somos tantos e tão iguais
conto-te ou não?
os que ainda estão
fazem contas à vida
apanhados na globalização
do silêncio e o do espanto
confinados ao momento
e à condição
a partir de hoje
conto-te ou não?
já não me chegam os dedos das mãos
para dizer a tua ausência
já não me chegam as saudades para tirar-te
do fundo de todas as coisas que rasgam a calma
conto-te
tudo é o mesmo ainda
mas mais calado
mudos a olhar o passado
e nem o diabo nos quer a alma
nem os deuses nos querem criar
a partir de hoje
dizem que tudo mudou
na passagem do momento
conto-me a mim
e a ti
*Ademar Ferreira do Santos, 9/12/1952 - 22/05/2010
sexta-feira, 22 de maio de 2020
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
Meio do caminho
retroceder
meio movimento
como faz o comboio
quando vem atrás antes
de se lançar no ferro seguinte
metade de tudo se assim se lançasse a vida
retrocedo, sigo
sigo no encalço do que foi
passos perdidos cujo rasto serve de síncope
metade de ferro e sonho ou de corda, dizia o poeta
até onde se prolonga a curva das linhas da tua mão
a avisar-me da cena que Pasolini não pôde filmar
páro
no meio exacto de tudo
meio movimento
como faz o comboio
quando vem atrás antes
de se lançar no ferro seguinte
metade de tudo se assim se lançasse a vida
retrocedo, sigo
sigo no encalço do que foi
passos perdidos cujo rasto serve de síncope
metade de ferro e sonho ou de corda, dizia o poeta
até onde se prolonga a curva das linhas da tua mão
a avisar-me da cena que Pasolini não pôde filmar
páro
no meio exacto de tudo
Para o Ademar, no nosso dia.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
o trâmite
absolutamente ilegal e
supinamente inconcebível
que se arrastem assim as asas
do olvido
como corpos celestes amargos
que depois de vagar imensos
se detivessem
no raio de sol fortuito
que nenhum deus a si nega
a noite é eterna e
há apenas um caminho
o dia é dos deuses
e deles são todos os édens
e neles moram as histórias
e o caos do mar
e da memória
o trâmite é simples
as asas levam o olvido
no bater imperceptível
do tempo-mundo
na noite que é eterna
no caminho que é único
não há registo de
humanos desvios
nem cartografias
do perdão
apenas aos deuses
se lhes permite regressar
insuportável portanto
ilegal, inconcebível!
que se encontre
essa linda pena
vagante
assim perdida
no universo
supinamente inconcebível
que se arrastem assim as asas
do olvido
como corpos celestes amargos
que depois de vagar imensos
se detivessem
no raio de sol fortuito
que nenhum deus a si nega
a noite é eterna e
há apenas um caminho
o dia é dos deuses
e deles são todos os édens
e neles moram as histórias
e o caos do mar
e da memória
o trâmite é simples
as asas levam o olvido
no bater imperceptível
do tempo-mundo
na noite que é eterna
no caminho que é único
não há registo de
humanos desvios
nem cartografias
do perdão
apenas aos deuses
se lhes permite regressar
insuportável portanto
ilegal, inconcebível!
que se encontre
essa linda pena
vagante
assim perdida
no universo
quinta-feira, 6 de junho de 2019
mensagem
por vezes
demoro-me
não abro logo
fecho os olhos
sobre a boa nova
na carta fechada
as bordas correm
para os meus dedos
e deslizam pela memória
inacabada
demoro-me
não abro logo
fecho os olhos
sobre a boa nova
na carta fechada
as bordas correm
para os meus dedos
e deslizam pela memória
inacabada
quarta-feira, 22 de maio de 2019
9*
a tombar
só a pétala leve do jacarandá
ou a roupagem da normalidade
um corpo inteiro de sede, não
um corpo inteiro de ser, nunca
quem te roubou sabe
que nada sobra
que nada fica
caminhaste para lá
dos dias
da bela noite
segues sozinho comigo
cozinhas com a minha fome
e bebes dos meus sonhos
e não há truque que não tentes
para me fundear os olhos no horizonte
caravela íntima
cego tropel
o sol dobrou a última linha
grão-luz apenas antes
do eterno olvido
* à memória de Ademar Ferreira dos Santos
quarta-feira, 1 de maio de 2019
dia primeiro
ao cravar-se a garra
recolhemos o corpo no
doce silvestre
de ontem
rasto silente
nunca anunciado
corremos os dedos
por toda a história
todos os antes e depois
de absolutamente tudo
e nunca achamos
a garra que sem memória rompe
a vida toda
nas mãos
o sangue que assoma
a pele rasgada
o momento
sábado, 27 de abril de 2019
improviso para resgatar Alfonsina
és exactamente como a onda que
incessantemente me leva
a ser todo o mar
incessantemente me leva
a ser todo o mar
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
los perros
adiantei-me meia hora
não importa ao que venho
troco a carta do coronel
por trinta minutos de ficção
troco a história de um país
pelo coincidir das nossas mãos
abrimos uma pizzaria apenas
para podermos mandar os convites
Amanhã, A Grande Estreia!
