bailavas essa redonda privação da liberdade
sempre pela última vez
cerceando a minha
rodeando o meu espanto
com afagos que queimavam
caminhavas como quem grita
coroavas como quem ama
para logo te afastares
tímido agora
tantos e tantos anos de palco
e a modéstia inteira
mas onde quer que eu te visse
aquele chão era teu
todo teu
a liberdade era minha
toda minha
arresto doble, corazón
domingo, 20 de maio de 2018
Nombre
ya lo sabés, escribirlo, escribirlo hasta que se vaya!
al diablo la calidad y la métrica!
al diablo la ortografia y el idioma!
Todo es bueno, todo sirve
cuando comprendemos
un corazón
el tuyo
todo se hace claro,
bonitooo!
te encuentro de tantas maneras ahora...
vos sabés
y sabés como de un verso al otro
todo cambia
así que ayúdame a escribirlo
hasta que se vaya
a cuatro manos y un corazón
hasta que se vaya la nube de hierro
este horrible descompás
que nunca previmos
te sabía ahí y
a veces me iba
porque te sabía ahí
a veces me hago hoja cuando sopla el viento
y sigo caminos que son solo mios
otras veces me nacen raíces
que nada arranca
que miedo nos dá, a los vagabundos, un solo lugar!
ese lugar onde estás vos, es libre?
se puede ser hoja y arból al mismo tiempo?
hay buena sombra, largos caminos y buen piso para ronda de dos?
y se puede imaginar, creer en otra cosa y entristecer un poco alguna vez?
de un verso al otro, todo cambia
se me olvidó, perdona
siempre estabas
siempre estarías
y ahora hago preguntas al caos
hasta luego, solcito
al diablo la calidad y la métrica!
al diablo la ortografia y el idioma!
Todo es bueno, todo sirve
cuando comprendemos
un corazón
el tuyo
todo se hace claro,
bonitooo!
te encuentro de tantas maneras ahora...
vos sabés
y sabés como de un verso al otro
todo cambia
así que ayúdame a escribirlo
hasta que se vaya
a cuatro manos y un corazón
hasta que se vaya la nube de hierro
este horrible descompás
que nunca previmos
te sabía ahí y
a veces me iba
porque te sabía ahí
a veces me hago hoja cuando sopla el viento
y sigo caminos que son solo mios
otras veces me nacen raíces
que nada arranca
que miedo nos dá, a los vagabundos, un solo lugar!
ese lugar onde estás vos, es libre?
se puede ser hoja y arból al mismo tiempo?
hay buena sombra, largos caminos y buen piso para ronda de dos?
y se puede imaginar, creer en otra cosa y entristecer un poco alguna vez?
de un verso al otro, todo cambia
se me olvidó, perdona
siempre estabas
siempre estarías
y ahora hago preguntas al caos
hasta luego, solcito
sábado, 19 de maio de 2018
quadra viva
não se sabe desde há quanto
se choram os mortos assim
tacteando o mistério
adiando o fim
se choram os mortos assim
tacteando o mistério
adiando o fim
Uno
deixámos o ver e o ouvir
e fomos em busca desse sentir
que Marino canta como perdido
que Marino canta como perdido
apenas para que o vamos buscar
Prece
quantas vezes te disse
todo o tempo do mundo
era a nossa medida
mão-cheia de tudo
temos todo o tempo do mundo
teremos todo o tempo do mundo
não era soberba, nem desafio, ó Deuses!
não era menosprezo pelas vossas sábias leis
que rodam e rodam e rodam sem olhar a quem!
era outra coisa
era a nossa lei
a única lei das mulheres e dos homens que se encontram
sentem-se um pouco
larguem as setas e as rodas e vejam-nos bem
o que seria de vós sem os nossos corpos e emoções?
o que seria de vós sem as nossas promessas e esperanças?
poupem a roda a quem está por Eros ferido
poupem a roda a quem o reconheceu e escancarou o peito!
prometemos nada dizer.
todo o tempo do mundo
era a nossa medida
mão-cheia de tudo
temos todo o tempo do mundo
teremos todo o tempo do mundo
não era soberba, nem desafio, ó Deuses!
