fiz da tua ausência um abismo de paredes lentas com chão
e nele desenho o passar das horas que caminham
seguras, ávidas
fiz da tua ausência uma montanha rarefeita
para ter de te pedir um pouco desse ar
com que me beijas
fiz da tua ausência um nó
para nele poder atar o lenço de uma zamba
que ainda não bailámos
e fiz, faço!, da tua ausência
a cadência que embala
o tempo.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
domingo, 3 de setembro de 2017
depois de Pugliese
não era exactamente como um laço e o seu proverbial nó
nem como aqueles campos invisíveis a que se chama atracção
era mais parecido com o som que faz o desejo
quando corre pelos bandoneóns
era semelhante ao toque que a tecla pressente
quando aproximas o teu corpo do meu
era igual à orquestra esperando
o nosso compás
era assim que eu to diria
se me pudesses ouvir
domingo, 13 de agosto de 2017
domingo, 18 de junho de 2017
guarda-fogo
sobrevoo a estrada cortada
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta
neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho
o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou!
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças
sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta
neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho
o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou!
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças
sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade
terça-feira, 6 de junho de 2017
Exercício de Estilo
entre põe uma suspeita
calca devagar ou
separa para sempre
lugares mágicos
lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos
e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum
dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos
calca devagar ou
separa para sempre
lugares mágicos
lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos
e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum
dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos
segunda-feira, 22 de maio de 2017
desacerto
chegar cedo sem perturbar nada que se siga
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois
são seis da tarde
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois
são seis da tarde
domingo, 30 de abril de 2017
passeio dominical
é a mais segura que temos
rode, rode e volte a rodar
voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar
é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão
continuaria a rodar
volta eterna pelo lado de dentro
rode, rode e volte a rodar
voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar
é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão
continuaria a rodar
volta eterna pelo lado de dentro
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Para o Ademar
continuamos na montanha
na altura absolutamente inútil
de não estarmos mais perto de nada
os comboios fazem as mesmas viagens
guardo ainda todas as tuas mensagens
se houvesse uma janela
e uma falha no vidro
talvez assim
uma paisagem entrecortada
pelo esquecimento
e um novo horário para me ires
esperar
Para o Ademar Ferreira dos Santos
(9/12/1952)
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
domingo, 17 de maio de 2015
domingo, 29 de março de 2015
plano de vida
casas, coisas e vidas desfeitas
com o chegar do momento
sabes que assim é
amizades velhas
amores-para-sempre
o que sobrou,
quem tos guardou?
o vento tem melhores baús
a chuva tem maior prazer
nem o momento se guarda
nem o tempo se semeia
reparaste quanta gente
nos cruzamentos do "se"?
como uma grande hora de ponta
sem que ninguém saia do carro
sem que ninguém volte atrás
num arroubo de enfim
ser Deus!
sigo o peregrino sem rumo
logo jantaremos fome
segunda-feira, 23 de março de 2015
o cantor na gaiola
levantou-se com a casa cheia
para que os sigamos
recusou as palmas e a simpatia
dizendo que talvez tivesse falhado
a única nota importante da vida
aquela que solta os pássaros
da poesia em que os temos
para que os sigamos
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
domingo, 18 de janeiro de 2015
reverberando
é sabido que há gente incapaz
de ir simplesmente fechar uma torneira
sem se perder no estreito e familiar caminho
da imaginação
plimp
plop
domingo, 14 de dezembro de 2014
amarras
no corredor novo e melhorado do sonho
passam aqueles que sabemos serem dois
também o metro é novo e branco
vai de montparnasse a lisboa
por que voltas, não se sabe
agora está pronto a ir
lado a lado perto
peito oblíquo ao tempo
entram os dois mas apenas um
fica do lado de lá da porta firme
já invisível
não se sabe quem tomou a decisão
mas quem ficou não pôde ficar
saltou para o nicho estreito
lugar reservado aos loucos
sem lugar
fim à vista! ouviu-se do mastro
lugar reservado aos loucos
sem lugar
fim à vista! ouviu-se do mastro
- o que é uma roda de ferro
senão a força do mar? -
lado a lado longe
peito face ao tempo
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Tales from aboard the Louxor*
regressar a Ítaca bordando os fios desfeitos
e deles fazer as mãos que rasgam o tempo
em bocados que a maré trouxesse
como algo ainda inteiro
memória afinal é coisa
de futuro
* para J. e L.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
poema para celebrar*
ouviríamos a milonga triste
bailaríamos a sentimental
e não nos escaparia nenhum acorde
e não nos calaria nenhum silêncio
neste tempo
cabemos tu e eu
e a eternidade
antes das velas,
um desejo.
*para o Ademar, no dia do nosso aniversário
domingo, 7 de dezembro de 2014
Dístico para traduzir*
bloom is the only state flowers can hold
a reclining verb on a given day
*para a María Alonso Seisdedos
domingo, 9 de novembro de 2014
pormenor*
flagrante comissura
mar leito de rios
mar dos naufrágios
mar gota a gota
lábio inferior
lábio superior
boca
geografia exacta
do desejo escultor
na trégua da palavra
resvalo doce
e temível
que o pintor louvou
ponte barca águas
onde corre ainda
o ciúme de Baco
o amor da Tágide
canto em chão d'exílio
ouço descalça o vibrar
do tempo de
vagar meu
rosa de carne e alma
o teu beijo
*Retrato de Camões, Fernão Gomes
*Retrato de Camões, Fernão Gomes
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Marfisa
ainda se vêem os laranjais
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites
domingo, 12 de outubro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
a mão
como resistir à última maneira de dizer
talvez deixando uma nesga de fracasso
um naco de pão arrancado
repeti-lo: imperfeito!
