trouxe o azul nos bolsos
sábado, 16 de agosto de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Para ti, 4 anos depois
olho para a curva da estrada e leio o pessoano aviso:
passou por aqui hoje e não voltou o homem com nome de mar
quinta-feira, 8 de maio de 2014
poema para colorir
anunciaste um castigo terrível
se a cor passasse da borda
que a minha mão tremeria
que tremia já e ainda
nem borda havia
desenhaste-a
forma finita e perfeita
lápis cego das limalhas
que escorregavam pela linha do real
e se perderam no papel
e no ar que beijei com a calma de ser assim
ficou em branco a tua forma perfeita
molde pequeno para os meus olhos
preencho com mão incerta
tudo o que fora nela
ficou
terça-feira, 8 de abril de 2014
poema para quem não sabe durar
amo tudo o que ainda não é
amo tudo o que poderia ser
amo tudo o que está sendo
amo o declínio do verbo
sem tempo
amo tudo o que poderia ser
amo tudo o que está sendo
amo o declínio do verbo
sem tempo
segunda-feira, 31 de março de 2014
pretérito muito imperfeito
era molhar a língua nas esperanças do outro
e assim dar-lhe a beber da santa água do desejo
era comer a fome alheia e dela fazer o pão dos dias
espiga farta por entre dentes que ferem
entre lábios demasiadamente confiantes
e da gota de sangue brotar a rosa
ou o doce espinho da dor
era derrotar a imensidão
de não ter que viver
era a brevidade
de ter de amar
era assim
sábado, 29 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
les sirènes hurlantes*
espero pelo dia em que terei saudades dos encontros que marcávamos
para me dares em primeira mão as tuas novas gravuras
lembro-me de cheirar no papel o grito de sal
em que ainda perdes os dias
*ao Manuel.
*ao Manuel.
sábado, 22 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
o colar
um único adorno
um silêncio amordaçado
dentro dos nós, as voltas
dançam as mãos redondamente
o colo nu espera a sombra
das contas de vidro
dos verdes húmidos
da ameixa escura
losangos apertados
como esfinges
dedos hábeis
como amantes
desfaz-se o colar
na sua inteireza
rolam contas
pelo colo
um silêncio amordaçado
dentro dos nós, as voltas
dançam as mãos redondamente
o colo nu espera a sombra
das contas de vidro
dos verdes húmidos
da ameixa escura
losangos apertados
como esfinges
dedos hábeis
como amantes
desfaz-se o colar
na sua inteireza
rolam contas
pelo colo
segunda-feira, 3 de março de 2014
domingo, 2 de março de 2014
do erotismo
encontra-lo na gota de rio bravo que corre livre entre as margens:
o corpo diante da bagagem desordenada
antes da viagem
sábado, 25 de janeiro de 2014
a infração
contou-me o prisioneiro algo curioso
todos os dias ao acordar media as paredes da cela
a porta, os caixilhos, roda-pés e ladrilhos e só então deixava o dia começar
satisfeito, conferia com rigor a relação harmoniosa entre altura e comprimento
satisfeito, conferia que tudo estava como ele o antecipara na véspera da véspera
satisfeito, adormecia no instante seguinte
mas num despertar
numa aurora que ele não conhecia
e por isso espantado se maravilhou
(o que seria!)
mediu, mediu, e nada conferia
nenhum ladrilho igual ao outro
alturas que desabavam de tão altas
comprimentos que se perdiam no infinito
roda-pés como quem entra no primeiro baile
era afinal o primeiro dia de liberdade
e não teria outro
o espanto é a mais grave infração
faz com que tudo comece
agora, é a ele que meço
todos os dias ao acordar o meço
e estão lá também as portas e as janelas e os ladrilhos e até
os roda-pés e todas as larguezas e belezas e infinitas possibilidades
tudo isso meço, meço, meço
e mais não disse.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
a cheia
olho para mim a olhar para ti
e o Tejo toma-me da margem
o descanso
por bem que estou distante
por mal que estás aqui
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
no gume
chama-se a este objecto útil um abre-cartas
é de madeira fina, dessa que gostaria de ter sido
folha cheia de tinta
e assim ferir de morte incerta
as palavras que se confiaram ao destino
sabe-se lá que deus pelo caminho as mudou
sabe-se lá se a flor chegou pedra
se o rio que era fonte
secou e é agora
gota
sabe-se lá se alguma palavra
no caminho tropeçou e ficou para trás
pronome pessoal perdido já da mão humana
nas arestas da vida
certa é a espera em que pousada vive
a carta fechada chegou ao destino
tinta preta, era só o que tinha
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Para G.
