segunda-feira, 16 de julho de 2018

prestidigitadores

nas suas mãos
há apenas ocaso e olvido
a eterna corrida alegre passando
o umbral de todas as manhãs
no horizonte sempre além
no horizonte de toda a vida
ser um pouco mais à frente
sobra um passo
o próximo
sempre


poema póstumo

bani lembranças 
corri a memória
abro a janela e o livro sem medo
não me vens deitar a cabeça no colo
não me vens deitar a cabeça no colo





quarta-feira, 4 de julho de 2018

da pertença

pouco se sabe 
do poder que tem um verbo
de mudar o caminho das marés
ainda menos se sabe se aquele pouco de som
que assistiu na difícil tarefa de propor aos lábios
que algo é dúctil
ou fero
sobrevive ainda às amarras da língua tua
no corpo mundo

Sur

talvez os gatos tenham sete vidas
pássaros e gente têm
apenas uma

voo único
de um céu rasante

volta sem memória
ao princípio de tudo

toda a vida
toda uma vida

tempo de apenas deixar
que a areia escorregue
por entre os dedos

até ao chão


quinta-feira, 28 de junho de 2018

O anel

o extraordinário punho 
apoteose e fim 

creio no rosário
contas de pele

fantasia redonda com
deus de permeio

saqueaste o mar
ferreiro e forja

e eu prata
sopro

corte fundo
corte fundo

estamos ainda
ambos no mundo

na terra húmida dos
sonhos enterrados

travessia cega
mar nocturno

recolho-me náufraga
chega-me o teu eco

se nascesses agora
apoteose
e fim





segunda-feira, 25 de junho de 2018

Garras



era assim que começavam as linhas
que não cheguei a escrever
rasgava setembro
cinco dias
inteiros




domingo, 24 de junho de 2018

monarca

acabou-se a música
arrancaram o chão
todos se foram
sobra um acorde
que nada cala
tríade menor
de dois
dentro

lá fora
os corações pequenos e os notários, juntos
conferem gravemente da inutilidade de assim bailar
pois não há música nem chão nem nada que nos justifique
e nem o confessado assomo do amor aos lábios que tudo estremece 
basta
decretam o fim da memória 
e do seu esquecimento

insisto
houve um chão
houve música
houve gente

lá fora
recolhem diligentemente as flores caídas
retiram as coroas e os laços para um lugar conveniente 
onde tudo será cinza depois da última porta fechada pelo lado de fora
calada alquimia entre fogo flor e lágrima
dentro
a homenagem acabou
decreta-se o retorno
ao real

lá fora
o voo transatlântico da borboleta
cruza com espada de ferro as vossas crenças

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Borda

sucessão e ordem
passam os dias

(aquele momento
engoliu o tempo todo)

sucessão e ordem
passam os dias


quarta-feira, 20 de junho de 2018

Trasnochando


vem o teu passado ter comigo
num gesto mal medido
num golpe fero

interponho-me

atrás, a máquina do tempo
coreografa tudo

peço a palavra
por um ausente

gesto breve
que te cuida

abro a arca
corpo fechado

houve um tempo
em que te esperava
as veias abertas em teu nome













quarta-feira, 13 de junho de 2018

Legado*

que importância tem o depósito sentimental
das coisas a que chamo tuas?
amanhã virá o executor
reafirmar que já não és
dono de nada
tudo nos foi legado, repartido em
tecidos vivos de memórias
histórias e sentir
o corpo amargo
o corpo amargo de
não sentir a vontade do teu
também ele nos foi legado
omphalos a quem faltasse
o cordão original
corte inútil
marca tua
eu, que te criei
tu, que me nasceste
somos parte eterna de tudo
e seremos ouvidos
convoco o executor, o carrasco e o criador
para traçarmos juntos o plano destes trinta dias
a mais
faço ver que a roda que movíamos ao contrário do tempo
pode agora avançar e que te espero no Goya às seis da tarde
sujeitos ao céu aberto e à terra fremente
sem mais abrigo que o querer

rejeitamos mortalhas e milagres
trinta dias é um breve estremecer
nas cordas eternas da vida

fecho-te os olhos com os meus
amparo-te a queda
recebo-te





*poema para refazer o dia 14 de Maio de 2018,
para vos.






