quarta-feira, 13 de julho de 2011

la femme attend
elle attend que le temps soit enfin
le temps de finir d'attendre
et en attendant ce temps
elle attend que l'attente
se finisse bientôt
malheureusement
en attendant que cela se termine
elle attend encore que tout cela se termine
qu'Ariadne parte en laissant son fil attaché au rosier
que Pénélope parte en laissant sa broderie inachevée
(mais elle veut apparemment finir de broder la courbe de l'aile
de ce petit oiseau qui a pris ses contours sur la toile
et qui ne doit pas manquer son vol)
et la femme attend



Um

caminhos largos
tão largos
que só lá cabe
a nossa estreiteza

terça-feira, 12 de julho de 2011

4

des balles ou le temps
tout va finalement
adentro
centrepoint infini
lugar
de todas las pérdidas
noyau infranchissable
à l'espoir

le cercle est enfin
dans le carré


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Touche pas! à la règle du jeu

les six melons illégaux
ont été confisqués
des mains sales
de l'employé

lèse-majesté!
lèse-majesté!
la poubelle est
sacrée!

les six melons illégaux
sont maintenant en sécurité
il pourrissent lentement
loin de toute faim

quinta-feira, 7 de julho de 2011

il est minuit et la fête remplit le château
d'un bruit de vie qui ne laisse pas d'espace
le solitaire sort un instant pour
des raisons inconnues
dehors
l'ombre des arbres familiers
et la courbe fine de la lune
et des chants, ici et là
semblent dire que
le bonheur est ici
pas ailleurs

il rentre
il est rentré

plus tard
il se réveilla pour
des raisons inconnues
pour le cri d'un oiseau perdu

ailleurs

promenade

la fête a commencé dans le château
dehors, la nuit tremble en perpétuité


quarta-feira, 6 de julho de 2011

sonha sossegado quem não cravou o seu sonho
num tronco de árvore aberto à chuva e ao sol
e se senta entre fundas raízes e flores breves
sonha sossegado quem não estremeceu
do gosto da cereja no bico do pássaro
sonha sossegado quem descreu

quarta-feira, 29 de junho de 2011

uníssono

estranha militância, essa
sem causa nem mãos fechadas
sem palavra-de-ordem
sem canções-de-marcha
sem sequer um papel
a convocar alguém:
vem!
e vieram dois
e encheram a praça

domingo, 19 de junho de 2011

é claro que o poeta vai salvar o mundo
ainda que seja amanhã, ainda que seja
tarde de mais

é no tempo que vem depois
que quase tudo se passa

guardo-te então
para mais logo

o momento

sábado, 18 de junho de 2011

pretéritos

dessa história que me contaste
retive pássaros e fios, rios em aldeias
que não existem em mapa nenhum, mãos e corpos
tão humanos que parecem sentir eles quem os ouve
a serem contados e talvez, talvez assim seja, porque
das histórias que me contaste, nunca se soube
o lado em que nos encontrámos


quinta-feira, 16 de junho de 2011

siete palabras
para que la marea
olvide al mar

quarta-feira, 15 de junho de 2011

barcos negros e revoltos
paredes de água e frio
corredores verticais
a pique, a pique!
e descem sempre
descem sempre
ralo eficaz da miséria
ralo largo escorredor
descem e descem
mais de nove abismos
muito mais!
contem-nos
contem com
nenhum abrigo
nenhum canto
nenhum chão

o sol é para quem ficou
à beira-mar

Eco e Narciso

a única obscenidade é a tua dor não ter grito
que lhe responda estilhaçando-a
a última solidão do mundo
é o vale onde Eco deixou de repetir
um amor que ficou por sentir

segunda-feira, 13 de junho de 2011

un mot qui sert à l'appropriation exclusive et intime de tous n'est plus un mot
il est la vérité exclusive et intime du passant qui l'a prononcée sans jamais
l'entendre, tel l'oiseau qui vient souvent survoler ces lignes

