domingo, 9 de novembro de 2014

pormenor*

flagrante comissura
mar leito de rios
mar dos naufrágios
mar gota a gota
lábio inferior
lábio superior
boca
geografia exacta
do desejo escultor
na trégua da palavra
resvalo doce
e temível
que o pintor louvou 
ponte barca águas
onde corre ainda
o ciúme de Baco
o amor da Tágide
canto em chão d'exílio
ouço descalça o vibrar
do tempo de 
vagar meu
rosa de carne e alma
o teu beijo

*Retrato de Camões, Fernão Gomes

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Marfisa

ainda se vêem os laranjais
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites

domingo, 12 de outubro de 2014

calíope sem camões

peca por breve e seco

mais pecaria longo

cheio de ti

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

a mão

como resistir à última maneira de dizer

talvez deixando uma nesga de fracasso

um naco de pão arrancado

repeti-lo: imperfeito!

nunca nada é infinito

nunca nada é derradeiro

domingo, 28 de setembro de 2014

daqui a pouco será noite, diz o dia
daqui a pouco nasce a luz, diz a treva
de nada nos serve o silêncio

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

beira de mar

sei tudo sobre ti
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos

se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo

ambulante

até a margem tem um centro
e nele caminha de passo incerto
como quem evita a quase queda no quase rio
a menina da borda d'água

do pudor

acaso grande aquele o de
ter um casaco escuro
corte perfeito

depois de nu ainda
o envergava


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Saturno ao espelho

virar as costas é ainda e cada vez mais
sentar-se lado a lado nas sombras
que o tempo aumenta
ponteiro ímpio
e nu

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

do tesouro

há outras passagens
não acordes o adamastor

desengano

dísticos, dizes?
apenas?
acrescentate-te, pois!

A carta

P.S. Esqueci-me certamente de te dizer
       algo que seria talvez determinante.

sábado, 16 de agosto de 2014

agosto

desta vez
trouxe o azul nos bolsos

segunda-feira, 16 de junho de 2014

le journal intime

viver
não conta


terça-feira, 10 de junho de 2014

le beau temps

dito assim
parece que é

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Para ti, 4 anos depois

olho para a curva da estrada e leio o pessoano aviso:
passou por aqui hoje e não voltou o homem com nome de mar

quinta-feira, 8 de maio de 2014

poema para colorir

anunciaste um castigo terrível
se a cor passasse da borda
que a minha mão tremeria
que tremia já e ainda
nem borda havia

desenhaste-a
forma finita e perfeita
lápis cego das limalhas
que escorregavam pela linha do real
e se perderam no papel 
e no ar que beijei com a calma de ser assim

ficou em branco a tua forma perfeita
molde pequeno para os meus olhos

preencho com mão incerta 
tudo o que fora nela
ficou 

terça-feira, 8 de abril de 2014

poema para quem não sabe durar

amo tudo o que ainda não é
amo tudo o que poderia ser
amo tudo o que está sendo
amo o declínio do verbo
sem tempo

segunda-feira, 31 de março de 2014

pretérito muito imperfeito

era molhar a língua nas esperanças do outro
e assim dar-lhe a beber da santa água do desejo
era comer a fome alheia e dela fazer o pão dos dias
espiga farta por entre dentes que ferem 
entre lábios demasiadamente confiantes
e da gota de sangue brotar a rosa
ou o doce espinho da dor
era derrotar a imensidão
de não ter que viver 
era a brevidade
de ter de amar
era assim

sábado, 29 de março de 2014

onda

encho-te as palavras de silêncios
como quem subitamente
vê o mar

segunda-feira, 24 de março de 2014

les sirènes hurlantes*

espero pelo dia em que terei saudades dos encontros que marcávamos
para me dares em primeira mão as tuas novas gravuras 
lembro-me de cheirar no papel o grito de sal 
em que ainda perdes os dias


*ao Manuel.