Amanhã, Começamos
tudo nos é dado desde agora
permitido, por meia hora
chamamos os cães
montamos os cavalos
está uma montanha inteira
há meia hora à nossa espera
não importa ao que venho
troco a carta do coronel
por trinta minutos de ficção
troco a história de um país
pelo coincidir das nossas mãos
abrimos uma pizzaria apenas
para podermos mandar os convites
Amanhã, A Grande Estreia!
Amanhã, Começamos
tudo nos é dado desde agora
permitido, por meia hora
chamamos os cães
montamos os cavalos
está uma montanha inteira
há meia hora à nossa espera
domingo, 9 de dezembro de 2018
Da tua viagem*
para que iria invocar anjos ou estrelas
se passas num rumor de ferrovia
como a saudar-me de perto
a distância que sabias
desço, desta vez,
deixo que o comboio vá
deixo que me peças que fique
e troco as voltas ao destino
falo-te da passagem pelo Atlântico
do Inverno porteño
da seda a roçar o punho aberto
voando numa sala em Montserrat
da felicidade totalmente inútil
do sentir-tição
as marcas vivas que Camões não vê
Montserrat,
Barrio del Mondongo
sabemos que todo o conhecimento
é inútil, que pôr nomes às coisas
é inútil como já não estares
é não saberes
que estremeci quando passou o comboio
sem saber em que carruagem te encontrar
se passas num rumor de ferrovia
como a saudar-me de perto
a distância que sabias
desço, desta vez,
deixo que o comboio vá
deixo que me peças que fique
e troco as voltas ao destino
falo-te da passagem pelo Atlântico
do Inverno porteño
da seda a roçar o punho aberto
voando numa sala em Montserrat
da felicidade totalmente inútil
do sentir-tição
as marcas vivas que Camões não vê
Montserrat,
Barrio del Mondongo
sabemos que todo o conhecimento
é inútil, que pôr nomes às coisas
é inútil como já não estares
é não saberes
que estremeci quando passou o comboio
sem saber em que carruagem te encontrar
* Para o Ademar Ferreira dos Santos
9-12-1952(-22-05-2010)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
Porcelana e papel*
traduz-me isto
que nunca se faça tarde
para subir de novo a montanha
e uma e outra vez reconhecer as árvores
o estranho corte redondo na encosta
e a casa que habita os sonhos
e de onde se parte
sempre
que nunca se faça tarde
para subir de novo a montanha
e uma e outra vez reconhecer as árvores
o estranho corte redondo na encosta
e a casa que habita os sonhos
e de onde se parte
sempre
*para a María Alonso Seisdedos
domingo, 2 de dezembro de 2018
18, calçada de santa apolónia
caravela, barcarola
rumo certo e acabado
água mar
pedra mágoa
sal granito
sonho largo
roda do leme
rosa dos ventos
aonde me levas
se aqui me tens?
rumo certo e acabado
água mar
pedra mágoa
sal granito
sonho largo
roda do leme
rosa dos ventos
aonde me levas
se aqui me tens?
