dehors

ta vie est une forteresse
où l'on trouve tout
le cordonnier et le chemin jusqu'au fleuve
le boulanger et le conteur de rêves dont
on ne pourra plus se passer
même la faille et le vide y sont
même l'imperfection
et la petite déception
d'un jour caché
aux joies
d'un moment d'angoisse
où la fin amène finalement au mur
et les fusils aveugles de la souffrance s'apprêtent
mais voilà que le jour ne se cache plus
et les joies semblent renaître
et elles y sont
à la portée de tes mains
à la portée de tes yeux
et puis la mer
qui t'accompagne
sans sursaut puisque
ta mélancolie trouve toujours une baie
où commence la plage abritée de sable fin

on y trouve les arbres de fruits abondants
et leur urgence

on y trouve les gens d'outre-mer
qui te vendent leur soie et le fil de leurs pas

on y trouve les flûtes et les cordes des assemblées heureuses

on y trouve le musicien manqué et le verre qui le fait sourire

on y trouve la chanteuse dont la voix emporte plus qu'un

et on y trouve tout le temps

ta vie est une forteresse

mes mains ne tiennent plus
je descends du mur
je cherche un arbre et je m'assieds près des racines visibles
le manque de lumière ne me laisse pas savoir l'heure ni

que quelqu'un passe et se dirige vers moi

le vent s'est levé



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

abril

pasme a rosa
diante do cravo
a luta é a mesma

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

manhã alvorada manhã
noite apenas o breve
pestanejar alegre
ou o dormir leve
leve
noite apenas a luz
que se demorou
um pouco mais
tarda

afinal
escureceu ainda

domingo, 6 de fevereiro de 2011

palavra

acordemos em salvar
todas as letras que caem
impronunciadas
acordemos em lembrar
a breve hesitação
que passou pela boca
que passou pelas mãos
e que nunca chegou
a ser parte de nada

uma língua é também
todos os seus silêncios

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Un

en me laissant aller jusqu'au bout
de ton attente inépuisable
je retourne vers toi
je passe
je change
et tu me suis
et c'est nouveau
l'orchestre nous promet
la tormenta
et en me suivant
tu me reprends
le nuage et la foudre
ne font que un
je foudroie le sol
je suis le fouet de ton envie
et la tormenta passe
et l'envie d'être pomme
ou son arbre
grandit
nous la prenons
pour après nous ramener plus bas
qu'on devienne racine temporaire
juste avant la fin du temps
ce moment où aucun de nous
ne peut comprendre d'où vient
toute cette
musique

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Un

il y aura toujours
un dernier tango
et ce sera encore
le premier

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

intenção

fosse isto um fruto e teríamos
a árvore toda a pender de cheia

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

quando a água proverbial esgotar a rocha
e o castelo for pedras soltas na memória
terás a profecia cumprida e longamente
olvidada

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

modulação

retiro do poema os pássaros e o mar
deixo-os na irreprimível liberdade
de não serem a asa ou a onda
do que me traz a mim
do que me desfaz
crescendo

domingo, 30 de janeiro de 2011

a felicidade

lis de près
et tu sentiras
la douleur

réponse

pas de tableau
pas de mise-en-scène
les lumières sont éteintes

seul ta question m'illumine

sábado, 29 de janeiro de 2011

a praia

debaixo do desconhecimento útil
e bem-educado do chefe
das obras máximas
pátrias
dou a saber que
um grão de areia
macho ou fêmea
se moveu
na praia
que
ainda não

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

filiação

Caeiro toma-me das mãos a possibilidade de o escrever
e bebe-lhes o rio em que nunca nadou
eu mesma me bebo
até à sede

não tive mestre e por isso talvez
ainda não tenha nascido

quem me teve
quem me deu

a mim?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

não há poema onde não se encontre
um pedaço de mar e o tempo
que a onda leva a chegar

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

o brinde

tudo é inteiro

esse caco é apenas pedaço
falha, vaso sem serventia, copo vazio
de todo o líquido possível
esse caco é inútil
fere apenas
não se lhe pode colocar uma flor dentro
não se lhe pode derramar champanhe dentro
não acolhe lágrimas saliva desejos de coisas boas e novas
coisas boas e novas, um caco!
esse caco fere
não podes envolvê-lo amorosamente como dedos
não podes levá-lo aos lábios e deixar que a língua goze na lisura do vidro
não podes encontrar-lhe na borda a forma do mundo
esse caco é agora ferida
a transparência (a manhã)
tinge-se de um rubro negro dor
porque não vês não compreendes
a natureza desse pedaço
que tens nas mãos
tudo te é inteiro

o copo partiu-se

domingo, 23 de janeiro de 2011

ojos de mar

les yeux ont laissé passer le regard
un peu avant le départ
homme et femme
sur un quais de pierre
(sous la pierre, ta sève)

la viajera est rentrée dans le train
et tout est rentré dans l'ordre
les stations et les jours
bien rangés là où l'on
les attend
(sous le livre, tes mains)

le train?
la viajera ne connait que l'océan
elle est ainsi descendue
le coeur débordé
(d'une illusion entière)

les lendemains et les veilles
se retrouveront toujours
dans l'instant
l'eau est tombée
sur la terre

la fleur née de la boue
ne peut qu'être belle

sábado, 22 de janeiro de 2011

Un

ton corps
m'emmène à la terre
l'île secrète et sa mer autour
Glass ou Pugliese
je ne sais plus
mais le corps
continue s'obstine
part
dans l'écoute de ce
au-delà du silence

quelque chose
oubliée ou perdue
pendant le transport
sur la route
autour de l'île
et la mer si près
la perte
quelque chose
oubliée ou perdue
que tu trouves
et ramasses
sans comprendre

c'est à toi?
elle ne m'appartient plus

le corps
continue s'obstine
part

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

minima moralia

nenhuma estranheza

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Merisi e o lagarto

a natureza toda
coube num dedo
sagazmente mordido

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Para G.

quanto tempo tem um texto dentro
a ti que o levas contigo e que o levarás ainda
depois da última página que é apenas o não haver mais papel

quanto tempo nasce dos instantes em que pensamos compreender?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

que fazem as maçãs no cesto
o mesmo que no poema
mas menos doces

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

arranjo-te hoje um torvelinho
um laço desavindo dos dedos
e da conjugação

volver

domingo, 16 de janeiro de 2011

sem-data

era seguro o lugar onde o mundo estava
o planalto era o trampolim dos olhos ágeis
e brincávamos sempre na borda dos precipícios
na total certeza da entrega do corpo ao peso do aqui e agora
não haver amanhã era uma evidência que só a manhã desfazia

mas havia gente com olhos a prazo, gente com o olhar gravemente perdido
e não era numa palavra-mágica que de repente os transportasse para um reino
não
era o olhar perdido nos prazos expirados ou pendentes, nos fracassos amealhados
em vez das moedas de oiro que só luziam porque os nossos olhos compreendiam o sol

na rua, ninguém respondia à criança à janela
porque ninguém ouvia nenhum tom
nenhuma cor

sábado, 15 de janeiro de 2011

les passeurs

où dort le passeur
je ne sais pas répondre
j'habite l'un des bords et il me fait passer
je le vois toujours pour la dernière fois le soir
quand il m'aide à sortir du bateau et sa main tient la mienne
je touche le bord et il me garde bien la main dans la sienne
avant que je ne touche toute la terre
je ne me suis jamais retournée
sur celui que je fais passer

où dort le passeur
cherchez le troisième bord

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

le porteur d'eau

entre la source et la soif
c'est quand que tu bois?

je la bois de la source
je la bois de la cruche
je la bois de tes lèvres