sábado, 22 de março de 2014

poids et mesure

il est léger
le silence de se laisser aimer



quarta-feira, 5 de março de 2014

o colar

um único adorno
um silêncio amordaçado

dentro dos nós, as voltas
dançam as mãos redondamente

o colo nu espera a sombra
das contas de vidro

dos verdes húmidos
da ameixa escura

losangos apertados
como esfinges

dedos hábeis
como amantes

desfaz-se o colar
na sua inteireza

rolam contas
pelo colo










segunda-feira, 3 de março de 2014

da necessidade

comem da mesma fome
bebem da mesma sede
em tudo o mais
são livres


domingo, 2 de março de 2014

do erotismo

encontra-lo na gota de rio bravo que corre livre entre as margens:

o corpo diante da bagagem desordenada

antes da viagem





sábado, 25 de janeiro de 2014

a infração

contou-me o prisioneiro algo curioso
todos os dias ao acordar media as paredes da cela
a porta, os caixilhos, roda-pés e ladrilhos e só então deixava o dia começar
satisfeito, conferia com rigor a relação harmoniosa entre altura e comprimento
satisfeito, conferia que tudo estava como ele o antecipara na véspera da véspera
satisfeito, adormecia no instante seguinte

mas num despertar 
numa aurora que ele não conhecia
e por isso espantado se maravilhou
(o que seria!)
mediu, mediu, e nada conferia
nenhum ladrilho igual ao outro
alturas que desabavam de tão altas
comprimentos que se perdiam no infinito
roda-pés como quem entra no primeiro baile

era afinal o primeiro dia de liberdade
e não teria outro
o espanto é a mais grave infração
faz com que tudo comece

agora, é a ele que meço
todos os dias ao acordar o meço
e estão lá também as portas e as janelas e os ladrilhos e até
os roda-pés e todas as larguezas e belezas e infinitas possibilidades
tudo isso meço, meço, meço

e mais não disse.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

a cheia

olho para mim a olhar para ti 
e o Tejo toma-me da margem
o descanso

por bem que estou distante
por mal que estás aqui

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

no gume



chama-se a este objecto útil um abre-cartas
é de madeira fina, dessa que gostaria de ter sido
folha cheia de tinta

serve para abrir de golpe liso e seco 
e assim ferir de morte incerta 
as palavras que se confiaram ao destino 

sabe-se lá que deus pelo caminho as mudou

sabe-se lá se a flor chegou pedra
se o rio que era fonte
secou e é agora
gota

sabe-se lá se alguma palavra
no caminho tropeçou e ficou para trás
pronome pessoal perdido já da mão humana
nas arestas da vida

certa é a espera em que pousada vive

a carta fechada chegou ao destino
tinta preta, era só o que tinha





 






segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Para G.

ninguém diria que
dois queijos e duas empadas
coubessem tão bem naquela caixa

mãos cuidadosamente exactas
dias exactamente dispostos
quem diria

que a sabedoria assim 
se dispusesse?

o mago que tudo sabe e nada diz
esperava os últimos aniversariantes

duas taças de leve champanhe 
duas rodadas tarareando 
em eterno compasso

também assim vamos pela vida
dispostos a essa sorte imensa

de estarmos





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

do sentido

como quase tudo
também isto se explica
se lhe encontrares o contrário



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

poemadeus

deixou a folha manuscrita no chão de um campo distante
com o único poema  que escreveu
deixou-a assim plana e simples
com o único poema
do mundo


domingo, 8 de dezembro de 2013

para o Ademar, no nosso aniversário

moldo este tempo a dois
com a leveza do barro novo

aprendiz discreta da arte antiga
rodeio-me das tuas mãos

e torno a ti como à terra
onde roçam as nuvens

decidimos da criação
uma mulher e um homem

e deles moldamos o voo
em que nos esquecemos

do instante em que as tuas mãos
se distraíram para sempre

da roda






olaria

preparo o pássaro de barro
para que amanhã liberte
da noite o mistério 

sábado, 7 de dezembro de 2013

para a María

se ao mundo deste um certo falar de Ulisses
se do mundo cuidas pássaros e manhãs
sabes que tudo volta hoje sempre
a nascer