domingo, 4 de novembro de 2018
Transfusão
abro uma veia na terra
e outra em mim
os caminhos
sabem-no
ouve o sulco que se forma
à passagem do rio
por essa terra
rasgada
seiva lenta
demorada
língua quente
nos teus braços
no teu pulso
no teu pulso
ritual conhecido
de quem sente que o tempo se aquieta
para ver melhor
quem o toma
golpe fino e doce
como romãs
veio húmido e doce
como romãs
coração ferido
de vida
coração ferido
de vida
sábado, 3 de novembro de 2018
Osso
olhos-oceano
quebra e une-se
corpo-árvore
alma-forte
mil anos mais
não me perguntes
mas são mil anos mais
quebra a vida num instante
de pleno sentido
assim és, sou
quebra e abre um nicho
onde só cabe o fogo imenso
do começoquebra e une-se
como as mãos que juntam
pedaços caídos de porcelana rara
mil anos mais
nunca me perguntes
mas são mil anos mais
sábado, 27 de outubro de 2018
el agujero
janelinha pequena
umbral onde repousavas
a alinhar imperfeições
como para caberem
na mala do olvido
ou
som que parece água
de um céu clemente
de nuvens e vento
azul-sol
sem religião
ou
ver-te sempre
em tudo
todo
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
El Vals de Tanturi
emigrei apenas para poder dizer golondrina
emigrei apenas para te ouvir dizer golondrina
modulamos timbre e saliva e aproximamos os lábios
emigrei apenas para te ouvir dizer golondrina
modulamos timbre e saliva e aproximamos os lábios
terça-feira, 16 de outubro de 2018
ponto e linha
a liberdade seria sair à rua neste preciso momento
e não regressar a nenhum lado nunca mais
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
No fim do mundo
empunhavas um simples quadrado de seda branca
um quadrado livre e redondo como a queda da lua
nos braços da manhã, quando a luz se insinua
por dentro dos medos e os faz enfim
descansar
nada resiste à certeza da manhã
nada resiste ao gesto breve
de começar
as palavras nascem
e olham-se pela primeira vez
e levam nelas o corpo todo do tempo
que as cala e encerra dentro dos teus lábios
como numa arca que eu pudesse completamente abrir e
saquear
acto único de pirataria selvagem tantas vezes repetido
até ser acto primeiro, final!
o sal imenso dos teus lábios
mudamente nos meus
não cala nada
não esconde nada
saqueio o que posso, mas fere-me a luz da seda branca e
rasgam-me a pele as arestas das pedrarias que roubaste sem piedade
e o sangue sabe-me ainda a mar e aos teus olhos no leme de não sei que vida
fecho os olhos e abro as mãos e de novo me surges como o dia novo, a ilha clara
talvez se esperar a manhã se acabem as palavras e o tempo nelas e nosso
devolvo-te o quadrado de seda branca
borda-lhe, se queres, a realidade
um quadrado livre e redondo como a queda da lua
nos braços da manhã, quando a luz se insinua
por dentro dos medos e os faz enfim
descansar
nada resiste à certeza da manhã
nada resiste ao gesto breve
de começar
as palavras nascem
e olham-se pela primeira vez
e levam nelas o corpo todo do tempo
que as cala e encerra dentro dos teus lábios
como numa arca que eu pudesse completamente abrir e
saquear
acto único de pirataria selvagem tantas vezes repetido
até ser acto primeiro, final!
o sal imenso dos teus lábios
mudamente nos meus
não cala nada
não esconde nada
saqueio o que posso, mas fere-me a luz da seda branca e
rasgam-me a pele as arestas das pedrarias que roubaste sem piedade
e o sangue sabe-me ainda a mar e aos teus olhos no leme de não sei que vida
fecho os olhos e abro as mãos e de novo me surges como o dia novo, a ilha clara
talvez se esperar a manhã se acabem as palavras e o tempo nelas e nosso
devolvo-te o quadrado de seda branca
borda-lhe, se queres, a realidade
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
La certitude
paira, pousa e desaparece
em voos inexplicáveis
levando-nos
eco perdido
no fundo de nada
ainda que a tua boca
me grite mansa o contrário
ce jour-là...
ainda estou para saber
como reúne a tua língua o espaço
e o tempo que certeiros nos acabam
em voos inexplicáveis
levando-nos
eco perdido
no fundo de nada
ainda que a tua boca
me grite mansa o contrário
ce jour-là...