não era menosprezo pelas vossas sábias leis
que rodam e rodam e rodam sem olhar a quem!
era outra coisa
era a nossa lei
a única lei das mulheres e dos homens que se encontram
sentem-se um pouco
larguem as setas e as rodas e vejam-nos bem
o que seria de vós sem os nossos corpos e emoções?
o que seria de vós sem as nossas promessas e esperanças?
poupem a roda a quem está por Eros ferido
poupem a roda a quem o reconheceu e escancarou o peito!
prometemos nada dizer.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Nico...
a outra ponta do laço
tinha-la tu
se soubesses o que custa
tenho a certeza que voltavas
tomando mate no pátio da casa
voando em zamba ao meu encontro
e depois juraríamos de novo pelo presente
o mais sagrado de todos os tempos nossos
tempo do sentir
tempo do querer
é absolutamente inútil pôr em verso
o que a morte nos roubou
nenhuma palavra chegou para dizer a felicidade
nenhuma palavra chega para dizer a perda
eu não tinha outra ambição
queria apenas não morrer
antes de te voltar a ver
não sou capaz de entender o que significa
já não estares
se eu estou
tinha-la tu
se soubesses o que custa
tenho a certeza que voltavas
tomando mate no pátio da casa
voando em zamba ao meu encontro
e depois juraríamos de novo pelo presente
o mais sagrado de todos os tempos nossos
tempo do sentir
tempo do querer
é absolutamente inútil pôr em verso
o que a morte nos roubou
nenhuma palavra chegou para dizer a felicidade
nenhuma palavra chega para dizer a perda
eu não tinha outra ambição
queria apenas não morrer
antes de te voltar a ver
não sou capaz de entender o que significa
já não estares
se eu estou
quarta-feira, 16 de maio de 2018
tempo inteiro
há uma canção árabe antiga que se parece com o teu silêncio
espera devagar que as cordas desenhem
nos dedos do tempo
as minhas mãos
no Goya
às 6
espera devagar que as cordas desenhem
nos dedos do tempo
as minhas mãos
no Goya
às 6
segunda-feira, 14 de maio de 2018
A Inauguração
chegámos ao fim dos tempos
explode-me o peito de não ter palavras
que te levantem para que ouças que afinal
a pedra da injustiça não ergueu paredes
a bala silva só a canção do surdo
e nunca a nossa
nós, os que ouvimos
nós, os que sentimos
amarga-nos o gosto do metal e
sangramos quando feridos
a lança ou palavra
pesa-me que não te levantes
queria dizer-te que sinto os lábios secos
com tanta poeira da história
sei e sinto o gosto do sangue
de quem ainda fica um pouco mais
e se despede devagar da ilusão do chão comum a que chamamos humanidade
mordo os lábios devagar e desfraldo a única bandeira a inaugurar
o único lugar soberano, chão de mar e vento
que nunca mais poderei nomear
cai o pano largo
Gaza-Lisboa, 14 de Maio de 2018
sábado, 28 de abril de 2018
El Faro
contame
conta-me como são os caminhos
que ligam a rue du temple
a villa urquiza
decime
diz-me que compás
é a palavra-medida perfeita
para quem tragou o mar todo
e agora orienta a mão de apoio
para o coração quente quando nevava
e os olhos perdidos para o pássaro de prévert
acordate
conjuga-nos só em tempos verbais
que caibam na rosa-dos-ventos
volta completa de horizonte
em busca de sentido
abril-sempre.
sábado, 9 de dezembro de 2017
Descansando do Presente*
de tudo o que já se perdeu no mundo
de tudo o que se desfaz e acaba
quanto nos fica nas mãos
quanto salva a memória?
entreguei-te ao Sul
andas por Santiago
por Neuquén
Nîmes
perco-te de casa
das gavetas fechadas
dos quartos cheios de tudo
passeias no mundo que temias
e amas o imenso redondo da Patagónia
as montanhas do Chile e as cores das travessias
o marchand de fleurs com olhos de mar
(que nome lhe darias?)
com todos te sentas à mesa
contando os dias
e por não teres já mão no destino
esperas-me em La Nacional
ou no Goya
e da letra do tango que te ensinei
dizes os versos que sabes que amo
brillaban tus ojos negros
claridad de luna llena
e continuas a escrever.