ninguém diria que
dois queijos e duas empadas
coubessem tão bem naquela caixa
mãos cuidadosamente exactas
dias exactamente dispostos
quem diria
que a sabedoria assim
se dispusesse?
o mago que tudo sabe e nada diz
esperava os últimos aniversariantes
duas taças de leve champanhe
duas rodadas tarareando
em eterno compasso
também assim vamos pela vida
dispostos a essa sorte imensa
de estarmos
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
poemadeus
deixou a folha manuscrita no chão de um campo distante
com o único poema que escreveu
deixou-a assim plana e simples
com o único poema
do mundo
com o único poema que escreveu
deixou-a assim plana e simples
com o único poema
do mundo
domingo, 8 de dezembro de 2013
para o Ademar, no nosso aniversário
moldo este tempo a dois
com a leveza do barro novo
aprendiz discreta da arte antiga
rodeio-me das tuas mãos
e torno a ti como à terra
onde roçam as nuvens
decidimos da criação
uma mulher e um homem
e deles moldamos o voo
em que nos esquecemos
do instante em que as tuas mãos
se distraíram para sempre
da roda
com a leveza do barro novo
aprendiz discreta da arte antiga
rodeio-me das tuas mãos
e torno a ti como à terra
onde roçam as nuvens
decidimos da criação
uma mulher e um homem
e deles moldamos o voo
em que nos esquecemos
do instante em que as tuas mãos
se distraíram para sempre
da roda
sábado, 7 de dezembro de 2013
para a María
se ao mundo deste um certo falar de Ulisses
se do mundo cuidas pássaros e manhãs
sabes que tudo volta hoje sempre
a nascer
a nascer
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
terça-feira, 5 de novembro de 2013
poema doméstico
fiz hoje uma radiografia ao braço literal
acusou-te
como me pedes pouco quotidiano
e muita magia
fiz-me na carne coragem
deixo-te
faz hoje tanto tempo
faz hoje tanto tempo
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Depois de Cesário Verde
comemos o pão-de-ló sem malvasia
tanta era a fome nesse fim de tarde
como penhasco a mesa alta
da literatura
como prado a leitura
um punhado de versos-papoila
no granzal dos dias
e por fim a graça suprema
de sair fechando a porta
de ter apenas o vento por guia
tanta era a fome nesse fim de tarde
como penhasco a mesa alta
da literatura
como prado a leitura
um punhado de versos-papoila
no granzal dos dias
e por fim a graça suprema
de sair fechando a porta
de ter apenas o vento por guia
sábado, 2 de novembro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Camões enrouquecido
lá vai Lianor com seu cântaro
bebe da eterna manhã, Lianor
chega e pousa a sede na boca da fonte e
bebe longamente, Lianor, na manhã quente
bebe lentamente
que a manhã é cântaro,
bica, luz ardente
corre a água em fio prontamente
escorre sempre
bebe ainda, Lianor
bebe, bebe,
que a fonte mente
a caixa
onde guardas o vivido
que não te traia a memória
onde guardas a memória
que não te traia o momento
onde vives enfim
que não te chegue a vida?
que não te traia a memória
onde guardas a memória
que não te traia o momento
onde vives enfim
que não te chegue a vida?
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Duas línguas para enterrar uma guerra*
le deuil
palavra dúctil
e tão demorada
que leva a vida toda
a ser pronunciada
não se ouve nela o sangue
dos que indo deixam rasto
dos que contam vinte e sete meses
pela ordem de cada novo dia
a suturar o abismo
não se ouve nela nada
que não seja a língua
que apenas assoma
ao sentido
*para João de Melo
domingo, 20 de outubro de 2013
Histoire de la vie privée
le grand récit broché
le nom gravé à jamais
la guerre et ses batailles
dates, gens, faits importants
grandes périodes
républiques
royaumes
rois-hommes
moments-phare
inscrits dans la mémoire
actes de naissance
actes de naissance
et leur sort
défilé anonyme
de la plus haute importance
puis
l'anecdote
l'anecdote
un regard et son étonnement
qu'est-ce que ce moment?
