envolvo a memória no mesmo golpe alado
que desferes neste preciso momento
neste momento em que preciso
que me envolvas nas asas
de me seguires de perto
roçando o meu desejo
disfarçado de arresto
na aula de hoje aprendi a golpear o tempo
com os estilhaços de um pañuelo
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
terça-feira, 12 de setembro de 2017
alfabetizador
diz-me que letras e palavras juntavas
para dar a entender o espanto de tanta gente
debaixo da inexorável roda que a todos leva
missão nobre, por certo, a tua
a de não ter por manto a lã ou o linho
mas a árvore manchada de tinta que outros cortaram
amanhã regressas para mais uma lição
sobre a infalibilidade da lógica quando bem aplicada
e perderás de vista a mão que te protegeu do sol e da sede
e não te aperceberás do aluno que separou alfabetiza dor
propositadamente
diz-me, que palavras e letras juntavas para dizer
o amor?
do desapego
pela via do Buda
atinge-se essa indiferença
a que alguns chamam felicidade
eu
prefiro sofrer a tua ausência
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que regresses a mim até já não poderes voltar
eu
prefiro que me mates de saudades e de sentir
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que esconjures pátria e bandeira
e me peças asilo ao abrigo
da normativa maior
aquela que diz
vamos!
eu
prefiro que já não estejas
a nunca teres estado
eu
na verdade da via que é apenas minha
agarro-me a essa diferença que és tu
em mim
e
quando já não estivermos
quando as vias e as vidas cessarem
aquele momento que nos apegou
viverá ainda.
atinge-se essa indiferença
a que alguns chamam felicidade
eu
prefiro sofrer a tua ausência
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que regresses a mim até já não poderes voltar
eu
prefiro que me mates de saudades e de sentir
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que esconjures pátria e bandeira
e me peças asilo ao abrigo
da normativa maior
aquela que diz
vamos!
eu
prefiro que já não estejas
a nunca teres estado
eu
na verdade da via que é apenas minha
agarro-me a essa diferença que és tu
em mim
e
quando já não estivermos
quando as vias e as vidas cessarem
aquele momento que nos apegou
viverá ainda.
domingo, 10 de setembro de 2017
Vargas e o Arcanjo
ambos derrotados pelo mar
maré constante da vida
que agora te traz
à orla da praia
voz ou pedra partida
que agora me traz
à orla do sonho
voz ou pedra partida
ambos derrotados pelo mar
naufragamos no poder ser
quando Vargas canta
quando o Arcanjo luta
vamos mar largo e alto
no mais sentido sem rumo
eco de todos os navegantes
onde estamos e estamos sem fim.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Um
como poderia sentir a tua falta
se o teu abraço me move e estreita
a cada instante?
afasta-te um pouco
aí, no limite do possível
e diz-me
que tempo é este que incessantemente
nasce?
se o teu abraço me move e estreita
a cada instante?
afasta-te um pouco
aí, no limite do possível
e diz-me
que tempo é este que incessantemente
nasce?
da tempestade
nada sobrou dos ventos e marés
tudo o que era matematicamente certo
é agora escombro ou lasca
compara com o meu coração!
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Goya, 10h30
também sou artesã, sabes,
moldo a arte de estar
crio tempo
improviso memórias
e submeto o fugaz
com chicote
podes ler o que foi
e riscar as palavras
a tinta ou fuga
a tinta é frágil
como o papel
como o ser
talvez só a ideia
do livro azul
seja eterna
mero caderno
de uma viagem
por acontecer
café cais
de um porto
desconhecido
canto seguro
que vê passar
ventos e marés
de onde estou
as gentes e os bens
parecem-me fantasmas
de palpável
só a tua espera
e a caneta pousada
moldo a arte de estar
crio tempo
improviso memórias
e submeto o fugaz
com chicote
podes ler o que foi
e riscar as palavras
a tinta ou fuga
a tinta é frágil
como o papel
como o ser
talvez só a ideia
do livro azul
seja eterna
mero caderno
de uma viagem
por acontecer
café cais
de um porto
desconhecido
canto seguro
que vê passar
ventos e marés
de onde estou
as gentes e os bens
parecem-me fantasmas
de palpável
só a tua espera
e a caneta pousada
terça-feira, 5 de setembro de 2017
De cuervos y brujos*
nunca mais foi dia claro
a luz toda se escondeu
nos golpes de asa e nas voltas de chão
entre os lábios das cordas
sob teclas frementes
adentro
no toque surdo da pele do tambor
adentro
quando sofre, diz devagar
bombo legüero...
que longe vai o dia claro...
e inteira cai nos braços da noite
uma e outra vez
e esquece
não voltou mais aonde a esperavam
agora, afaga pupilas e acende rastilhos
e é pão e vinho e ar para a boca dos que penam
em cada golpe de asa e em cada volta de chão
glosa que grita o sangue que corre nas veias morenas
glosa que grita o sangue com que mordemos o desejo
glosa que a cada momento se precipita para o fundo de tudo
tudo isso é luz! luz que já não pode seguir o seu caminho antigo
presa lenta da espera do movimento seguinte, esse de onde nascem
os reflexos de ti.