*Ao Ademar Ferreira dos Santos (09-12-1952 - ...).
de tudo o que se desfaz e acaba
quanto nos fica nas mãos
quanto salva a memória?
entreguei-te ao Sul
andas por Santiago
por Neuquén
Nîmes
perco-te de casa
das gavetas fechadas
dos quartos cheios de tudo
passeias no mundo que temias
e amas o imenso redondo da Patagónia
as montanhas do Chile e as cores das travessias
o marchand de fleurs com olhos de mar
(que nome lhe darias?)
com todos te sentas à mesa
contando os dias
e por não teres já mão no destino
esperas-me em La Nacional
ou no Goya
e da letra do tango que te ensinei
dizes os versos que sabes que amo
brillaban tus ojos negros
claridad de luna llena
e continuas a escrever.
*Ao Ademar Ferreira dos Santos (09-12-1952 - ...).
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
56*
remexer
só em planos futuros
alinhar as velas pelo vento
e soprar com ele
guardar espaço para logo
e nenhum para depois
e demorar.
* Para a María Alonso Seisdedos, pelo novo ano a estrear.
só em planos futuros
alinhar as velas pelo vento
e soprar com ele
guardar espaço para logo
e nenhum para depois
e demorar.
* Para a María Alonso Seisdedos, pelo novo ano a estrear.
domingo, 3 de dezembro de 2017
Regresso a Buenos Aires
é como se o piano nos viesse buscar
dedilhando um compás adentro
seguindo-nos pela pista
rondando o desejo
abraça-nos o bandonéon
desfaz-nos o bandonéon
segue a ronda sabendo-nos presos ao momento
segue sem pena dos fantasmas que deixamos
lamento eterno de não poder durar
látego abafado da tua voz
e o teu corpo revolto a tudo dizer
este é o único momento
este é o momento sem agora
que penas contínuas são essas
que nunca as conseguimos contar?
ainda há pouco estava nos teus braços
agora mesmo te senti comigo
ilusão antiquíssima
segue comigo o fio
apagam-se as luzes e saímos
repetimos os versos, um a um,
dois por quatro perdidos na noite
a ronda agora é de dois
roubámos o piano e o bandonéon
acordamos livremente o olhar e os passos
contamos cada segundo como nosso
contamos os dedos da fortuna e
agora estamos prontos
este tango nasce assim
tempo desmedido
tempo vivido
Crepitante
Não se ateia fogo com fósforos usados
Fogo é e será sempre a palavra que deixas nascer
Que já nasceu e te toma com tanto desconcerto
Que não saberias nunca mais dizer
Outra
Morreremos pois desse frio triste
Da palavra que não lasca
Pedra inútil e vazia
Cópias magras e infelizes
Inutilmente iguais e acabados
Arde ou não arde
Arde ou não arde
Cabeça breve
Cabeça chã
Qualquer coisa é chama
Qualquer coisa arde
E não se vê
Chamem Camões bombeiro
E os Sapadores da normalidade!
Em cada fósforo um verso a incandescer
No imenso mar gelado de não ter nada para dizer...
Qualquer coisa é chama
Qualquer coisa arde
E não se vê
Chamem Camões bombeiro
E os Sapadores da normalidade!
Em cada fósforo um verso a incandescer
No imenso mar gelado de não ter nada para dizer...
Fogo é e será sempre a palavra que deixas nascer
Que já nasceu e te toma com tanto desconcerto
Que não saberias nunca mais dizer
Outra
domingo, 29 de outubro de 2017
no bosque
colhes as bagas no bosque feito de mar
cuidando de não esmagar o azul
nos dedos quentes
arredondas o gesto e o semblante
agora tudo é aquela baga pequena e doce
e levemente acre
a lembrar o desafio do sangue às noites frias
corre, mensageiro, corre-me nas veias e leva-me
ou esmaga-me entre os dentes do desejo que nos perde!
leva-me nos amores sentidos entre a noite e o mar e o vermelho
ou perde-me na borda do longe e da espera, mastro do meu querer!
