quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Do querer




dois por quatro igual a um


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Da Marinha a São Pedro

abrindo as copas verdes e o caminho
não havia nada que não pudesse começar ali
o sol
gosto primeiro dos dias longe de casa
a luz dançante dos pinheiros
a calma tão estranha da primeira viagem
e  o verde escuro das amoras escondidas

hoje, é a chuva mansa que me leva até ao Pinhal
onde tudo termina no barro triste das cinzas longas

nau sem fundo nem glória

hoje, a chuva que cresce abre as copas da memória
a uma promessa que faltou eternamente cumprir

nau de mares abertos e poetas no cais
sempre à espera do mundo melhor

abro o livro na mesma página
em que te deixei










terça-feira, 10 de outubro de 2017

Um

talvez seja estranho
este querer
creio que sim
quero que o seja


domingo, 1 de outubro de 2017

O sonho de Don Osvaldo

vi-te uma única vez
e essa vez me bastou
passávamos pela noite
soberanamente abraçados
no silêncio de quem tudo tem
quando Don Osvaldo, sempre ele,
pegou na orquestra, na pista, no tempo
e nos levou ao que não tem nome nem forma

vi-te todo de uma só vez
de olhos bem fechados
no mais alto lugar
em mim

ver-te assim
é ter tocado os limites
é saber que outro és
no caminho de fogo
em mim

ver-te
é ver-te assim

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Vals*

falta sempre tão pouco
para nada nunca mais acabar
que a tua voz nunca nada me prometa
que os teus braços sempre se desprendam dos meus
viver é poder recomeçar ou recordar que um dia se começou
a esperar

se eu te pudesse dizer que comecei a viver neste preciso momento
e que não há absolutamente nada para além dele

que um vals é o tesouro que nenhum salteador sequer sonha
que um só instante vale a história dos tempos

que o que um dia se sentiu
é o compasso entre dois passos

um corpo inteiro que canta o esplendor
de caminhar os dias até ti





*"Un Momento" (Héctor Stamponi)
pela Orquestra de Carlos di Sarli, canta Oscar Serpa











quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Um

camisa aos quadrados
e olhar silencioso

não me lembro bem se bailámos
ou se fomos apenas um

camisa aos quadrados
olhos de mar revolto

não me lembro bem se concordámos
em nunca mais calar

que o baile e a vida se juntam
para em nós morar

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Moldura*

não é o mar que é belo
o que é belo,
é melhor dizê-lo assim
sem metáfora
nem rima,
o que é belo
é o tempo de lhe apanhar
os bocados de sol dentro, ao mar
ao mar, o que é belo
nele e teu
é que o olhem
e se demorem um pouco
o tempo de apanhar o que
não se pode nem escrever
nem guardar

*esquadria em Alberto Caeiro para uma fotografia


domingo, 24 de setembro de 2017

Maldonado

De seu nome Santiago
de sua fé Resistente
de seu credo artesão
desaparecido
desaparecido
sorte dos que teimam
em amar o chão que pisam
sorte dos que dão o seu corpo
ao trespasse obsceno da modernidade

Direito ancestral a estar aqui
sabe-o a raiz e o sol
di-lo a pedra e o vento e
todas as sagradas famílias
sem cordeiros Benetton

Daqui não passam!
o meu corpo é o limite absoluto
a minha vida o lamento que esventra
a miséria de quem não cuida
a miséria de quem não sabe
a morte de quem não vê

Santiago, são todos
Santiago, onde estamos?

Desaparecida,
humanidade.



terça-feira, 19 de setembro de 2017


se tivesse bordas o tempo
engastava-lhes a curva dos teus dedos
nos meus

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Chico

impaciente, mal sentada
regressando das vindimas
a passageira do comboio contou a sua história
que começa quando foi abandonada
e acaba nestes versos

e nela coube, de Caxarias ao Entroncamento,
a mãe fugida e o pai amoroso
a morte do irmão jovem
(sempre o coração)
os filhos gémeos
Bernardo
Beatriz

Vila Nova da Barquinha 
a casa e a horta farta
e o melro,
Chico

a solidão do pai
as mãos que cuidam
e o voo alegre do Chico
a solidão de todos 
e as voltas que a vida dá

rasantes, breve.





sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ronda

quantas palavras vãs sobrevivem ainda
quantos momentos vividos passaram sem memória

rodamos no turbilhão do tempo
enganamos os anjos que guardamos

não há dia que não nos derrote
passam todos e levam o que somos

sigamo-los

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

El pañuelo rojo

envolvo a memória no mesmo golpe alado
que desferes neste preciso momento
neste momento em que preciso
que me envolvas nas asas
de me seguires de perto
roçando o meu desejo
disfarçado de arresto

na aula de hoje aprendi a golpear o tempo
com os estilhaços de um pañuelo



alfabetizador

diz-me que letras e palavras juntavas
para dar a entender o espanto de tanta gente
debaixo da inexorável roda que a todos leva

missão nobre, por certo, a tua
a de não ter por manto a lã ou o linho
mas a árvore manchada de tinta que outros cortaram

amanhã regressas para mais uma lição
sobre a infalibilidade da lógica quando bem aplicada
e perderás de vista a mão que te protegeu do sol e da sede

e não te aperceberás do aluno que separou alfabetiza dor
propositadamente

diz-me, que palavras e letras juntavas para dizer
o amor?

terça-feira, 12 de setembro de 2017

do desapego

pela via do Buda
atinge-se essa indiferença
a que alguns chamam felicidade
eu
prefiro sofrer a tua ausência
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que regresses a mim até já não poderes voltar
eu
prefiro que me mates de saudades e de sentir
e dizê-lo tantas vezes e de tantas maneiras
que esconjures pátria e bandeira
e me peças asilo ao abrigo
da normativa maior
aquela que diz
vamos!
eu
prefiro que já não estejas
a nunca teres estado
eu
na verdade da via que é apenas minha
agarro-me a essa diferença que és tu
em mim
e
quando já não estivermos
quando as vias e as vidas cessarem
aquele momento que nos apegou
viverá ainda.



sem palavras

tão de perto escuto o teu movimento
que o respiro

domingo, 10 de setembro de 2017

Vargas e o Arcanjo


ambos derrotados pelo mar
maré constante da vida
que agora te traz
à orla da praia
voz ou pedra partida
que agora me traz
à orla do sonho
voz ou pedra partida

ambos derrotados pelo mar
naufragamos no poder ser

quando Vargas canta
quando o Arcanjo luta
vamos mar largo e alto
no mais sentido sem rumo
eco de todos os navegantes

onde estamos e estamos sem fim.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Um

como poderia sentir a tua falta
se o teu abraço me move e estreita
a cada instante?

afasta-te um pouco
aí, no limite do possível
e diz-me

que tempo é este que incessantemente
nasce?



Poiesis


como tarda, este momento
como se alonga e toma alento

antes de ir buscar
o que já não está


da tempestade

nada sobrou dos ventos e marés
tudo o que era matematicamente certo
é agora escombro ou lasca

compara com o meu coração!




sem rumo

aonde vai o barco
o barco que vi passar

vai vagar nos teus sonhos
até que decidas remar

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Goya, 10h30

também sou artesã, sabes,
moldo a arte de estar
crio tempo

improviso memórias
e submeto o fugaz
com chicote

podes ler o que foi
e riscar as palavras
a tinta ou fuga

a tinta é frágil
como o papel
como o ser

talvez só a ideia
do livro azul
seja eterna

mero caderno
de uma viagem
por acontecer

café cais
de um porto
desconhecido

canto seguro
que vê passar
ventos e marés

de onde estou
as gentes e os bens
parecem-me fantasmas

de palpável
só a tua espera
e a caneta pousada

De cuervos y brujos*

nunca mais foi dia claro

a luz toda se escondeu 
nos golpes de asa e nas voltas de chão 
entre os lábios das cordas
sob teclas frementes 
adentro
no toque surdo da pele do tambor
adentro

quando sofre, diz devagar
bombo legüero...
que longe vai o dia claro...
e inteira cai nos braços da noite
uma e outra vez 
e esquece

não voltou mais aonde a esperavam
agora, afaga pupilas e acende rastilhos
e é pão e vinho e ar para a boca dos que penam
em cada golpe de asa e em cada volta de chão 
glosa que grita o sangue que corre nas veias morenas
glosa que grita o sangue com que mordemos o desejo
glosa que a cada momento se precipita para o fundo de tudo
tudo isso é luz! luz que já não pode seguir o seu caminho antigo
presa lenta da espera do movimento seguinte, esse de onde nascem
os reflexos de ti.