segunda-feira, 11 de junho de 2018

Chico

são muito azuis, os olhos que não vi
é nossa, a cidade maravilhosa
submersa nos futuros amantes
que não sabem que nada
é p'ra já
tomo-lhe as palavras
levo-as a tempo
nós sabemos
tudo já foi
tudo será
caem milénios
neste momento em que
não criamos nada
recebemos tudo
poemas azul-buarque
lenço azul-amante
que deixaste cair

sábado, 9 de junho de 2018

100 metros

começaste a não estar há tanto tempo
que o momento exacto de não estares
parece-me aquela imperceptível aceleração
que faz com que apenas um ganhe a corrida
corremos todos atrás de ti e reconhecemos a tua vitória
ficámos para trás e agora andamos a passo a recolher os possíveis
talvez te lembres que te dizia ter começado a entender passos e rotações
talvez tenhas entendido que toda a felicidade está em começar e nunca em ganhar
ainda assim,
aceleraste.

teoria de tudo

ao encontrar todos os valores possíveis
resolvo a incógnita, reponho a verdade
x igual a tudo o que é possível
x igual a si próprio
x nada

depósito de ossos e sonhos
a terra resolve todas as equações
na mais perfeita e longa igualdade

a alma cabe dentro de um saco plástico
o anseio cabe todo dentro de seis letras
a vida é um rio que se ri à gargalhada
das nossas reflexões na margem
sábios de calças arregaçadas
ponderados no sofreramar

jodorowskys a martelo
joderowsky para os pobres
olhos redondos de quem diz
que anda por aí uma incógnita solta
e a cala para parecer mais alto quando anda na rua
x não é igual a um metro e talvez oitenta de jactância

muito mais gosto, ó terra, de quem sabe
que nunca houve mais nada a saber
vão, vêm, estão

= matar-nos
          há



sexta-feira, 8 de junho de 2018

paisagem

apoio a minha vida no torso que me recebe
faço-lhe frente e respondo-lhe surdamente
a partir daqui é só caminho e juro-te
atravessámos montanhas
não to disse ainda?
regressa.
torso corda larga de guitarra antiga
os teus dedos na curva onde começa o corpo
consolo breve por sermos dois
chamamento perto 
esteio
torso esteio largo
encosta e precipício
regressa.
sei que um pouco mais à frente
de golpe, sem aviso
a paisagem muda
tangente de dentro de não sei que demónio
raso a parede cheia de falhas agrestes
e a montanha segura de há pouco
é agora rocha impassível
e vertigem
regressa.
do sangue não nascem flores
e se nascessem seriam rosas carne
espinhos arrependidos de todo o mal
sonhos fulvos de uma manhã de outono
ainda intactos
regressa.






terça-feira, 5 de junho de 2018

rogo a memória alheia
que te traga até mim

eras muitos
quero que sejas mais

desses pedaços faço história
que gravo nos olhos de quem me olhar

pouca gente o sabe
mas vivemos tudo sempre

bastou que uma vez
o tivéssemos sentido

mas rogo, sim, rogo,
a memória alheia
que te conte
mais

neste eterno baile
preciso ainda e sempre
que sintas comigo
que sintamos juntos
os acordes de um passado
que vivemos, que temos de ter vivido
cada vez que caminh⧜mos
ao contrário do tempo

só mais uma vez

contame



segunda-feira, 4 de junho de 2018

antes de atravessar (dia de sol)

não imagines nada
a vida é a exacta sensação
de um momento


domingo, 3 de junho de 2018

passaste todo para mim
e assim te levo dentro
mordo os lábios
e o teu sangue
escorre-me
puro sentir
mais nada
mais nada
















sábado, 2 de junho de 2018

Epitáfio

ir apenas quando se acabassem os sonhos
ir depois do último desejo
ir sem pena

tenho o teu epitáfio por escrever
teimas em viver

escondo a data e baralho as horas
entro no comboio de madrugada
entro na paisagem onde estás
os monstros são claros
deixam-se acariciar
penso que talvez seja
uma estranha passageira
que se levanta a meio da viagem
e sonha que sai do comboio em andamento
para entrar no gelo branco e quente do desconhecido

está gente à tua espera
faltaste ao ensaio
e ao dia

há quem encerre desejos como se fossem portas
há quem guarde sonhos com papel de embrulho
há até quem deite fora as penas
às segundas, quartas e sextas
junto com o lixo doméstico
indiferenciado
e diga ele
e não tu

a gente que te espera
guarda o tempo que te faltava
para chegares ao fim de todos os sonhos

não se escrevem epitáfios com fios do real
bem atados a quem somos
aqui não jaz
ninguém



















quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ara


as palavras carregam
a madeira que pisaste com todo o sentir
e o gesto brutal que no-la arrancou
rasgo dentro de mim o verbo
que a reduza a pó ou
que a guarde

as palavras carregam
o incenso que sobe até ao Sul
e o altar onde não me deito
rasgo dentro de mim o verbo
que cale a missa de um ou
que te cante

as palavras carregam-nos
peso-mundo
vão



Herança

coube-me em sorte
cruel quinhão
3 começos

Cartografia

assoma já a onda que nos vai quebrar a todos
por isso, navego calmamente contigo

não me chegou nenhuma data
nada sei desse mar por vir
não me preparo

um dia
visitou-me nitidamente 
a tua futura ausência
corria a madrugada
e nela chegava a
presença audível
do teu abraço
no meu peito

assomava a onda que nos vai quebrar a todos
convoquei Magdala para que nos afundássemos juntas
na voz de Laborde lobo náufrago eterno

cabeça simplesmente na almofada
adormeci

não me preparei
não sabia

acordei num dia completamente novo
e rodei o compasso pelo gozo da roda

assomava-me o teu nome aos lábios e aos dedos
temos todos a mesma idade nesse primeiro dia

meço a onda pelo cruzamento de distâncias
concluo que nos afogamos

nascemos no mesmo mar que nos há de quebrar

la última noche
el punto final

rodo o compasso calmamente
posição estimada
adentro




terça-feira, 29 de maio de 2018

20 watts


reparaste
o mundo encolheu
o mar secou

o coração
besta mecânica
galopa sem freio

debate-se
não entende
paredes brancas

agarra-se
ao seu próprio som
dança ainda uma vez

e esperança-se

descremos os dois
reparaste
do fim

mundo rochedo
fio de sal

os físicos postulam
que o meu tempo e o teu
existe existiu existirá

descremos todos do fim

o coração
besta mecânica
galopa, desmedido

e esperança-se

mundo grão
gota

nada a fazer
dano irreversível
máquina desligada
off

por 20 watts

o coração
grão
gota





domingo, 27 de maio de 2018

Salavina

espero pacientemente
que o piano de Ariel Ramírez
nos não acompanhe assim
nos não fira assim
boca de mar imenso
engolindo o correr dos dias


El Maipú

mudaram o chão onde caminhavas
a madeira guarda tudo, como nós

tábuas de prazer e mágoa
pedaços de vida

entram os moços inocentes na sala
vêm recolher o que é apenas chão
rasgado e irregular
não serve já
não sabem
ainda bem

carregam tudo rapidamente
não há tempo a perder!

não há tempo a perder
temo-lo ainda todo

pedaço-chão
inteiro

sábado, 26 de maio de 2018

palavras roubadas em contra-mão

viví
para que esta pena
desaparezca






quinta-feira, 24 de maio de 2018

só assim se pode dizer:
morir de amor

morrer de morte lavrada em auto, não
morrer de homenagens derradeiras, não
morrer de lápide e fotografia, não

afasto todas as mãos que não te cuidam
mordo quem de ti se abeire de cara tapada
escorraço coveiros e comadres
mato os abutres
convoco deus
o teu

digo-Lhe
morir de amor

era esse o único plano
era esse o único plano!
depois, um dia, sim, morrer apenas
da morte de decidir a cor do caixão
da morte que guarda relíquias em gavetas
da morte que chora, recorda e depois esquece

morir de amor é a única morte possível
a única que sabíamos
a única que dizíamos
tempo adentro

digo-Lhe
este é o nosso mistério
nunca O alcançarás








terça-feira, 22 de maio de 2018

Improviso para te levar ao baile*

viajo para a frente
estou prestes a ler o improviso
que arrancarias destes estranhos dias

vou a tempo de te dizer que não é verdade
que me fuja sempre o pé para a dança do adjectivo
vou ainda a tempo de te contar Paris de luz apagada
Paris sem Prévert nem Blake
cegos ambos para olhos de mar que me tragam
songs of innocence and of experience
Paris sem tangos cantados a meio da tarde no boulevard
incessantes partidas e portas fechadas

estou a tempo de te contar
e esperar pelo que vais tecer
que andei pelos cantos do Sul
que saberias reconhecer