agora tudo é aquela baga pequena e doce e acre e tua
sábado, 28 de outubro de 2017
sopa de pedra
essa água que me dás compõe-se
da minha sede
estas letras
de tudo o que passou
por isso
não te enganes
se te peço apenas pouco mais
que nada
esta pedra é a minha perene pergunta
aos mistérios do mundo
com o que me trouxeres
farei a resposta
um talo
uma espiga
alguns bagos em
mão-cheia medida trémula
nada que se possa deixar escrito
quem entenderia esta métrica na cozinha?
comemos
até termos de novo
fome
da minha sede
estas letras
de tudo o que passou
por isso
não te enganes
se te peço apenas pouco mais
que nada
esta pedra é a minha perene pergunta
aos mistérios do mundo
com o que me trouxeres
farei a resposta
um talo
uma espiga
alguns bagos em
mão-cheia medida trémula
nada que se possa deixar escrito
quem entenderia esta métrica na cozinha?
comemos
até termos de novo
fome
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Da Marinha a São Pedro
abrindo as copas verdes e o caminho
não havia nada que não pudesse começar ali
o sol
gosto primeiro dos dias longe de casa
a luz dançante dos pinheiros
a calma tão estranha da primeira viagem
e o verde escuro das amoras escondidas
hoje, é a chuva mansa que me leva até ao Pinhal
onde tudo termina no barro triste das cinzas longas
nau sem fundo nem glória
hoje, a chuva que cresce abre as copas da memória
a uma promessa que faltou eternamente cumprir
nau de mares abertos e poetas no cais
sempre à espera do mundo melhor
abro o livro na mesma página
em que te deixei
terça-feira, 10 de outubro de 2017
domingo, 1 de outubro de 2017
O sonho de Don Osvaldo
vi-te uma única vez
e essa vez me bastou
passávamos pela noite
soberanamente abraçados
no silêncio de quem tudo tem
quando Don Osvaldo, sempre ele,
pegou na orquestra, na pista, no tempo
e nos levou ao que não tem nome nem forma
vi-te todo de uma só vez
de olhos bem fechados
no mais alto lugar
em mim
ver-te assim
é ter tocado os limites
é saber que outro és
no caminho de fogo
em mim
ver-te
é ver-te assim
e essa vez me bastou
passávamos pela noite
soberanamente abraçados
no silêncio de quem tudo tem
quando Don Osvaldo, sempre ele,
pegou na orquestra, na pista, no tempo
e nos levou ao que não tem nome nem forma
vi-te todo de uma só vez
de olhos bem fechados
no mais alto lugar
em mim
ver-te assim
é ter tocado os limites
é saber que outro és
no caminho de fogo
em mim
ver-te
é ver-te assim
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Vals*
falta sempre tão pouco
para nada nunca mais acabar
que a tua voz nunca nada me prometa
que os teus braços sempre se desprendam dos meus
viver é poder recomeçar ou recordar que um dia se começou
a esperar
se eu te pudesse dizer que comecei a viver neste preciso momento
e que não há absolutamente nada para além dele
que um vals é o tesouro que nenhum salteador sequer sonha
que um só instante vale a história dos tempos
que o que um dia se sentiu
é o compasso entre dois passos
um corpo inteiro que canta o esplendor
de caminhar os dias até ti
*"Un Momento" (Héctor Stamponi)
pela Orquestra de Carlos di Sarli, canta Oscar Serpa
um corpo inteiro que canta o esplendor
de caminhar os dias até ti
*"Un Momento" (Héctor Stamponi)
pela Orquestra de Carlos di Sarli, canta Oscar Serpa
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Moldura*
não é o mar que é belo
o que é belo,
é melhor dizê-lo assim
sem metáfora
nem rima,
o que é belo
é o tempo de lhe apanhar
os bocados de sol dentro, ao mar
ao mar, o que é belo
nele e teu
é que o olhem
e se demorem um pouco
o tempo de apanhar o que
não se pode nem escrever
nem guardar
*esquadria em Alberto Caeiro para uma fotografia
o que é belo,
é melhor dizê-lo assim
sem metáfora
nem rima,
o que é belo
é o tempo de lhe apanhar
os bocados de sol dentro, ao mar
ao mar, o que é belo
nele e teu
é que o olhem
e se demorem um pouco
o tempo de apanhar o que
não se pode nem escrever
nem guardar
*esquadria em Alberto Caeiro para uma fotografia
domingo, 24 de setembro de 2017
Maldonado
De seu nome Santiago
de sua fé Resistente
de seu credo artesão
desaparecido
desaparecido
sorte dos que teimam
em amar o chão que pisam
sorte dos que dão o seu corpo
ao trespasse obsceno da modernidade
Direito ancestral a estar aqui
sabe-o a raiz e o sol
di-lo a pedra e o vento e
todas as sagradas famílias
sem cordeiros Benetton
Daqui não passam!