ainda estou para saber
como reúne a tua língua o espaço
e o tempo que certeiros nos acabam
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
Passagem de Alfredo Ábalos
à sede que se enreda na voz
às cordas que lhe gravam fendas,
às penas, caminhos e omissões,
saúde!
tudo isso fica do lado de cá da porta
onde os rios correm com o cio
de sempre chegarem ao mar
abismo de sentir em copla
o que não pode tardar
terça-feira, 11 de setembro de 2018
Âmbar
dezassete dias passados
agosto inverno
três meses
depois
o pátio
receberam-nos um gato e
um manequim quebrado
por entre ramos verdes
de não sei que
primavera
a sala era azul
de um azul anoitecido
na memória del tiempo aquel
quando a moldura não te encaixotava
no pó vago dos lugares altos e inúteis
e não sei em que movimento das horas
se voltou a encher de azul a sala
mas de um azul âmbar
nicho-fonte que me albergou
na curva abismo da noite
na curva abismo do caudal
nascente como
resina
hoje recebem-nos no pátio
um coração-insecto
e os rios frescos
do olvido
agosto inverno
três meses
depois
o pátio
receberam-nos um gato e
um manequim quebrado
por entre ramos verdes
de não sei que
primavera
a sala era azul
de um azul anoitecido
na memória del tiempo aquel
quando a moldura não te encaixotava
no pó vago dos lugares altos e inúteis
e não sei em que movimento das horas
se voltou a encher de azul a sala
mas de um azul âmbar
nicho-fonte que me albergou
na curva abismo da noite
na curva abismo do caudal
nascente como
resina
hoje recebem-nos no pátio
um coração-insecto
e os rios frescos
do olvido
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
No Fim do Mundo
é ainda terra
a última que piso
antes do mar eterno
é ainda dia, o sol que baixa
e nos revela juntos na espera
lento Outono, feroz Primavera
caminho pela terra do fogo
com a cadência que me deixaste
um instante de cada vez
uma vida de cada vez
impossível sul
baía adentro
último adeus dos yagáns
ao poder dizer refúgio
cálida maneira
calada maneira
de te saudar
a última que piso
antes do mar eterno
é ainda dia, o sol que baixa
e nos revela juntos na espera
lento Outono, feroz Primavera
caminho pela terra do fogo
com a cadência que me deixaste
um instante de cada vez
uma vida de cada vez
impossível sul
baía adentro
último adeus dos yagáns
ao poder dizer refúgio
cálida maneira
calada maneira
de te saudar
terça-feira, 21 de agosto de 2018
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Impermanência
Despojar-se completamente
Golpe finíssimo
A fingir de carrasco
Proclamação surda
Primeiro dia da derrota dos dias
Memória desfeita nas tuas mãos
E era o começo de tudo
Ou um tiro final
Também serve
A saia de seda desliza
Uma única vez até ao chão
Casulo asa
Mulher
Desliza o chão e a noite
Por fios de uma seda eterna
Que importa, quem conta
Se calamos ou dizemos
Asilo-nos num país improvisado
E desfias-me as fronteiras
Asilo-nos num país improvisado
E desfias-me as fronteiras
Golpe finíssimo
A fingir de carrasco
Proclamação surda
Primeiro dia da derrota dos dias
Memória desfeita nas tuas mãos
Tudo acabou
Chão larva momento
Por isso te conto
Sempre novo
Desato o nó
Desato o nó
Desliza a seda
História de um país mulher
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Tormenta
Não é que não ame as bagas grossas de chuva
e as fendas de luz que rasgam a noite
mas como se atreve a natureza
a pôr-nos assim
em palco!
e as fendas de luz que rasgam a noite
mas como se atreve a natureza
a pôr-nos assim
em palco!