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

hausto

todos os poetas naufragam na gota de água
que tomaram pelo oceano

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

despojamento

quisera nada ter
apenas para te dizer
que me és tudo

terça-feira, 5 de novembro de 2013

poema doméstico

fiz hoje uma radiografia ao braço literal
acusou-te
como me pedes pouco quotidiano
e muita magia
fiz-me na carne coragem 
deixo-te
faz hoje tanto tempo
faz hoje tanto tempo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Depois de Cesário Verde

comemos o pão-de-ló sem malvasia
tanta era a fome nesse fim de tarde
como penhasco a mesa alta
da literatura
como prado a leitura
um punhado de versos-papoila
no granzal dos dias
e por fim a graça suprema
de sair fechando a porta
de ter apenas o vento por guia

sábado, 2 de novembro de 2013

arquitectura

construo hábil a janela do sonho e a porta da fuga
até já não poder haver paredes



le baiser

avant le miel
avant le vin
regarde comment

sábado, 26 de outubro de 2013

ALMA*



-está gente em baixo
-manda subir


*Monta-Cargas 


Camões enrouquecido

lá vai Lianor com seu cântaro 
bebe da eterna manhã, Lianor
chega e pousa a sede na boca da fonte e
bebe longamente, Lianor, na manhã quente
bebe lentamente
que a manhã é cântaro,
bica, luz ardente
corre a água em fio prontamente
escorre sempre
bebe ainda, Lianor
bebe, bebe,
que a fonte mente

a caixa

onde guardas o vivido
que não te traia a memória

onde guardas a memória
que não te traia o momento

onde vives enfim
que não te chegue a vida?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Duas línguas para enterrar uma guerra*



le deuil
palavra dúctil
e tão demorada
que leva a vida toda
a ser pronunciada
não se ouve nela o sangue
dos que indo deixam rasto
dos que contam vinte e sete meses
pela ordem de cada novo dia
a suturar o abismo
não se ouve nela nada
que não seja a língua
que apenas assoma
ao sentido

*para João de Melo


domingo, 20 de outubro de 2013

Histoire de la vie privée

le grand récit broché
le nom gravé à jamais
la guerre et ses batailles
dates, gens, faits importants
grandes périodes
républiques
royaumes
rois-hommes
moments-phare
inscrits dans la mémoire
actes de naissance
actes de naissance
et leur sort
défilé anonyme
de la plus haute importance
puis
l'anecdote
un regard et son étonnement
qu'est-ce que ce moment?
grand récit broché
nom gravé à jamais
la guerre et ses batailles
dates, gens, faits importants
grandes périodes
république
royaume
roi-homme
roi-femme
moments-phare
inscrits dans la mémoire
actes de naissance
actes de naissance



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Palavras roubadas*

o necessário 
é mais genuíno:
subir à colina 
contemplar onde está o vento
ver como é que as nuvens se movem

o pensamento tem sido o meu grande mundo



* a Bárbara Valadas, pintora e pastora




poema para esboçar retornos


                                     >   
                                      






poema para explicar atrasos


ando há três anos a aperfeiçoar
a arte de não me atrasar
isto é,
chegar antes de ti
ao tempo em que não estás



domingo, 13 de outubro de 2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

genesis

somos exactamente assim irregulares
como degraus antigos e atapetados
como santuários selvagens
a frio
a preto e branco
onde as meninas se dão aos rituais
onde os meninos se dão aos rituais
no chão dos pássaros, dos vermes, das flores
no chão longe das estreitas salas públicas
de um ar condicionado à civilização
está frio
mas não o sinto
quando desço mudamente aos santuários
em que te fotografo
em que te pinto
e esculpo
sempre