o meu corpo é o limite absoluto
a minha vida o lamento que esventra
a miséria de quem não cuida
a miséria de quem não sabe
a morte de quem não vê
Santiago, são todos
Santiago, onde estamos?
Desaparecida,
humanidade.
de sua fé Resistente
de seu credo artesão
desaparecido
desaparecido
sorte dos que teimam
em amar o chão que pisam
sorte dos que dão o seu corpo
ao trespasse obsceno da modernidade
Direito ancestral a estar aqui
sabe-o a raiz e o sol
di-lo a pedra e o vento e
todas as sagradas famílias
sem cordeiros Benetton
Daqui não passam!
o meu corpo é o limite absoluto
a minha vida o lamento que esventra
a miséria de quem não cuida
a miséria de quem não sabe
a morte de quem não vê
Santiago, são todos
Santiago, onde estamos?
Desaparecida,
humanidade.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Chico
impaciente, mal sentada
regressando das vindimas
a passageira do comboio contou a sua história
que começa quando foi abandonada
e acaba nestes versos
e nela coube, de Caxarias ao Entroncamento,
a mãe fugida e o pai amoroso
a morte do irmão jovem
(sempre o coração)
os filhos gémeos
Bernardo
Beatriz
Vila Nova da Barquinha
a casa e a horta farta
e o melro,
Chico
a solidão do pai
as mãos que cuidam
e o voo alegre do Chico
a solidão de todos
e as voltas que a vida dá
rasantes, breve.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
ronda
quantas palavras vãs sobrevivem ainda
quantos momentos vividos passaram sem memória
rodamos no turbilhão do tempo
enganamos os anjos que guardamos
não há dia que não nos derrote
passam todos e levam o que somos
sigamo-los
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
El pañuelo rojo
envolvo a memória no mesmo golpe alado
que desferes neste preciso momento
neste momento em que preciso
que me envolvas nas asas
de me seguires de perto
roçando o meu desejo
disfarçado de arresto
na aula de hoje aprendi a golpear o tempo
com os estilhaços de um pañuelo
que desferes neste preciso momento
neste momento em que preciso
que me envolvas nas asas
de me seguires de perto
roçando o meu desejo
disfarçado de arresto
na aula de hoje aprendi a golpear o tempo
com os estilhaços de um pañuelo
terça-feira, 12 de setembro de 2017
alfabetizador
diz-me que letras e palavras juntavas
para dar a entender o espanto de tanta gente
debaixo da inexorável roda que a todos leva
missão nobre, por certo, a tua
a de não ter por manto a lã ou o linho
mas a árvore manchada de tinta que outros cortaram
amanhã regressas para mais uma lição
sobre a infalibilidade da lógica quando bem aplicada
e perderás de vista a mão que te protegeu do sol e da sede
e não te aperceberás do aluno que separou alfabetiza dor
propositadamente
diz-me, que palavras e letras juntavas para dizer
o amor?
do desapego
pela via do Buda
atinge-se essa indiferença
a que alguns chamam felicidade
eu
prefiro sofrer a tua ausência
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que regresses a mim até já não poderes voltar
eu
prefiro que me mates de saudades e de sentir
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que esconjures pátria e bandeira
e me peças asilo ao abrigo
da normativa maior
aquela que diz
vamos!
eu
prefiro que já não estejas
a nunca teres estado
eu
na verdade da via que é apenas minha
agarro-me a essa diferença que és tu
em mim
e
quando já não estivermos
quando as vias e as vidas cessarem
aquele momento que nos apegou
viverá ainda.
