terça-feira, 17 de abril de 2012

il n'y pas de différence
entre la pierre qui ne bouge plus
et l'oiseau qui s'envole effrayé
seul le poing se distingue
ouvert et tremblant
d'humanité

terça-feira, 3 de abril de 2012

coube-lhe em sorte,
diz-se do que vem vindo

aceitar o caos é afinal
próprio de deuses



sábado, 31 de março de 2012

los caminos

je ferme la porte et je m'éloigne
je ressens chacune de tes courbes de ce côté
je sais comment tes seins s'insurgent contre le bois
je sais comment tes yeux me croient l'océan
je connais tes fleuves et tes coins

je marche

j'aime beaucoup les impossibilités qui t'illuminent
je les allumerais volontiers rien que pour voir cet éclipse hors temps
je les bâtirais avec tout mon silence pour le regard qui habite tout ton corps
et je finirais par t'oublier à chaque instant pour ainsi t'aimer

finalement



quinta-feira, 29 de março de 2012

dimensões

hesito em dizer a tua altura
os palmos que construo no ar
conhecem o silêncio das raízes
e quando abro impossivelmente os braços
cresces como a margem de um rio pequeno
que atravesso sempre ao entardecer
antes que a noite tudo confunda

a tua altura talvez seja
as pegadas que vou deixando na terra molhada
os frutos que vou colhendo das árvores
e o momento em que os abro e amo

a tua altura é ser dia
e estarmos nele

quarta-feira, 28 de março de 2012

a descer, todos os anjos

é apenas uma ponte agradável envolta em sombras solarengas e degraus cordatos
um pequeno trajecto em arco entre uma e outra margem
são apenas passos mais ou menos longos consoante
a demora da pedra à nossa passagem
o anjo apenas ajuda a subir
para melhor nos ver cair



terça-feira, 27 de março de 2012

le soir

je n'allume pas
il y a des choses que la lumière doit ignorer, comme
le morceau de pomme que l'oiseau a laissé tomber
(qui s'attend à un cadeau des dieux?)
je n'allume pas
il y a des choses que seule l'obscurité peut bercer, comme
l'ondulation de deux corps sur un même chemin
(qui s'attend à la circumnavigation de nos pas?)
j'allume le soleil de la veille
et celui de demain
le matin viendra

sexta-feira, 9 de março de 2012

hábil, o louco no trapézio
não tem rede nem chão
não teme a gravidade
ama só a ilusão
caiu, sim, e agora
definitivamente
dizem,
hábeis na ironia,
os vazios e sentados
os que pagam bilhete
para sentir sangue alheio

nunca fui ver o louco no trapézio
bastavam-me os seus olhos de marinheiro
e as mãos abertas a tocar o balanço das cordas:
último impulso, homem ao mar!
maré a chegar, manhã, amar

pisei o chão com força e descrevi-lhe
os círculos que em fogo via
e dentro ergui-te o rosto
com dedos-cordas
mãos de amar

passas ao longe e eu
conto-te em histórias
de ninguém acreditar

salvo-me




sábado, 18 de fevereiro de 2012

chamada a justificar-se,
a rosa invocou o mar e a solidão
que mais não tinha com que explicasse
porque se rasga sempre nela o coração

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

viajador

afiando a faca na pele
vejamos de que são feitas
as veias que correm na metáfora
sintamos no cabo da sensação a dor
que se esvai em branco pudor
a metáfora perfeita é aquela
de que não se regressa,
corte sempre inaugural
o da última metáfora
o do rebordo finíssimo
do teu silêncio
que corre por mim
vendo de que é feito o corte
esvaindo-se no branco pudor
da noite, de não estares
pouso real a faca
vejo de novo
a mão











quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

l'âge du jardinier

ce qui ne dure pas
ce qui est perdu
ce qui est fini
tout cela
c'est très bien
c'est la matière de la vie
passez, passez si vous voulez
mais ne touchez pas aux fleurs!
je vous prie de ne pas
abîmer les roses
avec le temps
qui n'est pas
le leur

rangez-vous comme vous voulez
dans une commode, pour ne pas déborder
portez votre esprit comme un parapluie
soyez sages comme un soupir
aussitôt avalé

passez, passez votre chemin mais
ne touchez pas aux roses!