grand récit broché
nom gravé à jamais
la guerre et ses batailles
dates, gens, faits importants
grandes périodes
république
royaume
roi-homme
roi-femme
moments-phare
inscrits dans la mémoire
actes de naissance
actes de naissance
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Palavras roubadas*
o necessário
é mais genuíno:
subir à colina
contemplar onde está o vento
ver como é que as nuvens se movem
o pensamento tem sido o meu grande mundo
* a Bárbara Valadas, pintora e pastora
poema para explicar atrasos
ando há três anos a aperfeiçoar
a arte de não me atrasar
isto é,
chegar antes de ti
ao tempo em que não estás
domingo, 13 de outubro de 2013
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
genesis
somos exactamente assim irregulares
como degraus antigos e atapetados
como santuários selvagens
a frio
a preto e branco
onde as meninas se dão aos rituais
onde os meninos se dão aos rituais
no chão dos pássaros, dos vermes, das flores
no chão longe das estreitas salas públicas
de um ar condicionado à civilização
está frio
mas não o sinto
quando desço mudamente aos santuários
em que te fotografo
em que te pinto
e esculpo
sempre
terça-feira, 8 de outubro de 2013
o sorteio
coube ao papel cor de laranja
com o número 45
a sorte de te ter
perto
coube aos convivas
a sorte de não saberem
da festa do nascer
do tempo
cabe aos deuses
apartar os olhos da luz
e dela tecer histórias
da humana sorte
cabe-nos sempre
roubar o fogo
domingo, 6 de outubro de 2013
Do inominável
morto nº 1, provavelmente humano
morto nº 2, provavelmente humano
morto nº 3, provavelmente humano
morto nº 4, provavelmente humano
morto nº 5, provavelmente humano
morto nº 6, provavelmente humano
morto nº 7, provavelmente humano
morto nº 8, provavelmente humano
morto nº 9, provavelmente humano
morto nº 10, provavelmente humano
morto nº 11, provavelmente humano
morto nº 12, provavelmente humano
morto nº 13, provavelmente humano
morto nº 14, provavelmente humano
morto nº 15, provavelmente humano
morto nº 16, provavelmente humano
morto nº 17, provavelmente humano
morto nº 18, provavelmente humano
morto nº 19, provavelmente humano
morto nº 20, provavelmente humano
morto nº 21, provavelmente humano
morto nº 22, provavelmente humano
morto nº 23, provavelmente humano
morto nº 24, provavelmente humano
morto nº 25, provavelmente humano
morto nº 26, provavelmente humano
morto nº 27, provavelmente humano
morto nº 28, provavelmente humano
morto nº 29, provavelmente humano
morto nº 30, provavelmente humano
morto nº 31, provavelmente humano
morto nº 32, provavelmente humano
morto nº 33, provavelmente humano
morto nº 34, provavelmente humano
morto nº 35, provavelmente humano
morto nº 36, provavelmente humano
morto nº 37, provavelmente humano
morto nº 38, provavelmente humano
morto nº 39, provavelmente humano
morto nº 40, provavelmente humano
morto nº 41, provavelmente humano
morto nº 42, provavelmente humano
morto nº 43, provavelmente humano
morto nº 44, provavelmente humano
morto nº 45, provavelmente humano
morto nº 46, provavelmente humano
morto nº 47, provavelmente humano
morto nº 48, provavelmente humano
morto nº 49, provavelmente humano
morto nº 50, provavelmente humano
morto nº 51, provavelmente humano
morto nº 52, provavelmente humano
morto nº 53, provavelmente humano
morto nº 54, provavelmente humano
morto nº 55, provavelmente humano
morto nº 56, provavelmente humano
morto nº 57, provavelmente humano
morto nº 58, provavelmente humano
morto nº 59, provavelmente humano
morto nº 60, provavelmente humano
morto nº 61, provavelmente humano
morto nº 62, provavelmente humano
morto nº 63, provavelmente humano
morto nº 64, provavelmente humano
morto nº 65, provavelmente humano
morto nº 66, provavelmente humano
morto nº 67, provavelmente humano
morto nº 68, provavelmente humano
morto nº 69, provavelmente humano
morto nº 70, provavelmente humano
morto nº 71, provavelmente humano
morto nº 72, provavelmente humano
morto nº 73, provavelmente humano
morto nº 74, provavelmente humano
morto nº 75, provavelmente humano
