terça-feira, 17 de setembro de 2013

tantas vezes estendo marés como tapetes
que a praia surge morena e lenta
é aqui que me encontras
à beira de um mar
inconsolável


domingo, 15 de setembro de 2013

sentido

creio inútil subir ao monte sequeira
tantas são as vezes que te sentas a meu lado

judia na sombra do rio limmat
vadia sem fé em terras prometidas

de amargas que são
as ervas tornam doce o pão

como uma última parte 
corpo presente

e despeço-me





quarta-feira, 26 de junho de 2013

intenção

vou escrever um poema para ser como o Mistral
e levar com muito espanto e para muito longe
a água que te cobre o rosto
a água que de tão salgada 
pertence ao mar

saber quanto pesa o teu seio inteiramente nu
quando a minha mão se abre lenta em concha
e ir indo num vagar de onda que ainda apenas vem
é a isto que chamo tempo

quinta-feira, 20 de junho de 2013

a casa

a voz que já não se ouve
continua a percorrer com os dedos
das mãos bem abertas as paredes do corredor
da casa que por não termos construo com vista
para ontem

quarta-feira, 19 de junho de 2013

haiku decrescente

rolou lenta a pedra
pela montanha
cai ainda

terça-feira, 18 de junho de 2013

non sense


vermelho-cereja
verde-limão
azul-mar

ou talvez prefiras 

vermelho-mar
verde-cereja
azul-limão

ou ainda

o Mar Vermelho
cerejas ainda verdes
o limão bolorento que ninguém deitou fora

como vês
todas as palavras
estão infinitamente gastas

segunda-feira, 10 de junho de 2013

el pajaro del olvido

le silence poétique d'un
est l'enfer réel de l'autre

si l'on crie suffisamment fort
cet oiseau quittera les ciels
qu'il ne comprend pas

et viendra mourir trop près
comme si son sang était
rouge comme le mien

le silence d'un ciel
sans vol ni sud



terça-feira, 21 de maio de 2013

do verbo existir

do lugar que houve

tempo há




segunda-feira, 20 de maio de 2013

assobiando

da próxima vez que uma ave passar por este poema
será um sabiá evitando os verbos que caçam

saltará de ramo em ramo esquecido 
de tudo o que não for manhã

e se cantar eu ouço

se calar eu olho


segunda-feira, 6 de maio de 2013

histórias para acordar

era uma vez
e foi
fim da história.

essa história
não tem gente!

era uma vez
tu, eu, eles
nós

essa história
tem muita gente!

somos uma vez
e contamos a história

essa história
é real!

somos um sonho
que despertou

agora, dorme.



sábado, 13 de abril de 2013

no es aire
no es canto

es la piel dura
de tu cuerpo montãna
en el fervor de mayo

es no poder ir más allá
quedarse muriendo
como la piedra
bajo el agua

torrente
ese abrazo

el mar

talvez para Marie Laurencin

concedo ao último olhar a vontade primeira
nele navegam os dias sem rumo sem fim
frescos súbitos de pintor enamorado
pelo momento em que mão e luz
se encontram 

esta é a obra 
este é o meu corpo derramado
pelo tempo do teu olhar em mim  nascido

a viagem chega ao fim
saio antes, saio sempre antes
desse momento em que mão e luz
se perdem

creio uma só vez
esta é a minha vida derramada
pelo silêncio do teu olhar em mim nascido

no me hables de amor

sexta-feira, 12 de abril de 2013

trago-te a verdade como água em mãos nuas
que bebes em concha perto da fonte clara

boca de cena
a sede




quarta-feira, 10 de abril de 2013

689

das dimensões fez-se obra íntima
exposição pública para iniciados

vermelho gasto no tempo
na travessia da cor
até ao corpo

da obra fez-se visita
dela se guardou a chuva

protectora dos passos
senhora arisca ao sol que a descobre
na dança profunda das transparências

da casa fez-se baile e logo a música
veio insinuar-se nos olhos-lago

salas redondas de te buscar
por toda a imensa parte

dos três números impressos
fez-se o sangue vivo do momento

chovia, chove ainda, 
que é da chuva que nos abriga?

