sábado, 2 de junho de 2018

Epitáfio

ir apenas quando se acabassem os sonhos
ir depois do último desejo
ir sem pena

tenho o teu epitáfio por escrever
teimas em viver

escondo a data e baralho as horas
entro no comboio de madrugada
entro na paisagem onde estás
os monstros são claros
deixam-se acariciar
penso que talvez seja
uma estranha passageira
que se levanta a meio da viagem
e sonha que sai do comboio em andamento
para entrar no gelo branco e quente do desconhecido

está gente à tua espera
faltaste ao ensaio
e ao dia

há quem encerre desejos como se fossem portas
há quem guarde sonhos com papel de embrulho
há até quem deite fora as penas
às segundas, quartas e sextas
junto com o lixo doméstico
indiferenciado
e diga ele
e não tu

a gente que te espera
guarda o tempo que te faltava
para chegares ao fim de todos os sonhos

não se escrevem epitáfios com fios do real
bem atados a quem somos
aqui não jaz
ninguém



















quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ara


as palavras carregam
a madeira que pisaste com todo o sentir
e o gesto brutal que no-la arrancou
rasgo dentro de mim o verbo
que a reduza a pó ou
que a guarde

as palavras carregam
o incenso que sobe até ao Sul
e o altar onde não me deito
rasgo dentro de mim o verbo
que cale a missa de um ou
que te cante

as palavras carregam-nos
peso-mundo
vão



Herança

coube-me em sorte
cruel quinhão
3 começos

Cartografia

assoma já a onda que nos vai quebrar a todos
por isso, navego calmamente contigo

não me chegou nenhuma data
nada sei desse mar por vir
não me preparo

um dia
visitou-me nitidamente 
a tua futura ausência
corria a madrugada
e nela chegava a
presença audível
do teu abraço
no meu peito

assomava a onda que nos vai quebrar a todos
convoquei Magdala para que nos afundássemos juntas
na voz de Laborde lobo náufrago eterno

cabeça simplesmente na almofada
adormeci

não me preparei
não sabia

acordei num dia completamente novo
e rodei o compasso pelo gozo da roda

assomava-me o teu nome aos lábios e aos dedos
temos todos a mesma idade nesse primeiro dia

meço a onda pelo cruzamento de distâncias
concluo que nos afogamos

nascemos no mesmo mar que nos há de quebrar

la última noche
el punto final

rodo o compasso calmamente
posição estimada
adentro




terça-feira, 29 de maio de 2018

20 watts


reparaste
o mundo encolheu
o mar secou

o coração
besta mecânica
galopa sem freio

debate-se
não entende
paredes brancas

agarra-se
ao seu próprio som
dança ainda uma vez

e esperança-se

descremos os dois
reparaste
do fim

mundo rochedo
fio de sal

os físicos postulam
que o meu tempo e o teu
existe existiu existirá

descremos todos do fim

o coração
besta mecânica
galopa, desmedido

e esperança-se

mundo grão
gota

nada a fazer
dano irreversível
máquina desligada
off

por 20 watts

o coração
grão
gota
pó




domingo, 27 de maio de 2018

Salavina

espero pacientemente
que o piano de Ariel Ramírez
nos não acompanhe assim
nos não fira assim
boca de mar imenso
engolindo o correr dos dias


El Maipú

mudaram o chão onde caminhavas
a madeira guarda tudo, como nós

tábuas de prazer e mágoa
pedaços de vida

entram os moços inocentes na sala
vêm recolher o que é apenas chão
rasgado e irregular
não serve já
não sabem
ainda bem

carregam tudo rapidamente
não há tempo a perder!

não há tempo a perder
temo-lo ainda todo

pedaço-chão
inteiro

sábado, 26 de maio de 2018

palavras roubadas em contra-mão

viví
para que esta pena
desaparezca






quinta-feira, 24 de maio de 2018

só assim se pode dizer:
morir de amor

morrer de morte lavrada em auto, não
morrer de homenagens derradeiras, não
morrer de lápide e fotografia, não

afasto todas as mãos que não te cuidam
mordo quem de ti se abeire de cara tapada
escorraço coveiros e comadres
mato os abutres
convoco deus
o teu

digo-Lhe
morir de amor

era esse o único plano
era esse o único plano!
depois, um dia, sim, morrer apenas
da morte de decidir a cor do caixão
da morte que guarda relíquias em gavetas
da morte que chora, recorda e depois esquece