couplet

um imenso relógio contrário
o chão onde nos perdemos


domingo, 12 de junho de 2011

encontro

das cordilheiras caem pedras todos os dias
rolam e param quando há um vale
ou viajam se passa um humano
e leva sem saber essa pedra
pedra pequena pedra areia
pedra pó pedra caminho
pedra imensa
mundo

sábado, 11 de junho de 2011

le temps, demain

quelle solidité, cette branche
l'arbre, la terre et même l'oiseau
si proches, on dirait qu'ils sont là
on dirait d'eux qu'ils sont réels mais
le nuage s'est défait entier sur ma peau
je tremble de froid et tes bras m'entourent
et je redeviens branche, arbre, la terre, le vol



sexta-feira, 10 de junho de 2011

o vaso preto (para L.)

serve o vaso preto para nele se afogar
a mágoa que cobre de negro o céu
cabe nele a noite que te envolve
e a mancha que te pesa
cabe tudo nele
até a mão que um dia o há-de quebrar
para cuidar da flor entretanto nascida
descuidada, da terra e da chuva
de todos os prantos



quarta-feira, 8 de junho de 2011

a margem

serve a ponte incompleta apenas
para se saber que há caminhos
que acabam em si mesmos
serve a ponte também
para poder regressar
ao cais e esperar
pela incerteza
do barco


domingo, 5 de junho de 2011

um brinde aos indiferentes!
muito boa é a vida quando
não é preciso proteger os olhos
da luz de dentro, quando o corpo
obedece ao tempo e se senta ou levanta
sem que se conheçam as costuras do sofrimento
quando a noite se anuncia solidamente cronometrada

para que nenhum sonho venha alterar a manhã em que
passando talvez um pouco mais devagar se desse o indiferente
conta de que aquele pequeno amontoado de penas acastanhadas
estranhamente disposto no chão, é afinal o pássaro que na madrugada

cantava o mundo por haver


quinta-feira, 2 de junho de 2011

amplification

la fausse note est la seule qui ne ment pas
défaut d'un temps trop précis pour la voix
elle perd continûment et très parfaitement
le moment où elle aurait pu être
simplement
juste


domingo, 29 de maio de 2011

o piquenique

a realidade? ia a tempo amanhã
hoje era ainda a canção da colheita
ou uma dança de pássaros e o momento
de a seguir com os olhos fixos na impossível
liberdade. a realidade? ia a tempo de amanhã
ser a parede fria que rodeia o quarto hoje. a real
idade? os pássaros comeram todas as migalhas
e vão todos chegar a tempo de serem mortais
o copo acaba ali naquele rebordo exacto dos olhos ou dos dedos
o que lhe está além é já o céu de amanhã
a gota que cai proverbial
dos meus lábios

25

deixo passar a data
ela lá vai, tranquila
num sono de viagem
não lamenta a paisagem
adormecida aos sentidos
passa apenas numa calma
de não saber que o dia já foi
e que algures alguém apenas
dormia

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ventre

albergam-se sonhos
até serem realidade
dizia o anúncio

quarta-feira, 25 de maio de 2011

foi o tempo quem orquestrou
o teu rapto imenso
levou-te num passe de magia
ainda inexplicável
desligaram-se as luzes
vem a manhã


segunda-feira, 23 de maio de 2011

se por vezes me distraio
e me sento na borda devoluta dos dias
com o coração a ensurdecer aos gritos
faz-me o favor de não continuares
caminho

sábado, 21 de maio de 2011

Toalha Nova

No dia 22 de Maio de 2009, o Ademar escrevia assim:


Improviso por conta da agenda...

Teço as palavras
como se a vida
me pedisse todas as noites
uma toalha nova
sobre a mesa
a que me sento
com as estrelas
tomei de empréstimo
à memória das mãos
este tear
e só tropeço nas cedilhas
quando danço contigo.

Ademar
22.05.2009


Já não pôde escrever o improviso diário no dia 22 de Maio de 2010.