atinge-se essa indiferença
a que alguns chamam felicidade
eu
prefiro sofrer a tua ausência
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que regresses a mim até já não poderes voltar
eu
prefiro que me mates de saudades e de sentir
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que esconjures pátria e bandeira
e me peças asilo ao abrigo
da normativa maior
aquela que diz
vamos!
eu
prefiro que já não estejas
a nunca teres estado
eu
na verdade da via que é apenas minha
agarro-me a essa diferença que és tu
em mim
e
quando já não estivermos
quando as vias e as vidas cessarem
aquele momento que nos apegou
viverá ainda.
domingo, 10 de setembro de 2017
Vargas e o Arcanjo
ambos derrotados pelo mar
maré constante da vida
que agora te traz
à orla da praia
voz ou pedra partida
que agora me traz
à orla do sonho
voz ou pedra partida
ambos derrotados pelo mar
naufragamos no poder ser
quando Vargas canta
quando o Arcanjo luta
vamos mar largo e alto
no mais sentido sem rumo
eco de todos os navegantes
onde estamos e estamos sem fim.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Um
como poderia sentir a tua falta
se o teu abraço me move e estreita
a cada instante?
afasta-te um pouco
aí, no limite do possível
e diz-me
que tempo é este que incessantemente
nasce?
se o teu abraço me move e estreita
a cada instante?
afasta-te um pouco
aí, no limite do possível
e diz-me
que tempo é este que incessantemente
nasce?
da tempestade
nada sobrou dos ventos e marés
tudo o que era matematicamente certo
é agora escombro ou lasca
compara com o meu coração!
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Goya, 10h30
também sou artesã, sabes,
moldo a arte de estar
crio tempo
improviso memórias
e submeto o fugaz
com chicote
podes ler o que foi
e riscar as palavras
a tinta ou fuga
a tinta é frágil
como o papel
como o ser
talvez só a ideia
do livro azul
seja eterna
mero caderno
de uma viagem
por acontecer
café cais
de um porto
desconhecido
canto seguro
que vê passar
ventos e marés
de onde estou
as gentes e os bens
parecem-me fantasmas
de palpável
só a tua espera
e a caneta pousada
moldo a arte de estar
crio tempo
improviso memórias
e submeto o fugaz
com chicote
podes ler o que foi
e riscar as palavras
a tinta ou fuga
a tinta é frágil
como o papel
como o ser
talvez só a ideia
do livro azul
seja eterna
mero caderno
de uma viagem
por acontecer
café cais
de um porto
desconhecido
canto seguro
que vê passar
ventos e marés
de onde estou
as gentes e os bens
parecem-me fantasmas
de palpável
só a tua espera
e a caneta pousada
terça-feira, 5 de setembro de 2017
De cuervos y brujos*
nunca mais foi dia claro
a luz toda se escondeu
nos golpes de asa e nas voltas de chão
entre os lábios das cordas
sob teclas frementes
adentro
no toque surdo da pele do tambor
adentro
quando sofre, diz devagar
bombo legüero...
que longe vai o dia claro...
e inteira cai nos braços da noite
uma e outra vez
e esquece
não voltou mais aonde a esperavam
agora, afaga pupilas e acende rastilhos
e é pão e vinho e ar para a boca dos que penam
em cada golpe de asa e em cada volta de chão
glosa que grita o sangue que corre nas veias morenas
glosa que grita o sangue com que mordemos o desejo
glosa que a cada momento se precipita para o fundo de tudo
tudo isso é luz! luz que já não pode seguir o seu caminho antigo
presa lenta da espera do movimento seguinte, esse de onde nascem
os reflexos de ti.