morir de amor é a única morte possível
a única que sabíamos
a única que dizíamos
tempo adentro

digo-Lhe
este é o nosso mistério
nunca O alcançarás








terça-feira, 22 de maio de 2018

Improviso para te levar ao baile*

viajo para a frente
estou prestes a ler o improviso
que arrancarias destes estranhos dias

vou a tempo de te dizer que não é verdade
que me fuja sempre o pé para a dança do adjectivo
vou ainda a tempo de te contar Paris de luz apagada
Paris sem Prévert nem Blake
cegos ambos para olhos de mar que me tragam
songs of innocence and of experience
Paris sem tangos cantados a meio da tarde no boulevard
incessantes partidas e portas fechadas

estou a tempo de te contar
e esperar pelo que vais tecer
que andei pelos cantos do Sul
que saberias reconhecer

excepto um

o nicho perfeito, a pele quente
o compasso de espera
antes





* Para o Ademar Ferreira dos Santos
   09/12/1952 - 22/05/2010
 


segunda-feira, 21 de maio de 2018

7 noites

ainda não

nesse dia (pela manhã?) acordaste
como todos os dias
e levantaste-te
corria o massacre em Gaza
escreviam-se poemas sobre o massacre em Gaza
escreviam-se poemas sobre o violentíssimo desaparecimento da Realidade
faltavam palavras para falar dos que tombavam
a menos que nos explodisse o peito
nesse dia corria o dia de hoje
a Realidade avisava
esse dia é hoje
recebo os pedaços do teu peito
recebes tu os meus
no mundo possível da manhã do dia catorze
recuemos um pouco
treze de Maio
tranquila me dizia
se me tivesse inquietado
se me tivesse pressentido num dia como o de hoje
se me tivesse prevenido com as teorias e postulados dos Mundos Possíveis
e te tivesse gritado para não me deixares ver o dia de hoje vinte e um de Maio?

se pudesses ver como o princípio do tempo se parece tanto com o seu fim

a rapariga com olhos de caleidoscópio que encantou os alunos esta manhã chama-se
Lucy (in the Sky with Diamonds)
o Miguel que veio da Galiza, como a María, dá-me versos sem querer, pão amargo para a boca
daquele mate parecido com o gosto da tua língua na minha
na camisola do petiz enamorado esta manhã lia-se LEIBNIZ em grandes letras nas costas
ainda o filósofo a rondar-nos com todos os seus mundos possíveis às costas
e nós que lhe damos razão porque
ouve:
como teria Leibniz imaginado que chegaríamos aqui
a este amargo dia sem mate
sem ti?



 

domingo, 20 de maio de 2018

Arresto Doble

bailavas essa redonda privação da liberdade
sempre pela última vez
cerceando a minha
rodeando o meu espanto
com afagos que queimavam

caminhavas como quem grita
coroavas como quem ama
para logo te afastares
tímido agora

tantos e tantos anos de palco
e a modéstia inteira

mas onde quer que eu te visse
aquele chão era teu
todo teu

a liberdade era minha
toda minha

arresto doble, corazón






Nombre

ya lo sabés, escribirlo, escribirlo hasta que se vaya!
al diablo la calidad y la métrica!
al diablo la ortografia y el idioma!
Todo es bueno, todo sirve
cuando comprendemos
un corazón
el tuyo
todo se hace claro,
bonitooo!
te encuentro de tantas maneras ahora...
vos sabés
y sabés como de un verso al otro
todo cambia
así que ayúdame a escribirlo
hasta que se vaya
a cuatro manos y un corazón
hasta que se vaya la nube de hierro
este horrible descompás
que nunca previmos
te sabía ahí y
a veces me iba
porque te sabía ahí
a veces me hago hoja cuando sopla el viento
y sigo caminos que son solo mios
otras veces me nacen raíces
que nada arranca
que miedo nos dá, a los vagabundos, un solo lugar!
ese lugar onde estás vos, es libre?
se puede ser hoja y arból al mismo tiempo?
hay buena sombra, largos caminos y buen piso para ronda de dos?
y se puede imaginar, creer en otra cosa y entristecer un poco alguna vez?
de un verso al otro, todo cambia
se me olvidó, perdona
siempre estabas
siempre estarías
y ahora hago preguntas al caos
hasta luego, solcito



sábado, 19 de maio de 2018

quadra viva

não se sabe desde há quanto
se choram os mortos assim
tacteando o mistério
adiando o fim