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
domingo, 12 de agosto de 2018
49*
Conta-los um a um
Compasso de sangue
Espera lenta
Matriz mãe
Amarga
Desse sangue cantado
Sobram-te as veias e a garra
Noites a querer guardar o tempo
E bordas de tangos que mal aguentam
As mil quedas em que te precipitas
Desse arresto tentado
Sobram-te os voos redondos
E o passo amoroso em 4 ou 8 ou 16
Que o mestre sempre te quis livre
Tempo de um mate quente
Que se sorve lento
Ideia inviolável
Um corpo inteiramente vivo
Matéria breve
Célula mãe
Nascida
Dia arrebatado às cinzas,
Este
Compasso de sangue
Espera lenta
Matriz mãe
Amarga
Desse sangue cantado
Sobram-te as veias e a garra
Noites a querer guardar o tempo
E bordas de tangos que mal aguentam
As mil quedas em que te precipitas
Desse arresto tentado
Sobram-te os voos redondos
E o passo amoroso em 4 ou 8 ou 16
Que o mestre sempre te quis livre
Tempo de um mate quente
Que se sorve lento
Ideia inviolável
Um corpo inteiramente vivo
Matéria breve
Célula mãe
Nascida
Dia arrebatado às cinzas,
Este
*Para Jorge, depois do transplante.
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
No espelho
de tão lenta, fugaz
sem antes nem depois
esta é a história de uma fotografia
instantâneo de vida por revelar
em película pele
sem antes nem depois
esta é a história de uma fotografia
instantâneo de vida por revelar
em película pele
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
vão-nos deixar sem nada
vão-nos tirar o pão da boca e a boca e o pensar nela
e os beijos que matavam a fome e geravam motins
e o motim maior que devora o pensar e o saber
e fica só assim a sentir a destempo
e o tempo, o tempo
o tempo
ontem
ou noutro dia qualquer
passei em frente do Coliseu
o concerto tinha definitivamente acabado
a rua e as paredes estavam miseravelmente sombrias
e ontem, ainda ontem, abri devagar as tuas mãos por nelas
vagar o sol
é pouco, tão pouco, fui apenas o movimento redondo dos teus olhos
quando ao chegares
parti
não nos vão tirar mais nada.
vão-nos tirar o pão da boca e a boca e o pensar nela
e os beijos que matavam a fome e geravam motins
e o motim maior que devora o pensar e o saber
e fica só assim a sentir a destempo
e o tempo, o tempo
o tempo
ontem
ou noutro dia qualquer
passei em frente do Coliseu
o concerto tinha definitivamente acabado
a rua e as paredes estavam miseravelmente sombrias
e ontem, ainda ontem, abri devagar as tuas mãos por nelas
vagar o sol
é pouco, tão pouco, fui apenas o movimento redondo dos teus olhos
quando ao chegares
parti
não nos vão tirar mais nada.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Desde El Alma*
o momento vaga perdido
roda como quem quer voar
e assim redondo se lança num vals
que os meus braços não deixam acabar
só isto te posso prometer ainda que
já não saibas durar
mas há ainda chão e o maestro
ainda nos sabe escutar
sigamo-lo no vals perdido
prestes a começar
* À memória de Nicolás Ferreira, no dia do seu aniversário.
sábado, 21 de julho de 2018
navegantes
estremecemos
entramos na curva do vento
passamos por entre cortinas
de água e lábios de sal
a terra desliza inteira
e nela alamos
desvios
talvez nos percamos
da rota imensa
talvez a seta
seja o anzol de um pescador
que ilumina a noite no Ginjal
talvez a parede roída de tempo
nos ampare a queda mil vezes
calço os sapatos cor-de-poente
e entro na curva do vento
estremecemos
entramos na curva do vento
passamos por entre cortinas
de água e lábios de sal
a terra desliza inteira
e nela alamos
desvios
talvez nos percamos
da rota imensa
talvez a seta
seja o anzol de um pescador
que ilumina a noite no Ginjal
talvez a parede roída de tempo
nos ampare a queda mil vezes
calço os sapatos cor-de-poente
e entro na curva do vento
estremecemos
segunda-feira, 16 de julho de 2018
prestidigitadores
nas suas mãos
há apenas ocaso e olvido
a eterna corrida alegre passando
o umbral de todas as manhãs
no horizonte sempre além
no horizonte de toda a vida
ser um pouco mais à frente
sobra um passo
o próximo
sempre
há apenas ocaso e olvido
a eterna corrida alegre passando