* a partir da versão da"Zamba de Lozano"por El Cuervo Pajón y los Brujos
improviso para passeantes
vem comigo passear nas ruínas dos sonhos
castelos amargos por entre mãos verdadeiras
de todos os prédios da cidade
o que mais gosto é aquele que me deixa ver o sol
de todas as flores de rua
a que mais gosto é aquela em que os teus olhos pousaram
e de todas as absolutas coisas do mundo
a que mais gosto é aquela que só o momento pode dar
por isso, quando vieres,
traz-me apenas uma vontade completamente nua
castelos amargos por entre mãos verdadeiras
de todos os prédios da cidade
o que mais gosto é aquele que me deixa ver o sol
de todas as flores de rua
a que mais gosto é aquela em que os teus olhos pousaram
e de todas as absolutas coisas do mundo
a que mais gosto é aquela que só o momento pode dar
por isso, quando vieres,
traz-me apenas uma vontade completamente nua
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
manual de interpretação de sonhos
resiste como puderes
arma-te do aqui e agora
sejam essas as tuas únicas palavras
os loucos no divã são ouvidos por parvos sem remissão
beatas tecedeiras de ocultos e dizeres que a literatura dos pares aprovou!
resiste, experimenta resistir
talvez pelo meio tenhas ouvido
"existe"
e estejas já a associar algo a alguma coisa e tudo isso já puxou por mais fios que Ariadne algum dia pudesse conter na sua única vontade absolutamente despedaçada...
tud está entrelaçado, parece-me ouvir
e se estivesse, tens os olhos para o ver ou as mãos para o destrinçar?
resiste, vá lá, resiste, arma-te ou ama-te
do aqui e agora
deixa cair letras e palavras e mitos no esquecimento
arma-te contra todos os planos futuros e as agendas fúteis da modernidade
ama-te resistindo nesse aqui e agora
isso, aqui e agora,
em que me armas ou amas sem medo.
notas para zamba
fiz da tua ausência um abismo de paredes lentas com chão
e nele desenho o passar das horas que caminham
seguras, ávidas
fiz da tua ausência uma montanha rarefeita
para ter de te pedir um pouco desse ar
com que me beijas
fiz da tua ausência um nó
para nele poder atar o lenço de uma zamba
que ainda não bailámos
e fiz, faço!, da tua ausência
a cadência que embala
o tempo.
e nele desenho o passar das horas que caminham
seguras, ávidas
fiz da tua ausência uma montanha rarefeita
para ter de te pedir um pouco desse ar
com que me beijas
fiz da tua ausência um nó
para nele poder atar o lenço de uma zamba
que ainda não bailámos
e fiz, faço!, da tua ausência
a cadência que embala
o tempo.
domingo, 3 de setembro de 2017
depois de Pugliese
não era exactamente como um laço e o seu proverbial nó
nem como aqueles campos invisíveis a que se chama atracção
era mais parecido com o som que faz o desejo
quando corre pelos bandoneóns
era semelhante ao toque que a tecla pressente
quando aproximas o teu corpo do meu
era igual à orquestra esperando
o nosso compás
era assim que eu to diria
se me pudesses ouvir
domingo, 13 de agosto de 2017
domingo, 18 de junho de 2017
guarda-fogo
sobrevoo a estrada cortada
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta
neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho
o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou!
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças
sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta
neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho
o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou!
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças
sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade
terça-feira, 6 de junho de 2017
Exercício de Estilo
entre põe uma suspeita
calca devagar ou
separa para sempre
lugares mágicos
lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos
e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum
dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos
calca devagar ou
separa para sempre
lugares mágicos
lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos
e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum
dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos
segunda-feira, 22 de maio de 2017
desacerto
chegar cedo sem perturbar nada que se siga
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois
são seis da tarde
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois
são seis da tarde
domingo, 30 de abril de 2017
passeio dominical
é a mais segura que temos
rode, rode e volte a rodar
voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar
é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão
continuaria a rodar
volta eterna pelo lado de dentro
rode, rode e volte a rodar
voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar
é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão
continuaria a rodar
volta eterna pelo lado de dentro
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Para o Ademar
continuamos na montanha
na altura absolutamente inútil
de não estarmos mais perto de nada
os comboios fazem as mesmas viagens
guardo ainda todas as tuas mensagens
se houvesse uma janela
e uma falha no vidro
talvez assim
uma paisagem entrecortada
pelo esquecimento
e um novo horário para me ires
esperar
Para o Ademar Ferreira dos Santos
(9/12/1952)
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
domingo, 17 de maio de 2015
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