Uno



deixámos o ver e o ouvir
e fomos em busca desse sentir
que Marino canta como perdido
que Marino canta como perdido
apenas para que o vamos buscar

Prece

quantas vezes te disse
todo o tempo do mundo
era a nossa medida
mão-cheia de tudo

temos todo o tempo do mundo
teremos todo o tempo do mundo

não era soberba, nem desafio, ó Deuses!
não era menosprezo pelas vossas sábias leis
que rodam e rodam e rodam sem olhar a quem!
era outra coisa
era a nossa lei
a única lei das mulheres e dos homens que se encontram

sentem-se um pouco
larguem as setas e as rodas e vejam-nos bem
o que seria de vós sem os nossos corpos e emoções?
o que seria de vós sem as nossas promessas e esperanças?

poupem a roda a quem está por Eros ferido
poupem a roda a quem o reconheceu e escancarou o peito!

prometemos nada dizer.














sexta-feira, 18 de maio de 2018

Nico...

a outra ponta do laço
tinha-la tu
se soubesses o que custa
tenho a certeza que voltavas
tomando mate no pátio da casa
voando em zamba ao meu encontro
e depois juraríamos de novo pelo presente
o mais sagrado de todos os tempos nossos
tempo do sentir
tempo do querer
é absolutamente inútil pôr em verso
o que a morte nos roubou
nenhuma palavra chegou para dizer a felicidade
nenhuma palavra chega para dizer a perda
eu não tinha outra ambição
queria apenas não morrer
antes de te voltar a ver

não sou capaz de entender o que significa
já não estares
se eu estou

Al Compás


cada vez que lata mi corazón
latirá el tuyo



quarta-feira, 16 de maio de 2018

tempo inteiro

há uma canção árabe antiga que se parece com o teu silêncio
espera devagar que as cordas desenhem
nos dedos do tempo
as minhas mãos
no Goya
às 6




segunda-feira, 14 de maio de 2018

A Inauguração


chegámos ao fim dos tempos
explode-me o peito de não ter palavras
que te levantem para que ouças que afinal
a pedra da injustiça não ergueu paredes
a bala silva só a canção do surdo
e nunca a nossa
nós, os que ouvimos
nós, os que sentimos
amarga-nos o gosto do metal e
sangramos quando feridos
a lança ou palavra
pesa-me que não te levantes
queria dizer-te que sinto os lábios secos
com tanta poeira da história
sei e sinto o gosto do sangue
de quem ainda fica um pouco mais
e se despede devagar da ilusão do chão comum a que chamamos humanidade
mordo os lábios devagar e desfraldo a única bandeira a inaugurar
o único lugar soberano, chão de mar e vento
que nunca mais poderei nomear

cai o pano largo


Gaza-Lisboa, 14 de Maio de 2018

sábado, 28 de abril de 2018

El Faro

contame
conta-me como são os caminhos
que ligam a rue du temple
a villa urquiza
decime
diz-me que compás
é a palavra-medida perfeita
para quem tragou o mar todo
e agora orienta a mão de apoio
para o coração quente quando nevava
e os olhos perdidos para o pássaro de prévert
acordate
conjuga-nos só em tempos verbais 
que caibam na rosa-dos-ventos
volta completa de horizonte
em busca de sentido

abril-sempre.

 


sábado, 9 de dezembro de 2017

Descansando do Presente*

de tudo o que já se perdeu no mundo
de tudo o que se desfaz e acaba
quanto nos fica nas mãos
quanto salva a memória?

entreguei-te ao Sul
andas por Santiago
por Neuquén
Nîmes
perco-te de casa
das gavetas fechadas
dos quartos cheios de tudo

passeias no mundo que temias
e amas o imenso redondo da Patagónia
as montanhas do Chile e as cores das travessias
o marchand de fleurs com olhos de mar
(que nome lhe darias?)
com todos te sentas à mesa
contando os dias

e por não teres já mão no destino
esperas-me em La Nacional
ou no Goya
e da letra do tango que te ensinei
dizes os versos que sabes que amo
brillaban tus ojos negros
claridad de luna llena

e continuas a escrever.



