domingo, 30 de outubro de 2011

exteriores

nada se pode saber que não seja nosso
os teus olhos marítimos, esses que me levavam a ver o mar
são afinal os meus, e o azul e a água que por eles passavam
apenas a minha longínqua vontade de neles navegar
e ver o mundo abrir por dentro sem nada revelar
foste todo eu e a minha saudade de um fado
que ficou por dançar




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

El árbol del olvido*

si conoces las raíces de ese árbol
sabrás que no hay olvido
sin la presencia del despertar temprano
para ver los pajaros dormidos
que no saben eso de la vida
y de sus cuartitos

ahí están, despiertos
se van al sur

si conoces las raíces de ese canto
sabrás que no hay olvido
que no mate el vuelo
y la mañana

ahí están, que regresan
el árbol tiembla
hondo y alto



*"Canción del árbol del olvido", (Ginastera) Victor Jara

sábado, 22 de outubro de 2011

a nu

dada a complexidade de todas as teias
que desenham os teus dedos nos meus
matemos as palavras que já não servem
que nos vestem de tudo o que vem depois


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

sur le quais de Stalingrad

partir et faire partir
et se retrouver à chaque fois
dans cette immense permanence
de ce qui ne cesse d'arriver
comme un tempo primo
incomparable

terça-feira, 18 de outubro de 2011

fado em tango

chama-se com a mesma voz
com que se chama a dor

se baila con el mismo cuerpo
que se entrega al amor



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

a corrida

não disseram ao animal indefeso
que a caça é o descanso
de gente sem fome
de gente forte e destemida
não o avisaram que a graça
tem um sabor muito apreciado
e que a leveza se paga com chumbo

mas antes, que corra, que corra!




domingo, 16 de outubro de 2011

to a friend who is lying down for a while*

lying down for a while
just resting
calmly pondering
what it is about life that
keeps us coming up
for bread and a prayer
for something deeply shared
what it is about life that
does not let go
does not give in
coffee is ready but what about
les croissants?
your accent will surely trigger my laughter
and your loud objections!
and we will walk by the Seine
and dream for a bit
and then dream
some more


* William Louis Mills II

la reinette

le temps qui reste
on le mesure comment?
en années, il est insuffisant
en secondes, il est plutôt fuyant

le temps qui reste
on le maîtrise comment?
l'assurance n'offre pas de garant
les murs s'écroulent assez facilement

le temps qui est
joue sans cesse le couteau et la pomme
et toute la tendresse d'une blessure imparfaite

le temps qui est
se joue entre les morceaux coupés
et la beauté toute entière de tes mains

et la reinette?






sábado, 15 de outubro de 2011

le quotidien

le temps nous pardonnera tout
et nous oubliera toujours
faut-il se lever, alors
pour un verre?

il faut savoir que la réponse
inclurait toute une vie


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Un

disqualifiés!
vous n'êtes pas dans les normes
pour cette catégorie
trois minutes et vingt-trois secondes
ce n'est pas la vie
l'enlacement n'est pas le siège de l'oubli du monde
cette orbite ne doit pas esquisser des possibles infinis!
la lumière n'est pas à vous
l'ombre souhaitée
non plus
et
cette tension nous est insupportable
tant elle nous crie dedans,
arrêtez!
arrêtez









quarta-feira, 12 de outubro de 2011


me trouver encore dans le rond maritime de tes yeux
et amurer le matin pour mieux sentir le vent


terça-feira, 11 de outubro de 2011

da botânica

da flor nasce a mão
que a arranca:
haste, corola
dor
raiz-maior
a de um amor

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ta vie est un château mais
ton pays meurt de faim
il meurt de chagrin
pas une graine
pas une aube
ton pays s'en va
tout est nuit
les oiseaux sont tombés
d'un ciel aveugle
ton pays s'en va
rien ne tient
plus rien debout
car ton pays s'en va
péri contre tes murailles
il dit
il était une fois
il était une fois un château
au milieu d'un pays rêvé









segunda-feira, 3 de outubro de 2011

descompasso

confundiu a respiração
falhou um batimento
pediu a suspensão
da manhã
dos dias
da vida
ou apenas de um momento
o que custa um só momento
à eternidade?
o que custa ouvir um descompasso
e deixá-lo assim num batimento
novo de big bang silencioso
nova teoria da formação de tudo
novo mundo a estrear agora
só para poder dizer que tem
a vida toda pela frente
toda num momento
(pode ser este)




domingo, 2 de outubro de 2011

Um

subindo por dentro
uma escada impossível
nenhum degrau, por mais alto ou duro
impede o dois-a-dois alado
precisão matemática
de um passo só

terça-feira, 27 de setembro de 2011

rubescente

a romã abre-se com as mãos juntas
e em completa rendição



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

o momento

o aventureiro e o peregrino encontraram-se na encosta da montanha
nunca se soube quem subia ou quem descia
a quem pertencia a prece ou a manhã
e que caminho era aquele afinal
que agora pisavam

pour Momo

tu savais déjà que la boussole
ne pourrait pas te servir
le nord n'aurait plus besoin
de son étoile
le regard ancré aux rêves
n'aurait plus besoin
de la terre
ce point est errant
à tout jamais