o umbral de todas as manhãs
no horizonte sempre além
no horizonte de toda a vida
ser um pouco mais à frente
sobra um passo
o próximo
sempre
poema póstumo
bani lembranças
corri a memória
abro a janela e o livro sem medo
não me vens deitar a cabeça no colo
não me vens deitar a cabeça no colo
quarta-feira, 4 de julho de 2018
da pertença
pouco se sabe
do poder que tem um verbo
de mudar o caminho das marés
ainda menos se sabe se aquele pouco de som
que assistiu na difícil tarefa de propor aos lábios
que algo é dúctil
ou fero
sobrevive ainda às amarras da língua tua
no corpo mundo
Sur
talvez os gatos tenham sete vidas
pássaros e gente têm
apenas uma
voo único
de um céu rasante
volta sem memória
ao princípio de tudo
toda a vida
toda uma vida
tempo de apenas deixar
que a areia escorregue
por entre os dedos
até ao chão
pássaros e gente têm
apenas uma
voo único
de um céu rasante
volta sem memória
ao princípio de tudo
toda a vida
toda uma vida
tempo de apenas deixar
que a areia escorregue
por entre os dedos
até ao chão
quarta-feira, 27 de junho de 2018
O anel
o extraordinário punho
apoteose e fim
creio no rosário
contas de pele
fantasia redonda com
deus de permeio
saqueaste o mar
ferreiro e forja
e eu prata
sopro
corte fundo
corte fundo
estamos ainda
ambos no mundo
na terra húmida dos
sonhos enterrados
travessia cega
mar nocturno
recolho-me náufraga
chega-me o teu eco
se nascesses agora
apoteose
e fim
segunda-feira, 25 de junho de 2018
Garras
era assim que começavam as linhas
que não cheguei a escrever
rasgava setembro
cinco dias
inteiros
domingo, 24 de junho de 2018
monarca
acabou-se a música
arrancaram o chão
todos se foram
sobra um acorde
que nada cala
tríade menor
de dois
dentro
lá fora
os corações pequenos e os notários, juntos
conferem gravemente da inutilidade de assim bailar
pois não há música nem chão nem nada que nos justifique
e nem o confessado assomo do amor aos lábios que tudo estremece
basta
decretam o fim da memória
e do seu esquecimento
insisto
houve um chão
houve música
houve gente
lá fora
recolhem diligentemente as flores caídas
retiram as coroas e os laços para um lugar conveniente
onde tudo será cinza depois da última porta fechada pelo lado de fora
calada alquimia entre fogo flor e lágrima
dentro
a homenagem acabou
decreta-se o retorno
ao real
lá fora
o voo transatlântico da borboleta
cruza com espada de ferro as vossas crenças
quarta-feira, 20 de junho de 2018
Borda
sucessão e ordem
passam os dias
(aquele momento
engoliu o tempo todo)
sucessão e ordem
passam os dias
passam os dias
(aquele momento
engoliu o tempo todo)
sucessão e ordem
passam os dias
Trasnochando
vem o teu passado ter comigo
num gesto mal medido
num golpe fero
interponho-me
atrás, a máquina do tempo
coreografa tudo
peço a palavra
por um ausente
gesto breve
que te cuida
abro a arca
corpo fechado
houve um tempo
em que te esperava
as veias abertas em teu nome
atrás, a máquina do tempo
coreografa tudo
peço a palavra
por um ausente
gesto breve
que te cuida
abro a arca
corpo fechado
houve um tempo
em que te esperava
as veias abertas em teu nome
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Legado*
que importância tem o depósito sentimental
das coisas a que chamo tuas?
amanhã virá o executor
reafirmar que já não és
dono de nada
tudo nos foi legado, repartido em
tecidos vivos de memórias
histórias e sentir
o corpo amargo
o corpo amargo de
não sentir a vontade do teu
também ele nos foi legado
omphalos a quem faltasse
o cordão original
corte inútil
marca tua
eu, que te criei
tu, que me nasceste
somos parte eterna de tudo
e seremos ouvidos
convoco o executor, o carrasco e o criador
para traçarmos juntos o plano destes trinta dias
a mais
faço ver que a roda que movíamos ao contrário do tempo
pode agora avançar e que te espero no Goya às seis da tarde
sujeitos ao céu aberto e à terra fremente
sem mais abrigo que o querer
rejeitamos mortalhas e milagres
trinta dias é um breve estremecer
nas cordas eternas da vida
fecho-te os olhos com os meus
amparo-te a queda
recebo-te
das coisas a que chamo tuas?