*Ao Ademar Ferreira dos Santos (09-12-1952 - ...).





















sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

56*

remexer
só em planos futuros

alinhar as velas pelo vento
e soprar com ele

guardar espaço para logo
e nenhum para depois

e demorar.



* Para a María Alonso Seisdedos, pelo novo ano a estrear.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Regresso a Buenos Aires

é como se o piano nos viesse buscar 
dedilhando um compás adentro
seguindo-nos pela pista 
rondando o desejo
abraça-nos o bandonéon 
desfaz-nos o bandonéon
segue a ronda sabendo-nos presos ao momento 
segue sem pena dos fantasmas que deixamos
lamento eterno de não poder durar
látego abafado da tua voz 
e o teu corpo revolto a tudo dizer
este é o único momento
este é o momento sem agora

que penas contínuas são essas
que nunca as conseguimos contar?
ainda há pouco estava nos teus braços
agora mesmo te senti comigo
ilusão antiquíssima 
segue comigo o fio

apagam-se as luzes e saímos
repetimos os versos, um a um,
dois por quatro perdidos na noite
a ronda agora é de dois
roubámos o piano e o bandonéon
acordamos livremente o olhar e os passos 
contamos cada segundo como nosso
contamos os dedos da fortuna e
agora estamos prontos 
este tango nasce assim

tempo desmedido
tempo vivido







 

Crepitante

Não se ateia fogo com fósforos usados
Morreremos pois desse frio triste
Da palavra que não lasca
Pedra inútil e vazia
Cópias magras e infelizes 
Inutilmente iguais e acabados
Arde ou não arde
Arde ou não arde
Cabeça breve
Cabeça chã

Qualquer coisa é chama
Qualquer coisa arde
E não se vê
Chamem Camões bombeiro
E os Sapadores da normalidade!
Em cada fósforo um verso a incandescer
No imenso mar gelado de não ter nada para dizer...

Fogo é e será sempre a palavra que deixas nascer
Que já nasceu e te toma com tanto desconcerto
Que não saberias nunca mais dizer
Outra


domingo, 29 de outubro de 2017

no bosque

colhes as bagas no bosque feito de mar
cuidando de não esmagar o azul
nos dedos quentes
arredondas o gesto e o semblante
agora tudo é aquela baga pequena e doce
e levemente acre
a lembrar o desafio do sangue às noites frias
corre, mensageiro, corre-me nas veias e leva-me
ou esmaga-me entre os dentes do desejo que nos perde!
leva-me nos amores sentidos entre a noite e o mar e o vermelho
ou perde-me na borda do longe e da espera, mastro do meu querer!

agora tudo é aquela baga pequena e doce e acre e tua

 

  






sábado, 28 de outubro de 2017

sopa de pedra

essa água que me dás compõe-se
da minha sede

estas letras
de tudo o que passou

por isso
não te enganes

se te peço apenas pouco mais
que nada

esta pedra é a minha perene pergunta
aos mistérios do mundo

com o que me trouxeres
farei a resposta

um talo
uma espiga
alguns bagos em
mão-cheia medida trémula

nada que se possa deixar escrito
quem entenderia esta métrica na cozinha?

comemos
até termos de novo

fome





quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Do querer




dois por quatro igual a um


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Da Marinha a São Pedro

abrindo as copas verdes e o caminho
não havia nada que não pudesse começar ali
o sol
gosto primeiro dos dias longe de casa
a luz dançante dos pinheiros
a calma tão estranha da primeira viagem
e  o verde escuro das amoras escondidas

hoje, é a chuva mansa que me leva até ao Pinhal
onde tudo termina no barro triste das cinzas longas

nau sem fundo nem glória

hoje, a chuva que cresce abre as copas da memória
a uma promessa que faltou eternamente cumprir

nau de mares abertos e poetas no cais
sempre à espera do mundo melhor

abro o livro na mesma página
em que te deixei










terça-feira, 10 de outubro de 2017

Um

talvez seja estranho
este querer
creio que sim
quero que o seja


domingo, 1 de outubro de 2017

O sonho de Don Osvaldo

vi-te uma única vez
e essa vez me bastou
passávamos pela noite
soberanamente abraçados
no silêncio de quem tudo tem
quando Don Osvaldo, sempre ele,
pegou na orquestra, na pista, no tempo
e nos levou ao que não tem nome nem forma

vi-te todo de uma só vez
de olhos bem fechados
no mais alto lugar
em mim

ver-te assim
é ter tocado os limites
é saber que outro és
no caminho de fogo
em mim