* a partir da versão da"Zamba de Lozano"por El Cuervo Pajón y los Brujos
improviso para passeantes
vem comigo passear nas ruínas dos sonhos
castelos amargos por entre mãos verdadeiras
de todos os prédios da cidade
o que mais gosto é aquele que me deixa ver o sol
de todas as flores de rua
a que mais gosto é aquela em que os teus olhos pousaram
e de todas as absolutas coisas do mundo
a que mais gosto é aquela que só o momento pode dar
por isso, quando vieres,
traz-me apenas uma vontade completamente nua
castelos amargos por entre mãos verdadeiras
de todos os prédios da cidade
o que mais gosto é aquele que me deixa ver o sol
de todas as flores de rua
a que mais gosto é aquela em que os teus olhos pousaram
e de todas as absolutas coisas do mundo
a que mais gosto é aquela que só o momento pode dar
por isso, quando vieres,
traz-me apenas uma vontade completamente nua
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
manual de interpretação de sonhos
resiste como puderes
arma-te do aqui e agora
sejam essas as tuas únicas palavras
os loucos no divã são ouvidos por parvos sem remissão
beatas tecedeiras de ocultos e dizeres que a literatura dos pares aprovou!
resiste, experimenta resistir
talvez pelo meio tenhas ouvido
"existe"
e estejas já a associar algo a alguma coisa e tudo isso já puxou por mais fios que Ariadne algum dia pudesse conter na sua única vontade absolutamente despedaçada...
tud está entrelaçado, parece-me ouvir
e se estivesse, tens os olhos para o ver ou as mãos para o destrinçar?
resiste, vá lá, resiste, arma-te ou ama-te
do aqui e agora
deixa cair letras e palavras e mitos no esquecimento
arma-te contra todos os planos futuros e as agendas fúteis da modernidade
ama-te resistindo nesse aqui e agora
isso, aqui e agora,
em que me armas ou amas sem medo.
notas para zamba
fiz da tua ausência um abismo de paredes lentas com chão
e nele desenho o passar das horas que caminham
seguras, ávidas
fiz da tua ausência uma montanha rarefeita
para ter de te pedir um pouco desse ar
com que me beijas
fiz da tua ausência um nó
para nele poder atar o lenço de uma zamba
que ainda não bailámos
e fiz, faço!, da tua ausência
a cadência que embala
o tempo.
e nele desenho o passar das horas que caminham
seguras, ávidas
fiz da tua ausência uma montanha rarefeita
para ter de te pedir um pouco desse ar
com que me beijas
fiz da tua ausência um nó
para nele poder atar o lenço de uma zamba
que ainda não bailámos
e fiz, faço!, da tua ausência
a cadência que embala
o tempo.
domingo, 3 de setembro de 2017
depois de Pugliese
não era exactamente como um laço e o seu proverbial nó
nem como aqueles campos invisíveis a que se chama atracção
era mais parecido com o som que faz o desejo
quando corre pelos bandoneóns
era semelhante ao toque que a tecla pressente
quando aproximas o teu corpo do meu
era igual à orquestra esperando
o nosso compás
era assim que eu to diria
se me pudesses ouvir
domingo, 13 de agosto de 2017
domingo, 18 de junho de 2017
guarda-fogo
sobrevoo a estrada cortada
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta
neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho
o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou!
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças
sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta
neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho
o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou!
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças
sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade
terça-feira, 6 de junho de 2017
Exercício de Estilo
entre põe uma suspeita
calca devagar ou
separa para sempre
lugares mágicos
lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos
e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum
dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos
calca devagar ou
separa para sempre
lugares mágicos
lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos
e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum
dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos
segunda-feira, 22 de maio de 2017
desacerto
chegar cedo sem perturbar nada que se siga
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois
são seis da tarde
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois
são seis da tarde
domingo, 30 de abril de 2017
passeio dominical
é a mais segura que temos
rode, rode e volte a rodar
voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar
é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão
continuaria a rodar
volta eterna pelo lado de dentro
rode, rode e volte a rodar
voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar
é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão
continuaria a rodar
volta eterna pelo lado de dentro
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Para o Ademar
continuamos na montanha
na altura absolutamente inútil
de não estarmos mais perto de nada
os comboios fazem as mesmas viagens
guardo ainda todas as tuas mensagens
se houvesse uma janela
e uma falha no vidro
talvez assim
uma paisagem entrecortada
pelo esquecimento
e um novo horário para me ires
esperar
Para o Ademar Ferreira dos Santos
(9/12/1952)
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
domingo, 17 de maio de 2015
domingo, 29 de março de 2015
plano de vida
casas, coisas e vidas desfeitas
com o chegar do momento
sabes que assim é
amizades velhas
amores-para-sempre
o que sobrou,
quem tos guardou?