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

para a Guilhermina

desceria outra vez os dedos
pelas tranças de cinza seda
se ainda por cá andasses
a festejar o fim d'agosto
com um bolo e velas
e todos os anos
em que me amaste

quarta-feira, 13 de julho de 2011

la femme attend
elle attend que le temps soit enfin
le temps de finir d'attendre
et en attendant ce temps
elle attend que l'attente
se finisse bientôt
malheureusement
en attendant que cela se termine
elle attend encore que tout cela se termine
qu'Ariadne parte en laissant son fil attaché au rosier
que Pénélope parte en laissant sa broderie inachevée
(mais elle veut apparemment finir de broder la courbe de l'aile
de ce petit oiseau qui a pris ses contours sur la toile
et qui ne doit pas manquer son vol)
et la femme attend



Um

caminhos largos
tão largos
que só lá cabe
a nossa estreiteza

terça-feira, 12 de julho de 2011

4

des balles ou le temps
tout va finalement
adentro
centrepoint infini
lugar
de todas las pérdidas
noyau infranchissable
à l'espoir

le cercle est enfin
dans le carré


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Touche pas! à la règle du jeu

les six melons illégaux
ont été confisqués
des mains sales
de l'employé

lèse-majesté!
lèse-majesté!
la poubelle est
sacrée!

les six melons illégaux
sont maintenant en sécurité
il pourrissent lentement
loin de toute faim

quinta-feira, 7 de julho de 2011

il est minuit et la fête remplit le château
d'un bruit de vie qui ne laisse pas d'espace
le solitaire sort un instant pour
des raisons inconnues
dehors
l'ombre des arbres familiers
et la courbe fine de la lune
et des chants, ici et là
semblent dire que
le bonheur est ici
pas ailleurs

il rentre
il est rentré

plus tard
il se réveilla pour
des raisons inconnues
pour le cri d'un oiseau perdu

ailleurs

promenade

la fête a commencé dans le château
dehors, la nuit tremble en perpétuité


quarta-feira, 6 de julho de 2011

sonha sossegado quem não cravou o seu sonho
num tronco de árvore aberto à chuva e ao sol
e se senta entre fundas raízes e flores breves
sonha sossegado quem não estremeceu
do gosto da cereja no bico do pássaro
sonha sossegado quem descreu

quarta-feira, 29 de junho de 2011

uníssono

estranha militância, essa
sem causa nem mãos fechadas
sem palavra-de-ordem
sem canções-de-marcha
sem sequer um papel
a convocar alguém:
vem!
e vieram dois
e encheram a praça

domingo, 19 de junho de 2011

é claro que o poeta vai salvar o mundo
ainda que seja amanhã, ainda que seja
tarde de mais

é no tempo que vem depois
que quase tudo se passa

guardo-te então
para mais logo

o momento

sábado, 18 de junho de 2011

pretéritos

dessa história que me contaste
retive pássaros e fios, rios em aldeias
que não existem em mapa nenhum, mãos e corpos
tão humanos que parecem sentir eles quem os ouve
a serem contados e talvez, talvez assim seja, porque
das histórias que me contaste, nunca se soube
o lado em que nos encontrámos


quinta-feira, 16 de junho de 2011

siete palabras
para que la marea
olvide al mar

quarta-feira, 15 de junho de 2011

barcos negros e revoltos
paredes de água e frio
corredores verticais
a pique, a pique!
e descem sempre
descem sempre
ralo eficaz da miséria
ralo largo escorredor
descem e descem
mais de nove abismos
muito mais!
contem-nos
contem com
nenhum abrigo
nenhum canto
nenhum chão

o sol é para quem ficou
à beira-mar

Eco e Narciso

a única obscenidade é a tua dor não ter grito
que lhe responda estilhaçando-a
a última solidão do mundo
é o vale onde Eco deixou de repetir
um amor que ficou por sentir

segunda-feira, 13 de junho de 2011

un mot qui sert à l'appropriation exclusive et intime de tous n'est plus un mot
il est la vérité exclusive et intime du passant qui l'a prononcée sans jamais
l'entendre, tel l'oiseau qui vient souvent survoler ces lignes

couplet

um imenso relógio contrário
o chão onde nos perdemos


domingo, 12 de junho de 2011

encontro

das cordilheiras caem pedras todos os dias
rolam e param quando há um vale
ou viajam se passa um humano
e leva sem saber essa pedra
pedra pequena pedra areia
pedra pó pedra caminho
pedra imensa
mundo

sábado, 11 de junho de 2011

le temps, demain

quelle solidité, cette branche
l'arbre, la terre et même l'oiseau
si proches, on dirait qu'ils sont là
on dirait d'eux qu'ils sont réels mais
le nuage s'est défait entier sur ma peau
je tremble de froid et tes bras m'entourent
et je redeviens branche, arbre, la terre, le vol



sexta-feira, 10 de junho de 2011

o vaso preto (para L.)

serve o vaso preto para nele se afogar
a mágoa que cobre de negro o céu
cabe nele a noite que te envolve
e a mancha que te pesa
cabe tudo nele
até a mão que um dia o há-de quebrar
para cuidar da flor entretanto nascida
descuidada, da terra e da chuva
de todos os prantos



quarta-feira, 8 de junho de 2011

a margem

serve a ponte incompleta apenas
para se saber que há caminhos
que acabam em si mesmos
serve a ponte também
para poder regressar
ao cais e esperar
pela incerteza
do barco


domingo, 5 de junho de 2011

um brinde aos indiferentes!
muito boa é a vida quando
não é preciso proteger os olhos
da luz de dentro, quando o corpo
obedece ao tempo e se senta ou levanta
sem que se conheçam as costuras do sofrimento
quando a noite se anuncia solidamente cronometrada

para que nenhum sonho venha alterar a manhã em que
passando talvez um pouco mais devagar se desse o indiferente
conta de que aquele pequeno amontoado de penas acastanhadas
estranhamente disposto no chão, é afinal o pássaro que na madrugada

cantava o mundo por haver


quinta-feira, 2 de junho de 2011

amplification

la fausse note est la seule qui ne ment pas
défaut d'un temps trop précis pour la voix
elle perd continûment et très parfaitement
le moment où elle aurait pu être
simplement
juste


domingo, 29 de maio de 2011

o piquenique

a realidade? ia a tempo amanhã
hoje era ainda a canção da colheita
ou uma dança de pássaros e o momento
de a seguir com os olhos fixos na impossível
liberdade. a realidade? ia a tempo de amanhã
ser a parede fria que rodeia o quarto hoje. a real
idade? os pássaros comeram todas as migalhas
e vão todos chegar a tempo de serem mortais
o copo acaba ali naquele rebordo exacto dos olhos ou dos dedos
o que lhe está além é já o céu de amanhã
a gota que cai proverbial
dos meus lábios

25

deixo passar a data
ela lá vai, tranquila
num sono de viagem
não lamenta a paisagem
adormecida aos sentidos
passa apenas numa calma
de não saber que o dia já foi
e que algures alguém apenas
dormia

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ventre

albergam-se sonhos
até serem realidade
dizia o anúncio

quarta-feira, 25 de maio de 2011

foi o tempo quem orquestrou
o teu rapto imenso
levou-te num passe de magia
ainda inexplicável
desligaram-se as luzes
vem a manhã


segunda-feira, 23 de maio de 2011

se por vezes me distraio
e me sento na borda devoluta dos dias
com o coração a ensurdecer aos gritos
faz-me o favor de não continuares
caminho

sábado, 21 de maio de 2011

Toalha Nova

No dia 22 de Maio de 2009, o Ademar escrevia assim:


Improviso por conta da agenda...

Teço as palavras
como se a vida
me pedisse todas as noites
uma toalha nova
sobre a mesa
a que me sento
com as estrelas
tomei de empréstimo
à memória das mãos
este tear
e só tropeço nas cedilhas
quando danço contigo.

Ademar
22.05.2009


Já não pôde escrever o improviso diário no dia 22 de Maio de 2010.

Ficou o tear, as nossas mãos e toda a saudade em que tropeçamos, Ademar.


talvez encontrasse alguma correspondência secreta
entre os números e as letras que nos vão fazendo
se não soubesse desde sempre que somos nós
o segredo
cuidarei das flores que esqueci
com a água que sabes eterna

e subirei aos teus ombros
para cairmos juntos

e sentirmos de novo
o milagre da terra

2:48: inacabados

quando me pedes que dance
que dance apenas aqueles minutos
e que finja que cada um deles não é o fim