excepto um

o nicho perfeito, a pele quente
o compasso de espera
antes





* Para o Ademar Ferreira dos Santos
   09/12/1952 - 22/05/2010
 


segunda-feira, 21 de maio de 2018

7 noites

ainda não

nesse dia (pela manhã?) acordaste
como todos os dias
e levantaste-te
corria o massacre em Gaza
escreviam-se poemas sobre o massacre em Gaza
escreviam-se poemas sobre o violentíssimo desaparecimento da Realidade
faltavam palavras para falar dos que tombavam
a menos que nos explodisse o peito
nesse dia corria o dia de hoje
a Realidade avisava
esse dia é hoje
recebo os pedaços do teu peito
recebes tu os meus
no mundo possível da manhã do dia catorze
recuemos um pouco
treze de Maio
tranquila me dizia
se me tivesse inquietado
se me tivesse pressentido num dia como o de hoje
se me tivesse prevenido com as teorias e postulados dos Mundos Possíveis
e te tivesse gritado para não me deixares ver o dia de hoje vinte e um de Maio?

se pudesses ver como o princípio do tempo se parece tanto com o seu fim

a rapariga com olhos de caleidoscópio que encantou os alunos esta manhã chama-se
Lucy (in the Sky with Diamonds)
o Miguel que veio da Galiza, como a María, dá-me versos sem querer, pão amargo para a boca
daquele mate parecido com o gosto da tua língua na minha
na camisola do petiz enamorado esta manhã lia-se LEIBNIZ em grandes letras nas costas
ainda o filósofo a rondar-nos com todos os seus mundos possíveis às costas
e nós que lhe damos razão porque
ouve:
como teria Leibniz imaginado que chegaríamos aqui
a este amargo dia sem mate
sem ti?



 

domingo, 20 de maio de 2018

Arresto Doble

bailavas essa redonda privação da liberdade
sempre pela última vez
cerceando a minha
rodeando o meu espanto
com afagos que queimavam

caminhavas como quem grita
coroavas como quem ama
para logo te afastares
tímido agora

tantos e tantos anos de palco
e a modéstia inteira

mas onde quer que eu te visse
aquele chão era teu
todo teu

a liberdade era minha
toda minha

arresto doble, corazón






Nombre

ya lo sabés, escribirlo, escribirlo hasta que se vaya!
al diablo la calidad y la métrica!
al diablo la ortografia y el idioma!
Todo es bueno, todo sirve
cuando comprendemos
un corazón
el tuyo
todo se hace claro,
bonitooo!
te encuentro de tantas maneras ahora...
vos sabés
y sabés como de un verso al otro
todo cambia
así que ayúdame a escribirlo
hasta que se vaya
a cuatro manos y un corazón
hasta que se vaya la nube de hierro
este horrible descompás
que nunca previmos
te sabía ahí y
a veces me iba
porque te sabía ahí
a veces me hago hoja cuando sopla el viento
y sigo caminos que son solo mios
otras veces me nacen raíces
que nada arranca
que miedo nos dá, a los vagabundos, un solo lugar!
ese lugar onde estás vos, es libre?
se puede ser hoja y arból al mismo tiempo?
hay buena sombra, largos caminos y buen piso para ronda de dos?
y se puede imaginar, creer en otra cosa y entristecer un poco alguna vez?
de un verso al otro, todo cambia
se me olvidó, perdona
siempre estabas
siempre estarías
y ahora hago preguntas al caos
hasta luego, solcito



sábado, 19 de maio de 2018

quadra viva

não se sabe desde há quanto
se choram os mortos assim
tacteando o mistério
adiando o fim

Uno



deixámos o ver e o ouvir
e fomos em busca desse sentir
que Marino canta como perdido
que Marino canta como perdido
apenas para que o vamos buscar

Prece

quantas vezes te disse
todo o tempo do mundo
era a nossa medida
mão-cheia de tudo

temos todo o tempo do mundo
teremos todo o tempo do mundo

não era soberba, nem desafio, ó Deuses!
não era menosprezo pelas vossas sábias leis
que rodam e rodam e rodam sem olhar a quem!
era outra coisa
era a nossa lei
a única lei das mulheres e dos homens que se encontram

sentem-se um pouco
larguem as setas e as rodas e vejam-nos bem
o que seria de vós sem os nossos corpos e emoções?
o que seria de vós sem as nossas promessas e esperanças?

poupem a roda a quem está por Eros ferido
poupem a roda a quem o reconheceu e escancarou o peito!

prometemos nada dizer.














sexta-feira, 18 de maio de 2018

Nico...