morto nº 76, provavelmente humano
morto nº 77, provavelmente humano
morto nº 78, provavelmente humano
morto nº 79, provavelmente humano
morto nº 80, provavelmente humano
morto nº 81, provavelmente humano
morto nº 82, provavelmente humano
morto nº 83, provavelmente humano
morto nº 84, provavelmente humano
morto nº 85, provavelmente humano
morto nº 86, provavelmente humano
morto nº 87, provavelmente humano
morto nº 88, provavelmente humano
morto nº 89, provavelmente humano
morto nº 90, provavelmente humano
morto nº 91, provavelmente humano
morto nº 92, provavelmente humano
morto nº 93, provavelmente humano
morto nº 94, provavelmente humano
morto nº 95, provavelmente humano
morto nº 96, provavelmente humano
morto nº 97, provavelmente humano
morto nº 98, provavelmente humano
morto nº 99, provavelmente humano
morto nº 100, provavelmente humano
morto nº 101, provavelmente humano
morto nº 102, provavelmente humano
morto nº 103, provavelmente humano
morto nº 104, provavelmente humano
morto nº 105, provavelmente humano
morto nº 106, provavelmente humano
morto nº 107, provavelmente humano
morto nº 108, provavelmente humano
morto nº 109, provavelmente humano
morto nº 110, provavelmente humano
morto nº 111, provavelmente humano
Lampedusa, Outubro de 2013.
Lampedusa, Outubro de 2013.
sábado, 5 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
3 de outubro de 1964
guardo o último instante da infância
e ando com ele para trás
hoje houve bolo, balões, festa
e uma vela a apagar
hoje ensinei-te a soprar
a bater palmas ao grande feito
tanta vida pela frente
tudo, tudo a começar
e ando com ele para trás
hoje houve bolo, balões, festa
e uma vela a apagar
hoje ensinei-te a soprar
a bater palmas ao grande feito
tanta vida pela frente
tudo, tudo a começar
domingo, 29 de setembro de 2013
do indizível
a última decisão
levantar-se e ir à cozinha
ir buscar uma maçã doce
ir sem pressa nem propósito maior
é apenas uma maçã e o cesto está cheio
uma vida passa sempre igual a todas
esquecida entre o dever dos dias
entre passos medidos
a cozinha aproxima-se
subitamente longe
quanto mede um passo
quando deus tem sede?
a maçã continua intacta
o cesto cheio e inútil
o gesto e a sede suspensos
na surpresa maior
fecho a porta firmemente
levantar-se e ir à cozinha
ir buscar uma maçã doce
ir sem pressa nem propósito maior
é apenas uma maçã e o cesto está cheio
uma vida passa sempre igual a todas
esquecida entre o dever dos dias
entre passos medidos
a cozinha aproxima-se
subitamente longe
quanto mede um passo
quando deus tem sede?
a maçã continua intacta
o cesto cheio e inútil
o gesto e a sede suspensos
na surpresa maior
fecho a porta firmemente
atrás dela, crescem pomares
de antiga e eterna inocência
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
para António Ramos Rosa
fica-me nas mãos a terra que te não cobre
e nela os condicionais que semeamos
longos e lentos impossíveis
domingo, 22 de setembro de 2013
o berlinde
esse berlinde é magnífico, sim,
sei-lhe a história e o peso
sei-o todo por fora
mas é no jogá-lo
na curva que segue
nas tuas mãos vazias
que plenamente o amo
que faz um berlinde
em pleno meio de um silêncio
é só para isto que serve a poesia
terça-feira, 17 de setembro de 2013
pela borda do rio
arrisco tudo para não perder a sensação da última vaga antes do mar
arrisco saber depois o peso das palavras que trago nos bolsos
arrisco a noite com mais estrelas do que aquelas que julgava capaz
não veio nunca o dia em que a borda do rio chegava
domingo, 15 de setembro de 2013
sentido
creio inútil subir ao monte sequeira
tantas são as vezes que te sentas a meu lado
judia na sombra do rio limmat
vadia sem fé em terras prometidas
de amargas que são
as ervas tornam doce o pão
como uma última parte
corpo presente
e despeço-me
quarta-feira, 26 de junho de 2013
intenção
vou escrever um poema para ser como o Mistral
e levar com muito espanto e para muito longe
a água que te cobre o rosto
a água que de tão salgada
pertence ao mar
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