amanhã virá o executor
reafirmar que já não és
dono de nada
tudo nos foi legado, repartido em
tecidos vivos de memórias
histórias e sentir
o corpo amargo
o corpo amargo de
não sentir a vontade do teu
também ele nos foi legado
omphalos a quem faltasse
o cordão original
corte inútil
marca tua
eu, que te criei
tu, que me nasceste
somos parte eterna de tudo
e seremos ouvidos
convoco o executor, o carrasco e o criador
para traçarmos juntos o plano destes trinta dias
a mais
faço ver que a roda que movíamos ao contrário do tempo
pode agora avançar e que te espero no Goya às seis da tarde
sujeitos ao céu aberto e à terra fremente
sem mais abrigo que o querer
rejeitamos mortalhas e milagres
trinta dias é um breve estremecer
nas cordas eternas da vida
fecho-te os olhos com os meus
amparo-te a queda
recebo-te
*poema para refazer o dia 14 de Maio de 2018,
para vos.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Chico
são muito azuis, os olhos que não vi
é nossa, a cidade maravilhosa
submersa nos futuros amantes
que não sabem que nada
é p'ra já
tomo-lhe as palavras
levo-as a tempo
nós sabemos
tudo já foi
tudo será
caem milénios
neste momento em que
não criamos nada
recebemos tudo
poemas azul-buarque
lenço azul-amante
que deixaste cair
é nossa, a cidade maravilhosa
submersa nos futuros amantes
que não sabem que nada
é p'ra já
tomo-lhe as palavras
levo-as a tempo
nós sabemos
tudo já foi
tudo será
caem milénios
neste momento em que
não criamos nada
recebemos tudo
poemas azul-buarque
lenço azul-amante
que deixaste cair
sábado, 9 de junho de 2018
100 metros
começaste a não estar há tanto tempo
que o momento exacto de não estares
parece-me aquela imperceptível aceleração
que faz com que apenas um ganhe a corrida
corremos todos atrás de ti e reconhecemos a tua vitória
ficámos para trás e agora andamos a passo a recolher os possíveis
talvez te lembres que te dizia ter começado a entender passos e rotações
talvez tenhas entendido que toda a felicidade está em começar e nunca em ganhar
ainda assim,
aceleraste.
que o momento exacto de não estares
parece-me aquela imperceptível aceleração
que faz com que apenas um ganhe a corrida
corremos todos atrás de ti e reconhecemos a tua vitória
ficámos para trás e agora andamos a passo a recolher os possíveis
talvez te lembres que te dizia ter começado a entender passos e rotações
talvez tenhas entendido que toda a felicidade está em começar e nunca em ganhar
ainda assim,
aceleraste.
teoria de tudo
ao encontrar todos os valores possíveis
resolvo a incógnita, reponho a verdade
x igual a tudo o que é possível
x igual a si próprio
x nada
depósito de ossos e sonhos
a terra resolve todas as equações
na mais perfeita e longa igualdade
a alma cabe dentro de um saco plástico
o anseio cabe todo dentro de seis letras
a vida é um rio que se ri à gargalhada
das nossas reflexões na margem
sábios de calças arregaçadas
ponderados no sofreramar
jodorowskys a martelo
joderowsky para os pobres
olhos redondos de quem diz
que anda por aí uma incógnita solta
e a cala para parecer mais alto quando anda na rua
x não é igual a um metro e talvez oitenta de jactância
muito mais gosto, ó terra, de quem sabe
que nunca houve mais nada a saber
vão, vêm, estão
x = matar-nos
há
resolvo a incógnita, reponho a verdade
x igual a tudo o que é possível
x igual a si próprio
x nada
depósito de ossos e sonhos
a terra resolve todas as equações
na mais perfeita e longa igualdade
a alma cabe dentro de um saco plástico
o anseio cabe todo dentro de seis letras
a vida é um rio que se ri à gargalhada
das nossas reflexões na margem
sábios de calças arregaçadas
ponderados no sofreramar
jodorowskys a martelo
joderowsky para os pobres
olhos redondos de quem diz
que anda por aí uma incógnita solta
e a cala para parecer mais alto quando anda na rua
x não é igual a um metro e talvez oitenta de jactância
muito mais gosto, ó terra, de quem sabe
que nunca houve mais nada a saber
vão, vêm, estão
x = matar-nos
há
sexta-feira, 8 de junho de 2018
paisagem
apoio a minha vida no torso que me recebe
faço-lhe frente e respondo-lhe surdamente
a partir daqui é só caminho e juro-te
atravessámos montanhas
não to disse ainda?