das mãos prestidigitadoras fez-se texto
linhas curvas que não cabe decifrar

por onde quer que leias
há um nome que não se pode ocultar
da obra íntima do acaso 


segunda-feira, 1 de abril de 2013

s.d.

a menina da janela sabe tudo do poeta do cais
ambos partem incessantemente juntos
e não se sabe se algum dia
voltaram


sexta-feira, 15 de março de 2013

Fernando e José

branco o voto
em verbo o ponho
pedaço de papel estorvo
à raiz da mais bela árvore do quintal
quando nele é negro o sangue que não pulsa

branco o voto
em nome o ponho
pedaço de alma mundo
pedindo o azul profundo dessa maré
que tarda em arrastarme contigo, irmão,

para o longe que mais perto soa

(sem hífen)


terça-feira, 12 de março de 2013

poema para bocas caladas

marca encontro com o momento
e diz-lhe, diz-lhe! que estarás tu
em vez do esquecimento

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

clepsidra para um louco

já contei todos os minutos que hoje
passaram. contei-os um a um, 
com cuidado e método,
com toda a atenção 
não fosse algum 
perder-se
estão todos
nenhum se perdeu
nenhum se precipitou
para o minuto seguinte
tudo está na ordem de vida

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Para Laetitia

fica sempre mais além esse azul do longe
que perto sempre ronda os teus olhos

na curva de amanhã, o dia revelará 
o império simples da mais esquecida alegria 
matar sede com água, matar estrelas sonhando

as mãos que trazem a água e o passeio de ver as estrelas
são ainda ponte e estrada e também elas têm longe
em todos os outros azuis por achar

mas é no sítio sem perto nem longe
que acaba o dia em roda eterna 
sempre

sábado, 2 de fevereiro de 2013

inclinação

por vezes
abre-se o chão que parecia inteiro
na vertigem que o cobre sempre

domingo, 27 de janeiro de 2013

do individualismo

é da mais profunda liberdade ir o dono do castelo viver debaixo das estrelas
e assim descobrir que elas morreram há muito no céu da cidade grande
deixando pelo caminho a luz que já não chega, que já não há
é livre de se apossar do chão em que todos cospem
de dizer o que bem quer para ninguém
é livre de todos os seus movimentos
entre hoje e amanhã, o plano é
não morrer ou
não matar

é da mais óbvia liberdade regressar o dono do castelo a sua casa




l'envol

je connais très bien l'histoire de l'oiseau qui volait
et je vais te la raconter mais il faudra rester assise
ne pas prendre les ailes de mon oiseau pour les miennes
ne pas vouloir déposer sur mes lèvres le goût du miel ailé  
ne jamais me demander de nommer cet envol puisque
ce n'est qu'un bel oiseau et sa nature dans
des phrases bien tournées et structurées
un vocabulaire précis
des mots choisis
réfléchis 

dans mon histoire, il n'y aura pas de ciel au sud ni de vallée
dont le soupçon attire le vertige au bout des doigts
il n'y aura pas la fraîcheur surprenante des rivières
ni le débordement titillant des fleurs
il y aura un oiseau et son vol
un oiseau libre 
un oiseau.





sábado, 26 de janeiro de 2013

saturnália

a coincidência nada esconde a não ser as mãos que atam
duas e distintas pontas de desencontrados fios

juntam-se deuses e espíritos e todas as coisas primeiras
mas nada podem contra as mãos que assim tocam
nos irremediáveis fios que ali se encontram

são talvez frutos de uma videira amada
porque dela bebemos e comemos

são talvez os frutos amargos de Saturno
que devagar devoramos

são todas as mãos que semeiam e colhem
que guardam e servem e o balcão onde seguros 
celebramos a eternidade absoluta desse entrelaçar

a minha mão na tua nada esconde, nem sequer
o nó que só a pele dos dias conhece
ouro, vinho e mel