ver-te
é ver-te assim

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Vals*

falta sempre tão pouco
para nada nunca mais acabar
que a tua voz nunca nada me prometa
que os teus braços sempre se desprendam dos meus
viver é poder recomeçar ou recordar que um dia se começou
a esperar

se eu te pudesse dizer que comecei a viver neste preciso momento
e que não há absolutamente nada para além dele

que um vals é o tesouro que nenhum salteador sequer sonha
que um só instante vale a história dos tempos

que o que um dia se sentiu
é o compasso entre dois passos

um corpo inteiro que canta o esplendor
de caminhar os dias até ti





*"Un Momento" (Héctor Stamponi)
pela Orquestra de Carlos di Sarli, canta Oscar Serpa











terça-feira, 26 de setembro de 2017

Moldura*

não é o mar que é belo
o que é belo,
é melhor dizê-lo assim
sem metáfora
nem rima,
o que é belo
é o tempo de lhe apanhar
os bocados de sol dentro, ao mar
ao mar, o que é belo
nele e teu
é que o olhem
e se demorem um pouco
o tempo de apanhar o que
não se pode nem escrever
nem guardar

*esquadria em Alberto Caeiro para uma fotografia


domingo, 24 de setembro de 2017

Maldonado

De seu nome Santiago
de sua fé Resistente
de seu credo artesão
desaparecido
desaparecido
sorte dos que teimam
em amar o chão que pisam
sorte dos que dão o seu corpo
ao trespasse obsceno da modernidade

Direito ancestral a estar aqui
sabe-o a raiz e o sol
di-lo a pedra e o vento e
todas as sagradas famílias
sem cordeiros Benetton

Daqui não passam!
o meu corpo é o limite absoluto
a minha vida o lamento que esventra
a miséria de quem não cuida
a miséria de quem não sabe
a morte de quem não vê

Santiago, são todos
Santiago, onde estamos?

Desaparecida,
humanidade.



terça-feira, 19 de setembro de 2017


se tivesse bordas o tempo
engastava-lhes a curva dos teus dedos
nos meus

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Chico

impaciente, mal sentada
regressando das vindimas
a passageira do comboio contou a sua história
que começa quando foi abandonada
e acaba nestes versos

e nela coube, de Caxarias ao Entroncamento,
a mãe fugida e o pai amoroso
a morte do irmão jovem
(sempre o coração)
os filhos gémeos
Bernardo
Beatriz

Vila Nova da Barquinha 
a casa e a horta farta
e o melro,
Chico

a solidão do pai
as mãos que cuidam
e o voo alegre do Chico
a solidão de todos 
e as voltas que a vida dá

rasantes, breve.





quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ronda

quantas palavras vãs sobrevivem ainda
quantos momentos vividos passaram sem memória

rodamos no turbilhão do tempo
enganamos os anjos que guardamos

não há dia que não nos derrote
passam todos e levam o que somos

sigamo-los

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

El pañuelo rojo

envolvo a memória no mesmo golpe alado
que desferes neste preciso momento
neste momento em que preciso
que me envolvas nas asas
de me seguires de perto
roçando o meu desejo
disfarçado de arresto

na aula de hoje aprendi a golpear o tempo
com os estilhaços de um pañuelo



terça-feira, 12 de setembro de 2017

alfabetizador

diz-me que letras e palavras juntavas
para dar a entender o espanto de tanta gente
debaixo da inexorável roda que a todos leva

missão nobre, por certo, a tua
a de não ter por manto a lã ou o linho
mas a árvore manchada de tinta que outros cortaram

amanhã regressas para mais uma lição
sobre a infalibilidade da lógica quando bem aplicada
e perderás de vista a mão que te protegeu do sol e da sede

e não te aperceberás do aluno que separou alfabetiza dor
propositadamente

diz-me, que palavras e letras juntavas para dizer
o amor?

do desapego

pela via do Buda
atinge-se essa indiferença
a que alguns chamam felicidade
eu
prefiro sofrer a tua ausência
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que regresses a mim até já não poderes voltar
eu
prefiro que me mates de saudades e de sentir
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que esconjures pátria e bandeira
e me peças asilo ao abrigo
da normativa maior
aquela que diz
vamos!
eu
prefiro que já não estejas
a nunca teres estado
eu
na verdade da via que é apenas minha
agarro-me a essa diferença que és tu
em mim
e
quando já não estivermos
quando as vias e as vidas cessarem
aquele momento que nos apegou
viverá ainda.