Ficou o tear, as nossas mãos e toda a saudade em que tropeçamos, Ademar.


talvez encontrasse alguma correspondência secreta
entre os números e as letras que nos vão fazendo
se não soubesse desde sempre que somos nós
o segredo
cuidarei das flores que esqueci
com a água que sabes eterna

e subirei aos teus ombros
para cairmos juntos

e sentirmos de novo
o milagre da terra

2:48: inacabados

quando me pedes que dance
que dance apenas aqueles minutos
e que finja que cada um deles não é o fim





entre as duas bordas
passa o mundo como rio
os amantes talham a madeira
nascem barcos e pontes
transborda a vida
mais tarde
alguém dirá que ali
passava um rio que
levava o mundo

escrevemos o fim antes
de poder começar e
ficámos assim
livres

terça-feira, 17 de maio de 2011

para a Maria Eugénia

trazias para junto da lareira
um pouco de mar
um punhado de terra
e muito papel branco
para entreter as meninas
que se espantavam com as cores
e tudo o que as mãos afinal sabiam fazer
e a tarde acabava sempre por passar ao som
desse imenso tagarelar

ao lado, afastando a morte sempre
o amor

segunda-feira, 16 de maio de 2011

serão três dias apenas
ou ganhará o teu sofrimento
um quarto dia ainda a enganar
a ceifeira que não canta o trigo
nos campos que já não vês

desejo-te daqui um rio
e uma mão amiga
para passar

e uma margem suave
para depois

domingo, 15 de maio de 2011

le chant

parfois un vrai petit oiseau dérange le silence
en chantant tout près sans jamais se montrer
la fenêtre bien ouverte ne révèle rien
il se cache dans son coin fermé
aux yeux humains

balzaquianos

palmas assim parecem chuva
quando o fruto da terra cresce
e se dá inteiro às mãos da colheita

um abraço

um abraço tem apenas o tamanho dos braços abertos até ao limite da possibilidade
acaba na ponta redonda dos dedos que acolhem uma outra pele
e percorre o peito e o rosto e todas as terminações
receptivas

não há registos cósmicos do evento

Um

separados
para podermos
momentanea
mente
ser a vida
antes
de adão e eva

depois
ser apenas
homem e mulher
e sonhar
paraísos

perdidos

sábado, 14 de maio de 2011

75%

ainda uma semana terá de passar
antes que o coração se revolte
por maioria qualificada
das mulheres

negativos

o dia esgotou-se na noite branca
o recorte da luz fende as pálpebras
o rebordo das falhas fere o corpo

a lua cresce imensa e nunca dorme

quinta-feira, 12 de maio de 2011

negociemos esta dívida
com as mãos em cima da mesa
e com os joelhos bem encostados
joguemos o que sobra para que nada fique
só o amor

terça-feira, 10 de maio de 2011

juste maintenant
l'instant s'est rendu
à son passage
talvez Camões não reconheça o frigorífico
mas sabe ainda quem é Lianor e a fonte
onde vai beber a água do olhar alheio

domingo, 8 de maio de 2011

genèse

avant que je ne mange le fruit
mes mains ont pris sa forme
mes mains ont pris sa faim


sábado, 7 de maio de 2011

odoratissimum, ce jasmin
que tu as dérobé au jardin
il faisait encore nuit
le temps où le rêve
est intact

odoratissimum,
ce matin






quinta-feira, 5 de maio de 2011

flores
são os pés sujos de terra
de andar pelo meio delas


terça-feira, 3 de maio de 2011

vi-te hoje ao longe
cada dia te pareces mais
com o meu olhar

segunda-feira, 2 de maio de 2011

homem ao mar e ficção em terra
lançaram o terrorista em morte poética
e guardaram a prova que já não é corpo
mas sopro de ser que olhos nus não vêem
talvez a próxima onda diga baixinho
o epitáfio que ainda ninguém ouviu


domingo, 1 de maio de 2011

postérité

donne-moi un cliché
que je pourrais déchirer
ou chérir ou alors oublier
dans un tiroir qui gardera
la trace invisible de nos doigts