quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Passagem de Alfredo Ábalos

à sede que se enreda na voz
às cordas que lhe gravam fendas,
às penas, caminhos e omissões, 
saúde! 
tudo isso fica do lado de cá da porta
onde os rios correm com o cio
de sempre chegarem ao mar
abismo de sentir em copla
o que não pode tardar

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Âmbar

dezassete dias passados
agosto inverno
três meses
depois

o pátio

receberam-nos um gato e
um manequim quebrado
por entre ramos verdes
de não sei que
primavera

a sala era azul
de um azul anoitecido
na memória del tiempo aquel
quando a moldura não te encaixotava
no pó vago dos lugares altos e inúteis

e não sei em que movimento das horas
se voltou a encher de azul a sala
mas de um azul âmbar
nicho-fonte que me albergou
na curva abismo da noite
na curva abismo do caudal
nascente como
resina

hoje recebem-nos no pátio
um coração-insecto
e os rios frescos
do olvido















segunda-feira, 10 de setembro de 2018

No Fim do Mundo

é ainda terra
a última que piso
antes do mar eterno
é ainda dia, o sol que baixa
e nos revela juntos na espera
lento Outono, feroz Primavera

caminho pela terra do fogo
com a cadência que me deixaste
um instante de cada vez
uma vida de cada vez
impossível sul

baía adentro
último adeus dos yagáns
ao poder dizer refúgio
cálida maneira
calada maneira
de te saudar