sem palavras

tão de perto escuto o teu movimento
que o respiro

domingo, 10 de setembro de 2017

Vargas e o Arcanjo


ambos derrotados pelo mar
maré constante da vida
que agora te traz
à orla da praia
voz ou pedra partida
que agora me traz
à orla do sonho
voz ou pedra partida

ambos derrotados pelo mar
naufragamos no poder ser

quando Vargas canta
quando o Arcanjo luta
vamos mar largo e alto
no mais sentido sem rumo
eco de todos os navegantes

onde estamos e estamos sem fim.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Um

como poderia sentir a tua falta
se o teu abraço me move e estreita
a cada instante?

afasta-te um pouco
aí, no limite do possível
e diz-me

que tempo é este que incessantemente
nasce?



Poiesis


como tarda, este momento
como se alonga e toma alento

antes de ir buscar
o que já não está


da tempestade

nada sobrou dos ventos e marés
tudo o que era matematicamente certo
é agora escombro ou lasca

compara com o meu coração!




sem rumo

aonde vai o barco
o barco que vi passar

vai vagar nos teus sonhos
até que decidas remar

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Goya, 10h30

também sou artesã, sabes,
moldo a arte de estar
crio tempo

improviso memórias
e submeto o fugaz
com chicote

podes ler o que foi
e riscar as palavras
a tinta ou fuga

a tinta é frágil
como o papel
como o ser

talvez só a ideia
do livro azul
seja eterna

mero caderno
de uma viagem
por acontecer

café cais
de um porto
desconhecido

canto seguro
que vê passar
ventos e marés

de onde estou
as gentes e os bens
parecem-me fantasmas

de palpável
só a tua espera
e a caneta pousada

terça-feira, 5 de setembro de 2017

De cuervos y brujos*

nunca mais foi dia claro

a luz toda se escondeu 
nos golpes de asa e nas voltas de chão 
entre os lábios das cordas
sob teclas frementes 
adentro
no toque surdo da pele do tambor
adentro

quando sofre, diz devagar
bombo legüero...
que longe vai o dia claro...
e inteira cai nos braços da noite
uma e outra vez 
e esquece

não voltou mais aonde a esperavam
agora, afaga pupilas e acende rastilhos
e é pão e vinho e ar para a boca dos que penam
em cada golpe de asa e em cada volta de chão 
glosa que grita o sangue que corre nas veias morenas
glosa que grita o sangue com que mordemos o desejo
glosa que a cada momento se precipita para o fundo de tudo
tudo isso é luz! luz que já não pode seguir o seu caminho antigo
presa lenta da espera do movimento seguinte, esse de onde nascem
os reflexos de ti.


* a partir da versão da"Zamba de Lozano"por El Cuervo Pajón y los Brujos



 




improviso para passeantes

vem comigo passear nas ruínas dos sonhos
castelos amargos por entre mãos verdadeiras

de todos os prédios da cidade
o que mais gosto é aquele que me deixa ver o sol

de todas as flores de rua
a que mais gosto é aquela em que os teus olhos pousaram

e de todas as absolutas coisas do mundo
a que mais gosto é aquela que só o momento pode dar

por isso, quando vieres,
traz-me apenas uma vontade completamente nua

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

manual de interpretação de sonhos

resiste como puderes
arma-te do aqui e agora
sejam essas as tuas únicas palavras

os loucos no divã são ouvidos por parvos sem remissão
beatas tecedeiras de ocultos e dizeres que a literatura dos pares aprovou!

resiste, experimenta resistir

talvez pelo meio tenhas ouvido 
"existe" 
e estejas já a associar algo a alguma coisa e tudo isso já puxou por mais fios que Ariadne algum dia pudesse conter na sua única vontade absolutamente despedaçada... 

tud está entrelaçado, parece-me ouvir
e se estivesse, tens os olhos para o ver ou as mãos para o destrinçar?

resiste, vá lá, resiste, arma-te ou ama-te
do aqui e agora 
deixa cair letras e palavras e mitos no esquecimento
arma-te contra todos os planos futuros e as agendas fúteis da modernidade
ama-te resistindo nesse aqui e agora
isso, aqui e agora,
em que me armas ou amas sem medo.