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

a dívida do trovador

partiu sem talvez saber
que nesse amor falhado
que nesse sonho findo
ficámos a haver
aquilo que é lindo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

a queda

de cada vez que ícaro cai desamparado e forte
nas águas muito azuis da dor, os olhos cheios de luz
alguém que placidamente passava se espanta impaciente
e a mão que outrora atirava flores ao mar num impulso de semeador 
que delas colhia sustento abundante para desfolhar os mistérios mais fechados
fecha-se na certeza da pequena pedra que as águas abandonaram e que não necessita
alimento

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

na ilha

pertencemos ao tempo
e com ele aprendemos
a espantosa liberdade
do instante seguinte

por isso nos despimos devagar
por isso vivemos a comoção do gesto que quer dizer o antes
por isso saboreamos o alento descompassado de quem perde o pé em mar próprio

e o grito absurdo que se nos segue é ainda e sempre antes de tudo
e a maré veio mais uma vez confirmar
que naufragámos e nos recolhemos
nos braços seguros da ilha

não temos nome para nada
a ilha é desconhecida

como os teus olhos sob a sombra de uma dúvida nova
como os meus olhos que não sabem deixar de olhar para os teus
nunca os vi, como são, o que dizem, que cores tomam sob os teus que agora
me respondem?

pertencemos ao tempo
e nele nascemos





mise en abyme


coube o quadrado dentro do círculo
e sucederam-se até sobrar apenas um ponto
que é a vertigem de já não poder haver nada

fizeram-se cálculos e somaram-se impossibilidades
as portas abertas davam sempre para o negro infinito 

investigaram-se os espaços vazios e a tinta resvalada
procurou-se no aparo finíssimo do pensamento 
a impossível densidade

encontrou-se apenas e sempre
vertigem e nada

inventou-se então o amor
e saímos

 

a gota

nas formas que toma o vinho quando nos lábios desenha os rios que não subimos
corre o dia em que nasce o fogo que espezinhamos como se fosse já cinza dormida
mas ele de tão redondo, e elas de tão cheias, tomam-nos a mão que segura o copo e
brindam-nos a sorte de todas as coisas que fogem livres da capacidade máxima
da borda 

sábado, 19 de janeiro de 2013

para G. em dia de aniversário

e assim foi a travessia no silente frio branco
de uma imensa planície nocturna
trilho de luz íntima e cor nua
como se ao corpo fosse dado 
um coração-mapa 
um coração-guardião
como se à mão que  nele se apoia
fosse dado o segredo mais calado 
e os anos fossem apenas o piscar de olhos
de uma coruja velamente distraída
pelo passo redondo da valsa







    


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

poema para Lorenz

a borboleta regressou incólume do Texas
para pousar na haste improvável da minha mão 

o rebordo do copo trémulo rasgou levemente os lábios 
este é o sangue mil vezes derramado em mim

o silêncio fundo das palavras foi caindo sobre as coisas
e disse cacho em vez de amor, vide em vez de dor

o final da noite voltou e com ele trouxe a manhã
abre-se o casulo infinito algures no Brasil






quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

rota


da viagem, trouxemos dois cravinhos-da-índia
e a muita luz que os olhos não sabem disfarçar
quando embarcados se deixam naufragar

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

navegações


e se como Ulisses fundássemos Lisboa
a que porto nos levariam os dias



sábado, 15 de dezembro de 2012

tango nosso

tango imenso esse negro tango nosso
abrem-se cercas e lentas planícies
para que colhamos sem pejo
as flores que afogam os rios
nas gargantas emudecidas

fero e negro tango de não volver
ao tempo em que temos ainda
vinte anos para perder
em flores que desfolhamos
no acaso conjunto dos dias

tango nosso esse baque surdo
que cala a nua e negra terra 
e do eco longo e fundo
faz-se de um tempo
mundo




quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

cartografia


depois do cabo da terra
fica o fim do medo
dobramo-lo

chegamos ao outro lado
sem compasso nem glória
por globo os nossos olhos
madrugados

arredondamos os dedos
e buscamos na manhã
o último fio de mar
dobramo-lo

passamos embarcados
pelas ilhas do cabo do sonho
aonde se pode enfim amarar
madrugadas

depois do cabo do mar
fica o fim do medo
amaramo-nos


sábado, 8 de dezembro de 2012

Para o Ademar

dois anos depois
percorro as margens do rio
e sento-me com todos os sinais de ti
que passas sempre, diz-me a corrente
que estás perto, diz-me o vento
que chegas, diz-me a terra
e eu respondo com palavras
que talvez conheças
l'amour autrement
e talvez te ouça
quando rindo clamas 
que é todo o mesmo!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Para a María

sobre um fundo cinzento
a asa voa mais rubra
perto vaga,
perto vem,
pousando aqui
corpo de manhã livre
pousando além
corpo de dia inteiro

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

beira de mar

estranhas quando as minhas mãos te servem de búzio
ouve-lo de olhos postos nas ondas que parecem chegar
marés ainda brandas que despojam se perto andam
estranhas que os dedos se abram ao vento
e se deixem levar até serem rumores
que como marés despojam
porque perto andam


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

distância

há quem cante canção alheia
para melhor calar a sua 
isto diz quem ouve 
o que nela soa 
em peito seu

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

a tecla

convenceu o suicida a poupar ainda algum tempo
para o solo de piano que o arrebataria 
rasgo de momento antes da queda
voo altíssimo para lá do chão
aonde tocam agora rasas
as mãos

domingo, 28 de outubro de 2012

2x4

esta mesa é quadrada ou talvez
quatro bordas de infinito
fosse mais exacto

é necessário que venhas
que a meças com as mãos nuas

é preciso que saibas
quanto medem as palmas
quando estão inteiramente abertas

e que espaço vai tomando
a oscilação dos dedos 
quando estremecem
junto aos meus

só então saberás
em exactas pulsações
da imensidão desta roda

sentemo-nos

domingo, 21 de outubro de 2012

para ti

são muitas as formas que tomas
sem que nelas possas durar

já ruiu a casa 
já desabou a mão temente
nenhuma sombra
nenhum possível

onde é que te gravei a voz
que te ouço sem me ver

onde é que te guardaste
os gestos no corpo, onde estão
que te dispo tão longe das minhas mãos

leva-me ao momento exacto da partida
da moldura breve do teu rosto faço
plano mais lento que a vida
abrem ainda as portas

leva-me ao sítio exacto em que me deixaste
que também se colhe do nada
pão, corpo e semente

são muitas as formas que tomo
sem que nelas possa durar
  

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

o barco

escondem-se as minhas penas
por detrás dos teus olhos cuidadores
e é dali que me espreitam uma ou outra vez
e é dali que são quase belas dentro desses azuis
a que chamas por meus lábios o mar dos teus olhos



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

cantiga

no voltar da saia
vi o rubro outono 
no teu rosto bailar

se chega o inverno
hemos de nele
maio atear

domingo, 14 de outubro de 2012

a saia verde

reconheces-me as mãos
no volteio da linha
nos remendos que crescem
neles reconheces a saia 
ondeia em voltas novas
novas de teus olhos amadas
ainda que nos rasgue o tempo
ainda que não mais bailemos
é verde e nova, a saia

mais tarde

vem um momento e não anuncia
que traz o esquecimento
toma forma e alento
e por mim diz
que passou


terça-feira, 9 de outubro de 2012

do vocabulário

nunca se despedaçou
porque não conhecia
o verbo


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um


para desmaio de todos os deuses
sombra alguma sol algum
nos atravessou o peito 
este lugar de culto
é inviolável


terça-feira, 2 de outubro de 2012

do esplendor

acontece algumas vezes
em pleno decurso de vida normal
que as asas madrepérola de insecto
que entretanto tivesse pousado sem pressa
compreendam na perfeição o olhar que as deixa viver



perspectiva

alcançava nesse dia a vista muito mais do que era costume
debaixo dos telhados de prata, alguém reparou no friso quieto
era gente lá longe na colina, gente indistinta e tão pequena
que seria impossível dizer se alguém calava um olhar