nunca nada é infinito
nunca nada é derradeiro
talvez deixando uma nesga de fracasso
um naco de pão arrancado
repeti-lo: imperfeito!
nunca nada é infinito
nunca nada é derradeiro
domingo, 28 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
beira de mar
sei tudo sobre ti
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos
se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos
se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo
ambulante
até a margem tem um centro
e nele caminha de passo incerto
como quem evita a quase queda no quase rio
a menina da borda d'água
do pudor
acaso grande aquele o de
ter um casaco escuro
corte perfeito
depois de nu ainda
o envergava
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Saturno ao espelho
virar as costas é ainda e cada vez mais
sentar-se lado a lado nas sombras
que o tempo aumenta
ponteiro ímpio
e nu
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
sábado, 16 de agosto de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Para ti, 4 anos depois
olho para a curva da estrada e leio o pessoano aviso:
passou por aqui hoje e não voltou o homem com nome de mar
quinta-feira, 8 de maio de 2014
poema para colorir
anunciaste um castigo terrível
se a cor passasse da borda
que a minha mão tremeria
que tremia já e ainda
nem borda havia
desenhaste-a
forma finita e perfeita
lápis cego das limalhas
que escorregavam pela linha do real
e se perderam no papel
e no ar que beijei com a calma de ser assim
ficou em branco a tua forma perfeita
molde pequeno para os meus olhos
preencho com mão incerta
tudo o que fora nela
ficou
terça-feira, 8 de abril de 2014
poema para quem não sabe durar
amo tudo o que ainda não é
amo tudo o que poderia ser
amo tudo o que está sendo
amo o declínio do verbo
sem tempo
amo tudo o que poderia ser
amo tudo o que está sendo
amo o declínio do verbo
sem tempo
segunda-feira, 31 de março de 2014
pretérito muito imperfeito
era molhar a língua nas esperanças do outro
e assim dar-lhe a beber da santa água do desejo
era comer a fome alheia e dela fazer o pão dos dias
espiga farta por entre dentes que ferem
entre lábios demasiadamente confiantes
e da gota de sangue brotar a rosa
ou o doce espinho da dor
era derrotar a imensidão
de não ter que viver
era a brevidade
de ter de amar
era assim
sábado, 29 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
les sirènes hurlantes*
espero pelo dia em que terei saudades dos encontros que marcávamos
para me dares em primeira mão as tuas novas gravuras
lembro-me de cheirar no papel o grito de sal
em que ainda perdes os dias
*ao Manuel.
*ao Manuel.
sábado, 22 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
o colar
um único adorno
um silêncio amordaçado
dentro dos nós, as voltas
dançam as mãos redondamente
o colo nu espera a sombra
das contas de vidro
dos verdes húmidos
da ameixa escura
losangos apertados
como esfinges
dedos hábeis
como amantes
desfaz-se o colar
na sua inteireza
rolam contas
pelo colo
um silêncio amordaçado
dentro dos nós, as voltas
dançam as mãos redondamente
o colo nu espera a sombra
das contas de vidro
dos verdes húmidos
da ameixa escura
losangos apertados
como esfinges
dedos hábeis
como amantes
desfaz-se o colar
na sua inteireza
rolam contas
pelo colo
segunda-feira, 3 de março de 2014
domingo, 2 de março de 2014
do erotismo
encontra-lo na gota de rio bravo que corre livre entre as margens:
o corpo diante da bagagem desordenada
antes da viagem
sábado, 25 de janeiro de 2014
a infração
contou-me o prisioneiro algo curioso
todos os dias ao acordar media as paredes da cela
a porta, os caixilhos, roda-pés e ladrilhos e só então deixava o dia começar
satisfeito, conferia com rigor a relação harmoniosa entre altura e comprimento
satisfeito, conferia que tudo estava como ele o antecipara na véspera da véspera
satisfeito, adormecia no instante seguinte
mas num despertar
numa aurora que ele não conhecia
e por isso espantado se maravilhou
(o que seria!)
mediu, mediu, e nada conferia
nenhum ladrilho igual ao outro
alturas que desabavam de tão altas
comprimentos que se perdiam no infinito
roda-pés como quem entra no primeiro baile
era afinal o primeiro dia de liberdade
e não teria outro
o espanto é a mais grave infração
faz com que tudo comece
agora, é a ele que meço
todos os dias ao acordar o meço
e estão lá também as portas e as janelas e os ladrilhos e até
os roda-pés e todas as larguezas e belezas e infinitas possibilidades
tudo isso meço, meço, meço
e mais não disse.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
a cheia
olho para mim a olhar para ti
e o Tejo toma-me da margem
o descanso
por bem que estou distante
por mal que estás aqui
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
no gume
chama-se a este objecto útil um abre-cartas
é de madeira fina, dessa que gostaria de ter sido
folha cheia de tinta
e assim ferir de morte incerta
as palavras que se confiaram ao destino
sabe-se lá que deus pelo caminho as mudou
sabe-se lá se a flor chegou pedra
se o rio que era fonte
secou e é agora
gota
sabe-se lá se alguma palavra
no caminho tropeçou e ficou para trás
pronome pessoal perdido já da mão humana
nas arestas da vida
certa é a espera em que pousada vive
a carta fechada chegou ao destino
tinta preta, era só o que tinha
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Para G.
ninguém diria que
dois queijos e duas empadas
coubessem tão bem naquela caixa
mãos cuidadosamente exactas
dias exactamente dispostos
quem diria
que a sabedoria assim
se dispusesse?
o mago que tudo sabe e nada diz
esperava os últimos aniversariantes
duas taças de leve champanhe
duas rodadas tarareando
em eterno compasso
também assim vamos pela vida
dispostos a essa sorte imensa
de estarmos
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
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