regressa.
torso corda larga de guitarra antiga
os teus dedos na curva onde começa o corpo
consolo breve por sermos dois
chamamento perto
esteio
torso esteio largo
encosta e precipício
regressa.
sei que um pouco mais à frente
de golpe, sem aviso
a paisagem muda
tangente de dentro de não sei que demónio
raso a parede cheia de falhas agrestes
e a montanha segura de há pouco
é agora rocha impassível
e vertigem
e vertigem
regressa.
do sangue não nascem flores
e se nascessem seriam rosas carne
espinhos arrependidos de todo o mal
sonhos fulvos de uma manhã de outono
ainda intactos
regressa.
e se nascessem seriam rosas carne
espinhos arrependidos de todo o mal
sonhos fulvos de uma manhã de outono
ainda intactos
regressa.
terça-feira, 5 de junho de 2018
⧜
rogo a memória alheia
que te traga até mim
eras muitos
quero que sejas mais
desses pedaços faço história
que gravo nos olhos de quem me olhar
pouca gente o sabe
mas vivemos tudo sempre
bastou que uma vez
o tivéssemos sentido
mas rogo, sim, rogo,
a memória alheia
que te conte
mais
neste eterno baile
preciso ainda e sempre
que sintas comigo
que sintamos juntos
os acordes de um passado
que vivemos, que temos de ter vivido
cada vez que caminh⧜mos
ao contrário do tempo
só mais uma vez
contame
que te traga até mim
eras muitos
quero que sejas mais
desses pedaços faço história
que gravo nos olhos de quem me olhar
pouca gente o sabe
mas vivemos tudo sempre
bastou que uma vez
o tivéssemos sentido
mas rogo, sim, rogo,
a memória alheia
que te conte
mais
neste eterno baile
preciso ainda e sempre
que sintas comigo
que sintamos juntos
os acordes de um passado
que vivemos, que temos de ter vivido
cada vez que caminh⧜mos
ao contrário do tempo
só mais uma vez
contame
segunda-feira, 4 de junho de 2018
domingo, 3 de junho de 2018
sábado, 2 de junho de 2018
Epitáfio
ir apenas quando se acabassem os sonhos
ir depois do último desejo
ir sem pena
tenho o teu epitáfio por escrever
teimas em viver
escondo a data e baralho as horas
entro no comboio de madrugada
entro na paisagem onde estás
os monstros são claros
deixam-se acariciar
penso que talvez seja
uma estranha passageira
que se levanta a meio da viagem
e sonha que sai do comboio em andamento
para entrar no gelo branco e quente do desconhecido
está gente à tua espera
faltaste ao ensaio
e ao dia
há quem encerre desejos como se fossem portas
há quem guarde sonhos com papel de embrulho
há até quem deite fora as penas
às segundas, quartas e sextas
junto com o lixo doméstico
indiferenciado
e diga ele
e não tu
a gente que te espera
guarda o tempo que te faltava
para chegares ao fim de todos os sonhos
não se escrevem epitáfios com fios do real
bem atados a quem somos
aqui não jaz
ninguém
ir depois do último desejo
ir sem pena
tenho o teu epitáfio por escrever
teimas em viver
escondo a data e baralho as horas
entro no comboio de madrugada
entro na paisagem onde estás
os monstros são claros
deixam-se acariciar
penso que talvez seja
uma estranha passageira
que se levanta a meio da viagem
e sonha que sai do comboio em andamento
para entrar no gelo branco e quente do desconhecido
está gente à tua espera
faltaste ao ensaio
e ao dia
há quem encerre desejos como se fossem portas
há quem guarde sonhos com papel de embrulho
há até quem deite fora as penas
às segundas, quartas e sextas
junto com o lixo doméstico
indiferenciado
e diga ele
e não tu
a gente que te espera
guarda o tempo que te faltava
para chegares ao fim de todos os sonhos
não se escrevem epitáfios com fios do real
bem atados a quem somos
aqui não jaz
ninguém
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