a outra ponta do laço
tinha-la tu
se soubesses o que custa
tenho a certeza que voltavas
tomando mate no pátio da casa
voando em zamba ao meu encontro
e depois juraríamos de novo pelo presente
o mais sagrado de todos os tempos nossos
tempo do sentir
tempo do querer
é absolutamente inútil pôr em verso
o que a morte nos roubou
nenhuma palavra chegou para dizer a felicidade
nenhuma palavra chega para dizer a perda
eu não tinha outra ambição
queria apenas não morrer
antes de te voltar a ver

não sou capaz de entender o que significa
já não estares
se eu estou

Al Compás


cada vez que lata mi corazón
latirá el tuyo



quarta-feira, 16 de maio de 2018

tempo inteiro

há uma canção árabe antiga que se parece com o teu silêncio
espera devagar que as cordas desenhem
nos dedos do tempo
as minhas mãos
no Goya
às 6




terça-feira, 15 de maio de 2018

A Inauguração


chegámos ao fim dos tempos
explode-me o peito de não ter palavras
que te levantem para que ouças que afinal
a pedra da injustiça não ergueu paredes
a bala silva só a canção do surdo
e nunca a nossa
nós, os que ouvimos
nós, os que sentimos
amarga-nos o gosto do metal e
sangramos quando feridos
a lança ou palavra
pesa-me que não te levantes
queria dizer-te que sinto os lábios secos
com tanta poeira da história
sei e sinto o gosto do sangue
de quem ainda fica um pouco mais
e se despede devagar da ilusão do chão comum a que chamamos humanidade
mordo os lábios devagar e desfraldo a única bandeira a inaugurar
o único lugar soberano, chão de mar e vento
que nunca mais poderei nomear

cai o pano largo


Gaza-Lisboa, 14 de Maio de 2018

sábado, 28 de abril de 2018

El Faro

contame
conta-me como são os caminhos
que ligam a rue du temple
a villa urquiza
decime
diz-me que compás
é a palavra-medida perfeita
para quem tragou o mar todo
e agora orienta a mão de apoio
para o coração quente quando nevava
e os olhos perdidos para o pássaro de prévert
acordate
conjuga-nos só em tempos verbais 
que caibam na rosa-dos-ventos
volta completa de horizonte
em busca de sentido

abril-sempre.

 


sábado, 9 de dezembro de 2017

Descansando do Presente*

de tudo o que já se perdeu no mundo
de tudo o que se desfaz e acaba
quanto nos fica nas mãos
quanto salva a memória?

entreguei-te ao Sul
andas por Santiago
por Neuquén
Nîmes
perco-te de casa
das gavetas fechadas
dos quartos cheios de tudo

passeias no mundo que temias
e amas o imenso redondo da Patagónia
as montanhas do Chile e as cores das travessias
o marchand de fleurs com olhos de mar
(que nome lhe darias?)
com todos te sentas à mesa
contando os dias

e por não teres já mão no destino
esperas-me em La Nacional
ou no Goya
e da letra do tango que te ensinei
dizes os versos que sabes que amo
brillaban tus ojos negros
claridad de luna llena

e continuas a escrever.



*Ao Ademar Ferreira dos Santos (09-12-1952 - ...).





















sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

56*

remexer
só em planos futuros

alinhar as velas pelo vento
e soprar com ele

guardar espaço para logo
e nenhum para depois

e demorar.



* Para a María Alonso Seisdedos, pelo novo ano a estrear.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Regresso a Buenos Aires

é como se o piano nos viesse buscar 
dedilhando um compás adentro
seguindo-nos pela pista 
rondando o desejo
abraça-nos o bandonéon 
desfaz-nos o bandonéon
segue a ronda sabendo-nos presos ao momento 
segue sem pena dos fantasmas que deixamos
lamento eterno de não poder durar
látego abafado da tua voz 
e o teu corpo revolto a tudo dizer
este é o único momento
este é o momento sem agora

que penas contínuas são essas
que nunca as conseguimos contar?
ainda há pouco estava nos teus braços
agora mesmo te senti comigo
ilusão antiquíssima 
segue comigo o fio

apagam-se as luzes e saímos
repetimos os versos, um a um,
dois por quatro perdidos na noite
a ronda agora é de dois
roubámos o piano e o bandonéon
acordamos livremente o olhar e os passos 
contamos cada segundo como nosso
contamos os dedos da fortuna e
agora estamos prontos 
este tango nasce assim

tempo desmedido
tempo vivido







 

domingo, 3 de dezembro de 2017

Crepitante

Não se ateia fogo com fósforos usados
Morreremos pois desse frio triste
Da palavra que não lasca
Pedra inútil e vazia
Cópias magras e infelizes 
Inutilmente iguais e acabados
Arde ou não arde
Arde ou não arde
Cabeça breve
Cabeça chã

Qualquer coisa é chama
Qualquer coisa arde
E não se vê
Chamem Camões bombeiro
E os Sapadores da normalidade!
Em cada fósforo um verso a incandescer
No imenso mar gelado de não ter nada para dizer...

Fogo é e será sempre a palavra que deixas nascer
Que já nasceu e te toma com tanto desconcerto
Que não saberias nunca mais dizer
Outra


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

no bosque

colhes as bagas no bosque feito de mar
cuidando de não esmagar o azul
nos dedos quentes
arredondas o gesto e o semblante
agora tudo é aquela baga pequena e doce
e levemente acre
a lembrar o desafio do sangue às noites frias
corre, mensageiro, corre-me nas veias e leva-me
ou esmaga-me entre os dentes do desejo que nos perde!
leva-me nos amores sentidos entre a noite e o mar e o vermelho
ou perde-me na borda do longe e da espera, mastro do meu querer!

agora tudo é aquela baga pequena e doce e acre e tua

 

  






sábado, 28 de outubro de 2017

sopa de pedra

essa água que me dás compõe-se
da minha sede

estas letras
de tudo o que passou

por isso
não te enganes

se te peço apenas pouco mais
que nada

esta pedra é a minha perene pergunta
aos mistérios do mundo

com o que me trouxeres
farei a resposta

um talo
uma espiga
alguns bagos em
mão-cheia medida trémula

nada que se possa deixar escrito
quem entenderia esta métrica na cozinha?

comemos
até termos de novo

fome





quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Do querer




dois por quatro igual a um


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Da Marinha a São Pedro

abrindo as copas verdes e o caminho
não havia nada que não pudesse começar ali
o sol
gosto primeiro dos dias longe de casa
a luz dançante dos pinheiros
a calma tão estranha da primeira viagem
e  o verde escuro das amoras escondidas

hoje, é a chuva mansa que me leva até ao Pinhal
onde tudo termina no barro triste das cinzas longas

nau sem fundo nem glória

hoje, a chuva que cresce abre as copas da memória
a uma promessa que faltou eternamente cumprir

nau de mares abertos e poetas no cais
sempre à espera do mundo melhor

abro o livro na mesma página
em que te deixei










terça-feira, 10 de outubro de 2017

Um

talvez seja estranho
este querer
creio que sim
quero que o seja


domingo, 1 de outubro de 2017

O sonho de Don Osvaldo

vi-te uma única vez
e essa vez me bastou
passávamos pela noite
soberanamente abraçados
no silêncio de quem tudo tem
quando Don Osvaldo, sempre ele,
pegou na orquestra, na pista, no tempo
e nos levou ao que não tem nome nem forma

vi-te todo de uma só vez
de olhos bem fechados
no mais alto lugar
em mim

ver-te assim
é ter tocado os limites
é saber que outro és
no caminho de fogo
em mim

ver-te
é ver-te assim

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Vals*

falta sempre tão pouco
para nada nunca mais acabar
que a tua voz nunca nada me prometa
que os teus braços sempre se desprendam dos meus
viver é poder recomeçar ou recordar que um dia se começou
a esperar

se eu te pudesse dizer que comecei a viver neste preciso momento
e que não há absolutamente nada para além dele

que um vals é o tesouro que nenhum salteador sequer sonha
que um só instante vale a história dos tempos

que o que um dia se sentiu
é o compasso entre dois passos

um corpo inteiro que canta o esplendor
de caminhar os dias até ti





*"Un Momento" (Héctor Stamponi)
pela Orquestra de Carlos di Sarli, canta Oscar Serpa











terça-feira, 26 de setembro de 2017

Moldura*

não é o mar que é belo
o que é belo,
é melhor dizê-lo assim
sem metáfora
nem rima,
o que é belo
é o tempo de lhe apanhar
os bocados de sol dentro, ao mar
ao mar, o que é belo
nele e teu
é que o olhem
e se demorem um pouco
o tempo de apanhar o que
não se pode nem escrever
nem guardar

*esquadria em Alberto Caeiro para uma fotografia