vous seriez capables
de me dire exactement
le nombre de pas qu'il faut
pour dire adieu
et vous prendriez une rose
pour l'exemplifier!

non, ne touchez pas aux roses
on n'y trouve que le soleil
l'aube d'un regard
souvent noir

toda mi vida









segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Un

le titre de ce tango?
soy feliz en tus brazos

les paroles?
sí, soy feliz en tus brazos

la traduction?
la vie n'est pas un tango

mon interprétation?
cántame un tango



habeas corpus

não temos fotografias de dois lados da mesma cor
nem cartas com impressões de fogo
nem mesmo pequenos objectos
esquecidos
fáceis de substituir
como hóspedes
não havendo provas documentais
este crime fica
por provar

mais se diria
se mais houvesse a dizer
que este tribunal não aceita
batimentos cardíacos
pássaros roubados a poetas
tentativas de prolongamento
absolutamente proscritas!
de um momento
indefinível
nem nada
que não seja de natureza verificável
como as pedras, os montes e a refeição
comum no calendário estabelecido
ontem-hoje-amanhã
dias bem contados

e mais ainda se diria que este tribunal
não está sujeito a interferências
divinas ou
panteístas ou
animistas ou
poéticas,
poéticas!

os deuses que nunca o foram
não terão assento entre nós

este tribunal decreta a execução imediata
dos rumores que lavram in petto
a perdição da normalidade

faça-se.








quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Para Wislawa

ao saber que foi o mais longo dos sonos que te levou
hesito, não durmo, espero que amanhã chegue e que me diga
que afinal hoje não se morre de amor nem de pena nem de nada
que não seja apenas ser noite e fazer um sinal cansado ao barqueiro
que se aproxima devagar e leva sem um rumor a passageira finalmente
adormecida

domingo, 29 de janeiro de 2012

Un

quand ce temps se termine
les dieux arrachent les flèches
encore vibrantes
elles ont servi
ah, elles ont bien servi!
et les plongent là
là où se trouve le marbre
parfait de l'immortalité
ils s'ouvrent ainsi
ils s'ouvrent complètement
à la foule blessée
de mon cœur

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

le carnet de bal

une seule note sans cesse jouée
trouvera ses infimes variations






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

para G.

o dia para verso
querido que foi
de nascer
folheia os anos
vindos e por vir
detém-se na página
que não marca
que não dobra
pois o dia nascido
de um querer
sabe do tempo
o lugar

sábado, 14 de janeiro de 2012

Un

d'après l'oiseau qui a suivi mes pas
intrigué par cette terre, par
ce vol ancré dans le mystère
de la gravité amoureuse,
le vent le serre trop
les ailes lui pèsent
la chute viendra
et il apprendra
enfin!
la lenteur
de la joie

diário

a partir de amanhã
choverá sempre
sairei apenas
se passares
para ver se chove
ainda ou se apenas
amanhece



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

s.d.

o tempo cabe todo aqui, o tempo, esse
indelével branqueador de existências

só não sei onde pôr os dalai lamas do momento
para que sejam finalmente felizes
Aqui e Agora,

3º Esq.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

é de barro, a peça
pego nela e rodo-a
ulisses e penélope
vinte anos antes
cais de chegada
antes do mar
sempre azul
sempre imenso
é isto que vejo


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Para o Ademar, hoje e sempre

diz-lhe que volte
ainda que não cante
que passe discreto e só
perto do beiral onde estendo
a roupa que espera o vento e o sol
os mesmos que te levaram sem rasto
num dia de maio para um sul sem nome

diz-lhe que volte
ainda que não fique
por ser maré e não toda a praia
que traga nos olhos os beijos por dar
como verdades só dos poetas sentidas
as mesmas que conto nos grãos de areia contida
uma a uma e depois todas um dia juntas contigo

diz-lhe que está.


*Ademar Ferreira dos Santos: 09/12/1952

Voo sem data


Fotografia de Ademar Ferreira dos Santos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Alaudidae*

de manhã cedo, antes do mundo
vem pela margem uma cotovia
vem acordar o rio
e num cantar atento
deixa que as águas levem
as novas dos sete dias
do mês de dezembro

* Para a María Alonso Seisdedos,
em dia de aniversário

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

de um poema devem constar

primeiro
princípios-gerais aplicáveis uma só vez
que a mão que escreve, logo esqueça!
segundo
medições rigorosas da intensidade
de tudo o que lá não está, estando
terceiro
imaginar que o teu punho tão cerrado
é agora palma estendida na pele das palavras
quarto
saber que não temos mais tempo
quinto
não termos mais tempo



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

la faille

le lendemain
la trace de sang sur le mur
ressemblait à un arbre
que l'hiver pourrait
enfin aimer


domingo, 20 de novembro de 2011

a bordo

quantos mundos desfeitos
no teu cantar!
mas mais ainda havia
que começavam
e por ali iam agitando-se
nos teus olhos subitamente
tão marítimos
cintilava neles o mar escondido
por nunca ninguém haver nele naufragado

cantavas sem ver que a passageira
tinha largado as mãos da borda

cantavas sem perceber o que diziam
as ondas subitamente
tão revoltas

a cor do fundo do mar
é o seu maior silêncio

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

criou abutres com desvelo
e estendeu-lhes a própria mão
e assim de grito em grito se achou
no deserto que nenhuma água tocou


terça-feira, 15 de novembro de 2011

o que mais gosto em ti é o queixo
parece que ri mordendo uma ideia
que alguém deixou esquecida

domingo, 13 de novembro de 2011

le vol

trois petits voleurs,
trois chérubins
crient leur fausse détresse:
un peu d'eau, un verre d'eau, de l'eau!

s'il vous plaît, monsieur, madame, on vous veut complètement distraits,
l'un avec l'autre ou l'un dans l'autre, l'un pour l'autre, distraits, parfait!
on peut commencer à vous dire ce que vous n'entendrez pas:
nous sommes des créatures de sainteté
ceci n'est pas un vol vulgaire
mais une blessure
bien délibérée
elle y est
vous partez, les plans refaits, main dans la main
sous la pluie presque joueuse et un vent très malin
un vol, quelle contrariété!
elle y est
vous touchez peut-être à son nom, peut-être à son sang
quand vous oubliez le vol vulgaire et apparent
cette blessure... donne-moi ta main

monsieur, madame, veuillez excuser
les trois petits voleurs,
les trois innocents
de cet instant


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

a mão

todos os pedaços se podem colar
dos ausentes fazem-se janelas
e delas sai-se para o mar

a encosta

ao abrir a janela de uma manhã
viu que o mundo tinha mudado
não disse nada a ninguém
e mudou com ele

domingo, 6 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a jujubeira

sabe-se que os povos fronteiriços
se entendem no leva e traz
em que língua e modos
se confundem
bem

como quando passaste
como quando passei
para esse lado
também


a dívida

quanto devo
a quem devo?
quem sois
que eu não vos vejo?
não serem de pastorinha
os meus olhos!
e como hei-de pagar?
com o dia-a-dia,
com a vida toda?
dizem-me que devo
e se devo, quero pagar
até à última gota de sangue
meu e por laço e afinidades várias
também vosso

creio, creio num só senhor
amo e eterno credor
existirei por conta dEle e
de quem me quiser roubar
na provida esperança de
alguém que me diga
se valho,
se não valho,
para pagar

por ora,
disponho de um pescoço
ainda rijo para cortar

as mãos,
levo-as à cabeça
estranho, estranho lugar




quarta-feira, 2 de novembro de 2011

da brandura*

a palavra que queres varia ligeiramente
neste instante oscila entre dócil e dúctil
sabê-lo-ias se fosses seixo redondo há muito no leito do rio
se nos teus gestos guardasses o perfume de um fruto em flor
se no teu canto se ouvisse a brandura do entardecer
na varanda do meu olhar



*Naranjo en Flor
poematango de Homero Expósito

domingo, 30 de outubro de 2011

exteriores

nada se pode saber que não seja nosso
os teus olhos marítimos, esses que me levavam a ver o mar
são afinal os meus, e o azul e a água que por eles passavam
apenas a minha longínqua vontade de neles navegar
e ver o mundo abrir por dentro sem nada revelar
foste todo eu e a minha saudade de um fado
que ficou por dançar




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

El árbol del olvido*

si conoces las raíces de ese árbol
sabrás que no hay olvido
sin la presencia del despertar temprano
para ver los pajaros dormidos
que no saben eso de la vida
y de sus cuartitos

ahí están, despiertos
se van al sur

si conoces las raíces de ese canto
sabrás que no hay olvido
que no mate el vuelo
y la mañana

ahí están, que regresan
el árbol tiembla
hondo y alto



*"Canción del árbol del olvido", (Ginastera) Victor Jara

sábado, 22 de outubro de 2011

a nu

dada a complexidade de todas as teias
que desenham os teus dedos nos meus
matemos as palavras que já não servem
que nos vestem de tudo o que vem depois


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

sur le quais de Stalingrad

partir et faire partir
et se retrouver à chaque fois
dans cette immense permanence
de ce qui ne cesse d'arriver
comme un tempo primo
incomparable

terça-feira, 18 de outubro de 2011

fado em tango

chama-se com a mesma voz
com que se chama a dor

se baila con el mismo cuerpo
que se entrega al amor



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

a corrida

não disseram ao animal indefeso
que a caça é o descanso
de gente sem fome
de gente forte e destemida
não o avisaram que a graça
tem um sabor muito apreciado
e que a leveza se paga com chumbo

mas antes, que corra, que corra!




domingo, 16 de outubro de 2011

to a friend who is lying down for a while*

lying down for a while
just resting
calmly pondering
what it is about life that
keeps us coming up
for bread and a prayer
for something deeply shared
what it is about life that
does not let go
does not give in
coffee is ready but what about
les croissants?
your accent will surely trigger my laughter
and your loud objections!
and we will walk by the Seine
and dream for a bit
and then dream
some more


* William Louis Mills II

la reinette

le temps qui reste
on le mesure comment?
en années, il est insuffisant
en secondes, il est plutôt fuyant

le temps qui reste
on le maîtrise comment?
l'assurance n'offre pas de garant
les murs s'écroulent assez facilement

le temps qui est
joue sans cesse le couteau et la pomme
et toute la tendresse d'une blessure imparfaite

le temps qui est
se joue entre les morceaux coupés
et la beauté toute entière de tes mains

et la reinette?






sábado, 15 de outubro de 2011

le quotidien

le temps nous pardonnera tout
et nous oubliera toujours
faut-il se lever, alors
pour un verre?

il faut savoir que la réponse
inclurait toute une vie


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Un

disqualifiés!
vous n'êtes pas dans les normes
pour cette catégorie
trois minutes et vingt-trois secondes
ce n'est pas la vie
l'enlacement n'est pas le siège de l'oubli du monde
cette orbite ne doit pas esquisser des possibles infinis!
la lumière n'est pas à vous
l'ombre souhaitée
non plus
et
cette tension nous est insupportable
tant elle nous crie dedans,
arrêtez!
arrêtez









quarta-feira, 12 de outubro de 2011


me trouver encore dans le rond maritime de tes yeux
et amurer le matin pour mieux sentir le vent


terça-feira, 11 de outubro de 2011

da botânica

da flor nasce a mão
que a arranca:
haste, corola
dor
raiz-maior
a de um amor

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ta vie est un château mais
ton pays meurt de faim
il meurt de chagrin
pas une graine
pas une aube
ton pays s'en va
tout est nuit
les oiseaux sont tombés
d'un ciel aveugle
ton pays s'en va
rien ne tient
plus rien debout
car ton pays s'en va
péri contre tes murailles
il dit
il était une fois
il était une fois un château
au milieu d'un pays rêvé









segunda-feira, 3 de outubro de 2011

descompasso

confundiu a respiração
falhou um batimento
pediu a suspensão
da manhã
dos dias
da vida
ou apenas de um momento
o que custa um só momento
à eternidade?
o que custa ouvir um descompasso
e deixá-lo assim num batimento
novo de big bang silencioso
nova teoria da formação de tudo
novo mundo a estrear agora
só para poder dizer que tem
a vida toda pela frente
toda num momento
(pode ser este)




domingo, 2 de outubro de 2011

Um

subindo por dentro
uma escada impossível
nenhum degrau, por mais alto ou duro
impede o dois-a-dois alado
precisão matemática
de um passo só