* a partir da versão da"Zamba de Lozano"por El Cuervo Pajón y los Brujos



 




terça-feira, 5 de setembro de 2017

improviso para passeantes

vem comigo passear nas ruínas dos sonhos
castelos amargos por entre mãos verdadeiras

de todos os prédios da cidade
o que mais gosto é aquele que me deixa ver o sol

de todas as flores de rua
a que mais gosto é aquela em que os teus olhos pousaram

e de todas as absolutas coisas do mundo
a que mais gosto é aquela que só o momento pode dar

por isso, quando vieres,
traz-me apenas uma vontade completamente nua

manual de interpretação de sonhos

resiste como puderes
arma-te do aqui e agora
sejam essas as tuas únicas palavras

os loucos no divã são ouvidos por parvos sem remissão
beatas tecedeiras de ocultos e dizeres que a literatura dos pares aprovou!

resiste, experimenta resistir

talvez pelo meio tenhas ouvido 
"existe" 
e estejas já a associar algo a alguma coisa e tudo isso já puxou por mais fios que Ariadne algum dia pudesse conter na sua única vontade absolutamente despedaçada... 

tud está entrelaçado, parece-me ouvir
e se estivesse, tens os olhos para o ver ou as mãos para o destrinçar?

resiste, vá lá, resiste, arma-te ou ama-te
do aqui e agora 
deixa cair letras e palavras e mitos no esquecimento
arma-te contra todos os planos futuros e as agendas fúteis da modernidade
ama-te resistindo nesse aqui e agora
isso, aqui e agora,
em que me armas ou amas sem medo.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

notas para zamba

fiz da tua ausência um abismo de paredes lentas com chão

 e nele desenho o passar das horas que caminham

seguras, ávidas

fiz da tua ausência uma montanha rarefeita

para ter de te pedir um pouco desse ar

com que me beijas

fiz da tua ausência um nó

para nele poder atar o lenço de uma zamba

que ainda não bailámos

e fiz, faço!, da tua ausência

a cadência que embala

o tempo.


depois de Pugliese

não era exactamente como um laço e o seu proverbial nó
nem como aqueles campos invisíveis a que se chama atracção

era mais parecido com o som que faz o desejo 
quando corre pelos bandoneóns

era semelhante ao toque que a tecla pressente
quando aproximas o teu corpo do meu

era igual à orquestra esperando 
o nosso compás

era assim que eu to diria
se me pudesses ouvir

domingo, 13 de agosto de 2017

Um

Entende que o único afastamento
É ter acabado a música 

domingo, 18 de junho de 2017

guarda-fogo

sobrevoo a estrada cortada
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta

neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho

o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou! 
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças

sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade




terça-feira, 6 de junho de 2017

Exercício de Estilo

entre põe uma suspeita
calca devagar ou
separa para sempre

lugares mágicos

lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos

e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum

dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos

segunda-feira, 22 de maio de 2017

desacerto

chegar cedo sem perturbar nada que se siga
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois

são seis da tarde


domingo, 30 de abril de 2017

passeio dominical

é a mais segura que temos
rode, rode e volte a rodar

voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar

é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão

continuaria a rodar

volta eterna pelo lado de dentro

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Para o Ademar

continuamos na montanha
na altura absolutamente inútil
de não estarmos mais perto de nada

os comboios fazem as mesmas viagens
guardo ainda todas as tuas mensagens

se houvesse uma janela
e uma falha no vidro
talvez assim

uma paisagem entrecortada
pelo esquecimento 

e um novo horário para me ires
esperar



Para o Ademar Ferreira dos Santos
(9/12/1952)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015


Posta Restante Caída


caro estafeta,
esta carta destina-se
leve-a como puder
no seu tempo
a quem
souber
mas antes
sonhe que chega
e lhe abrem a porta
de todas as vidas


Para o Ademar. 