o vento tem melhores baús
a chuva tem maior prazer
nem o momento se guarda
nem o tempo se semeia
reparaste quanta gente
nos cruzamentos do "se"?
como uma grande hora de ponta
sem que ninguém saia do carro
sem que ninguém volte atrás
num arroubo de enfim
ser Deus!
sigo o peregrino sem rumo
logo jantaremos fome
segunda-feira, 23 de março de 2015
o cantor na gaiola
levantou-se com a casa cheia
para que os sigamos
recusou as palmas e a simpatia
dizendo que talvez tivesse falhado
a única nota importante da vida
aquela que solta os pássaros
da poesia em que os temos
para que os sigamos
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
domingo, 18 de janeiro de 2015
reverberando
é sabido que há gente incapaz
de ir simplesmente fechar uma torneira
sem se perder no estreito e familiar caminho
da imaginação
plimp
plop
domingo, 14 de dezembro de 2014
amarras
no corredor novo e melhorado do sonho
passam aqueles que sabemos serem dois
também o metro é novo e branco
vai de montparnasse a lisboa
por que voltas, não se sabe
agora está pronto a ir
lado a lado perto
peito oblíquo ao tempo
entram os dois mas apenas um
fica do lado de lá da porta firme
já invisível
não se sabe quem tomou a decisão
mas quem ficou não pôde ficar
saltou para o nicho estreito
lugar reservado aos loucos
sem lugar
fim à vista! ouviu-se do mastro
lugar reservado aos loucos
sem lugar
fim à vista! ouviu-se do mastro
- o que é uma roda de ferro
senão a força do mar? -
lado a lado longe
peito face ao tempo
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Tales from aboard the Louxor*
regressar a Ítaca bordando os fios desfeitos
e deles fazer as mãos que rasgam o tempo
em bocados que a maré trouxesse
como algo ainda inteiro
memória afinal é coisa
de futuro
* para J. e L.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
poema para celebrar*
ouviríamos a milonga triste
bailaríamos a sentimental
e não nos escaparia nenhum acorde
e não nos calaria nenhum silêncio
neste tempo
cabemos tu e eu
e a eternidade
antes das velas,
um desejo.
*para o Ademar, no dia do nosso aniversário
domingo, 7 de dezembro de 2014
Dístico para traduzir*
bloom is the only state flowers can hold
a reclining verb on a given day
*para a María Alonso Seisdedos
domingo, 9 de novembro de 2014
pormenor*
flagrante comissura
mar leito de rios
mar dos naufrágios
mar gota a gota
lábio inferior
lábio superior
boca
geografia exacta
do desejo escultor
na trégua da palavra
resvalo doce
e temível
que o pintor louvou
ponte barca águas
onde corre ainda
o ciúme de Baco
o amor da Tágide
canto em chão d'exílio
ouço descalça o vibrar
do tempo de
vagar meu
rosa de carne e alma
o teu beijo
*Retrato de Camões, Fernão Gomes
*Retrato de Camões, Fernão Gomes
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Marfisa
ainda se vêem os laranjais
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites
domingo, 12 de outubro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
a mão
como resistir à última maneira de dizer
talvez deixando uma nesga de fracasso
um naco de pão arrancado
repeti-lo: imperfeito!
nunca nada é infinito
nunca nada é derradeiro
talvez deixando uma nesga de fracasso
um naco de pão arrancado
repeti-lo: imperfeito!
nunca nada é infinito
nunca nada é derradeiro
domingo, 28 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
beira de mar
sei tudo sobre ti
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos
se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos
se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo
ambulante
até a margem tem um centro
e nele caminha de passo incerto
como quem evita a quase queda no quase rio
a menina da borda d'água
do pudor
acaso grande aquele o de
ter um casaco escuro
corte perfeito
depois de nu ainda
o envergava
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Saturno ao espelho
virar as costas é ainda e cada vez mais
sentar-se lado a lado nas sombras
que o tempo aumenta
ponteiro ímpio
e nu
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
sábado, 16 de agosto de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Para ti, 4 anos depois
olho para a curva da estrada e leio o pessoano aviso:
passou por aqui hoje e não voltou o homem com nome de mar
quinta-feira, 8 de maio de 2014
poema para colorir
anunciaste um castigo terrível
se a cor passasse da borda
que a minha mão tremeria
que tremia já e ainda
nem borda havia
desenhaste-a
forma finita e perfeita
lápis cego das limalhas
que escorregavam pela linha do real
e se perderam no papel
e no ar que beijei com a calma de ser assim
ficou em branco a tua forma perfeita
molde pequeno para os meus olhos
preencho com mão incerta
tudo o que fora nela
ficou
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