09.12. 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Ao Ademar



regresso amanhã a este poema
para que nunca o consiga acabar

domingo, 17 de maio de 2015

buscando o sujeito

e era assim que seria
modo e tempo de sonho

domingo, 29 de março de 2015

plano de vida


casas, coisas e vidas desfeitas 
com o chegar do momento
sabes que assim é
amizades velhas
amores-para-sempre
o que sobrou,
quem tos guardou?
o vento tem melhores baús
a chuva tem maior prazer

nem o momento se guarda
nem o tempo se semeia

reparaste quanta gente
nos cruzamentos do "se"?
como uma grande hora de ponta
sem que ninguém saia do carro
sem que ninguém volte atrás
num arroubo de enfim
ser Deus!

sigo o peregrino sem rumo
logo jantaremos fome



segunda-feira, 23 de março de 2015

o cantor na gaiola

levantou-se com a casa cheia
recusou as palmas e a simpatia
dizendo que talvez tivesse falhado
a única nota importante da vida
aquela que solta os pássaros
da poesia em que os temos

para que os sigamos

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

poema para uma fatia de pizza

círculo
quadrado
círculo
quadrado

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

reverberando

é sabido que há gente incapaz
de ir simplesmente fechar uma torneira
sem se perder no estreito e familiar caminho
da imaginação
plimp
plop

domingo, 14 de dezembro de 2014

amarras

no corredor novo e melhorado do sonho
passam aqueles que sabemos serem dois
também o metro é novo e branco 
vai de montparnasse a lisboa
por que voltas, não se sabe
agora está pronto a ir

lado a lado perto
peito oblíquo ao tempo
entram os dois mas apenas um
fica do lado de lá da porta firme
já invisível

não se sabe quem tomou a decisão
mas quem ficou não pôde ficar
saltou para o nicho estreito
lugar reservado aos loucos
sem lugar

fim à vista! ouviu-se do mastro
- o que é uma roda de ferro
senão a força do mar? -
lado a lado longe
peito face ao tempo

poema para tango

amanhã, caço o instante:
como-o e ei-lo meu!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Tales from aboard the Louxor*

regressar a Ítaca bordando os fios desfeitos
e deles fazer as mãos que rasgam o tempo
em bocados que a maré trouxesse 
como algo ainda inteiro
memória afinal é coisa
de futuro

* para J. e L.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

poema para celebrar*

ouviríamos a milonga triste
bailaríamos a sentimental
e não nos escaparia nenhum acorde
e não nos calaria nenhum silêncio
neste tempo 
cabemos tu e eu 
e a eternidade

antes das velas,
um desejo.



*para o Ademar, no dia do nosso aniversário 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Dístico para traduzir*

bloom is the only state flowers can hold
a reclining verb on a given day


*para a María Alonso Seisdedos

domingo, 9 de novembro de 2014

pormenor*

flagrante comissura
mar leito de rios
mar dos naufrágios
mar gota a gota
lábio inferior
lábio superior
boca
geografia exacta
do desejo escultor
na trégua da palavra
resvalo doce
e temível
que o pintor louvou 
ponte barca águas
onde corre ainda
o ciúme de Baco
o amor da Tágide
canto em chão d'exílio
ouço descalça o vibrar
do tempo de 
vagar meu
rosa de carne e alma
o teu beijo

*Retrato de Camões, Fernão Gomes

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Marfisa

ainda se vêem os laranjais
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

calíope sem camões

peca por breve e seco

mais pecaria longo

cheio de ti

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

a mão

como resistir à última maneira de dizer

talvez deixando uma nesga de fracasso

um naco de pão arrancado

repeti-lo: imperfeito!

nunca nada é infinito

nunca nada é derradeiro

domingo, 28 de setembro de 2014

daqui a pouco será noite, diz o dia
daqui a pouco nasce a luz, diz a treva
de nada nos serve o silêncio

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

beira de mar

sei tudo sobre ti
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos

se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo