domingo, 18 de junho de 2017

guarda-fogo

sobrevoo a estrada cortada
por farrapos de cinza e ferro
um pouco mais longe, as árvores ainda verdes
cobrem aquela parte da humanidade não-lírica que ama o chão que a sustenta

neste voo só há píxeis
e o vazio da palavra em alta-definição
lá em baixo há gente e coisas tão tangíveis
como o fogo que obsceno lambe a inocência dos mapas a vermelho

o que diz a Protecção Civil e o senhor que tem autoridade
para cortar as irregularidades do descuido naturalmente humano?
corte-se a estrada que já passou! 
na eternidade da inacção, haja alguém com decisão!
um pouco mais longe, duas aldeias tombam árvores para fazer uma ponte nova sobre o rio
não há registos do momento debaixo dos pés seguros das crianças

sobrevoo a palavra ecrã
anteparo da realidade




terça-feira, 6 de junho de 2017

Exercício de Estilo

entre põe uma suspeita
calca devagar ou
separa para sempre

lugares mágicos

lugares são apenas tempo
magia é estares nele
lugares pertencem aos sentidos
a magia pertence aos sentidos

e quantos são, os sentidos?
conta devagar, são mais do que pensas
conta pelos dedos ou nos impulsos dos lábios
que se põem a dizer em voz baixa para ver se não escapou nenhum

dos que esperam na lagoa
dos que subiram a montanha
dos que se deitaram na planície
do espaço entre os teus lábios entreabertos

segunda-feira, 22 de maio de 2017

desacerto

chegar cedo sem perturbar nada que se siga
tão cedo que ainda houvesse tempo
de não haver depois

são seis da tarde


domingo, 30 de abril de 2017

passeio dominical

é a mais segura que temos
rode, rode e volte a rodar

voltas, quantas mais melhor
em cada uma se sente
o medo a trancar

é tão segura que
será capaz de acreditar?
se deixasse de haver porta
se deixasse de haver ombro
se deixasse de haver
parede
casa
cidade, terra, gente e até
chão

continuaria a rodar

volta eterna pelo lado de dentro

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Para o Ademar

continuamos na montanha
na altura absolutamente inútil
de não estarmos mais perto de nada

os comboios fazem as mesmas viagens
guardo ainda todas as tuas mensagens

se houvesse uma janela
e uma falha no vidro
talvez assim

uma paisagem entrecortada
pelo esquecimento 

e um novo horário para me ires
esperar



Para o Ademar Ferreira dos Santos
(9/12/1952)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015


Posta Restante Caída


caro estafeta,
esta carta destina-se
leve-a como puder
no seu tempo
a quem
souber
mas antes
sonhe que chega
e lhe abrem a porta
de todas as vidas


Para o Ademar. 

09.12. 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Ao Ademar



regresso amanhã a este poema
para que nunca o consiga acabar

domingo, 17 de maio de 2015

buscando o sujeito

e era assim que seria
modo e tempo de sonho

domingo, 29 de março de 2015

plano de vida


casas, coisas e vidas desfeitas 
com o chegar do momento
sabes que assim é
amizades velhas
amores-para-sempre
o que sobrou,
quem tos guardou?
o vento tem melhores baús
a chuva tem maior prazer

nem o momento se guarda
nem o tempo se semeia

reparaste quanta gente
nos cruzamentos do "se"?
como uma grande hora de ponta
sem que ninguém saia do carro
sem que ninguém volte atrás
num arroubo de enfim
ser Deus!

sigo o peregrino sem rumo
logo jantaremos fome



segunda-feira, 23 de março de 2015

o cantor na gaiola

levantou-se com a casa cheia
recusou as palmas e a simpatia
dizendo que talvez tivesse falhado
a única nota importante da vida
aquela que solta os pássaros
da poesia em que os temos

para que os sigamos

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

poema para uma fatia de pizza

círculo
quadrado
círculo
quadrado

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

reverberando

é sabido que há gente incapaz
de ir simplesmente fechar uma torneira
sem se perder no estreito e familiar caminho
da imaginação
plimp
plop

domingo, 14 de dezembro de 2014

amarras

no corredor novo e melhorado do sonho
passam aqueles que sabemos serem dois
também o metro é novo e branco 
vai de montparnasse a lisboa
por que voltas, não se sabe
agora está pronto a ir

lado a lado perto
peito oblíquo ao tempo
entram os dois mas apenas um
fica do lado de lá da porta firme
já invisível

não se sabe quem tomou a decisão
mas quem ficou não pôde ficar
saltou para o nicho estreito
lugar reservado aos loucos
sem lugar

fim à vista! ouviu-se do mastro
- o que é uma roda de ferro
senão a força do mar? -
lado a lado longe
peito face ao tempo

poema para tango

amanhã, caço o instante:
como-o e ei-lo meu!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Tales from aboard the Louxor*

regressar a Ítaca bordando os fios desfeitos
e deles fazer as mãos que rasgam o tempo
em bocados que a maré trouxesse 
como algo ainda inteiro
memória afinal é coisa
de futuro

* para J. e L.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

poema para celebrar*

ouviríamos a milonga triste
bailaríamos a sentimental
e não nos escaparia nenhum acorde
e não nos calaria nenhum silêncio
neste tempo 
cabemos tu e eu 
e a eternidade

antes das velas,
um desejo.



*para o Ademar, no dia do nosso aniversário 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Dístico para traduzir*

bloom is the only state flowers can hold
a reclining verb on a given day


*para a María Alonso Seisdedos

domingo, 9 de novembro de 2014

pormenor*

flagrante comissura
mar leito de rios
mar dos naufrágios
mar gota a gota
lábio inferior
lábio superior
boca
geografia exacta
do desejo escultor
na trégua da palavra
resvalo doce
e temível
que o pintor louvou 
ponte barca águas
onde corre ainda
o ciúme de Baco
o amor da Tágide
canto em chão d'exílio
ouço descalça o vibrar
do tempo de 
vagar meu
rosa de carne e alma
o teu beijo

*Retrato de Camões, Fernão Gomes

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Marfisa

ainda se vêem os laranjais
de antes de serem doces
davam para o passo corrido da tarde
das palavras rodeando as mãos
dos olhos tombando noites

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

calíope sem camões

peca por breve e seco

mais pecaria longo

cheio de ti

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

a mão

como resistir à última maneira de dizer

talvez deixando uma nesga de fracasso

um naco de pão arrancado

repeti-lo: imperfeito!

nunca nada é infinito

nunca nada é derradeiro

domingo, 28 de setembro de 2014

daqui a pouco será noite, diz o dia
daqui a pouco nasce a luz, diz a treva
de nada nos serve o silêncio

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

beira de mar

sei tudo sobre ti
esse, esse pensamento!
não falhou ao atravessar-te
como este que em ti se quedará
talvez não creias
talvez digas que as palavras são ausências
e os pensamentos omissões
que hoje foi um dia a menos
que hoje a vida é sempre
um dia a menos

se tivesses ao menos um punhado de areia
e vê-la escorrer serena por entre os dedos
e, criança outra vez, cerrar o punho
e repetir tudo de novo

ambulante

até a margem tem um centro
e nele caminha de passo incerto
como quem evita a quase queda no quase rio
a menina da borda d'água

do pudor

acaso grande aquele o de
ter um casaco escuro
corte perfeito

depois de nu ainda
o envergava


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Saturno ao espelho

virar as costas é ainda e cada vez mais
sentar-se lado a lado nas sombras
que o tempo aumenta
ponteiro ímpio
e nu

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

do tesouro

há outras passagens
não acordes o adamastor

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

desengano

dísticos, dizes?
apenas?
acrescentate-te, pois!

A carta

P.S. Esqueci-me certamente de te dizer
       algo que seria talvez determinante.

sábado, 16 de agosto de 2014

agosto

desta vez
trouxe o azul nos bolsos

terça-feira, 17 de junho de 2014

le journal intime

viver
não conta


terça-feira, 10 de junho de 2014

le beau temps

dito assim
parece que é

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Para ti, 4 anos depois

olho para a curva da estrada e leio o pessoano aviso:
passou por aqui hoje e não voltou o homem com nome de mar

quinta-feira, 8 de maio de 2014

poema para colorir

anunciaste um castigo terrível
se a cor passasse da borda
que a minha mão tremeria
que tremia já e ainda
nem borda havia

desenhaste-a
forma finita e perfeita
lápis cego das limalhas
que escorregavam pela linha do real
e se perderam no papel 
e no ar que beijei com a calma de ser assim

ficou em branco a tua forma perfeita
molde pequeno para os meus olhos

preencho com mão incerta 
tudo o que fora nela
ficou 

terça-feira, 8 de abril de 2014

poema para quem não sabe durar

amo tudo o que ainda não é
amo tudo o que poderia ser
amo tudo o que está sendo
amo o declínio do verbo
sem tempo

segunda-feira, 31 de março de 2014

pretérito muito imperfeito

era molhar a língua nas esperanças do outro
e assim dar-lhe a beber da santa água do desejo
era comer a fome alheia e dela fazer o pão dos dias
espiga farta por entre dentes que ferem 
entre lábios demasiadamente confiantes
e da gota de sangue brotar a rosa
ou o doce espinho da dor
era derrotar a imensidão
de não ter que viver 
era a brevidade
de ter de amar
era assim

sábado, 29 de março de 2014

onda

encho-te as palavras de silêncios
como quem subitamente
vê o mar

segunda-feira, 24 de março de 2014

les sirènes hurlantes*

espero pelo dia em que terei saudades dos encontros que marcávamos
para me dares em primeira mão as tuas novas gravuras 
lembro-me de cheirar no papel o grito de sal 
em que ainda perdes os dias


*ao Manuel.

sábado, 22 de março de 2014

poids et mesure

il est léger
le silence de se laisser aimer



quarta-feira, 5 de março de 2014

o colar

um único adorno
um silêncio amordaçado

dentro dos nós, as voltas
dançam as mãos redondamente

o colo nu espera a sombra
das contas de vidro

dos verdes húmidos
da ameixa escura

losangos apertados
como esfinges

dedos hábeis
como amantes

desfaz-se o colar
na sua inteireza

rolam contas
pelo colo










segunda-feira, 3 de março de 2014

da necessidade

comem da mesma fome
bebem da mesma sede
em tudo o mais
são livres


domingo, 2 de março de 2014

do erotismo

encontra-lo na gota de rio bravo que corre livre entre as margens:

o corpo diante da bagagem desordenada

antes da viagem





sábado, 25 de janeiro de 2014

a infração

contou-me o prisioneiro algo curioso
todos os dias ao acordar media as paredes da cela
a porta, os caixilhos, roda-pés e ladrilhos e só então deixava o dia começar
satisfeito, conferia com rigor a relação harmoniosa entre altura e comprimento
satisfeito, conferia que tudo estava como ele o antecipara na véspera da véspera
satisfeito, adormecia no instante seguinte

mas num despertar 
numa aurora que ele não conhecia
e por isso espantado se maravilhou
(o que seria!)
mediu, mediu, e nada conferia
nenhum ladrilho igual ao outro
alturas que desabavam de tão altas
comprimentos que se perdiam no infinito
roda-pés como quem entra no primeiro baile

era afinal o primeiro dia de liberdade
e não teria outro
o espanto é a mais grave infração
faz com que tudo comece

agora, é a ele que meço
todos os dias ao acordar o meço
e estão lá também as portas e as janelas e os ladrilhos e até
os roda-pés e todas as larguezas e belezas e infinitas possibilidades
tudo isso meço, meço, meço

e mais não disse.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

a cheia

olho para mim a olhar para ti 
e o Tejo toma-me da margem
o descanso

por bem que estou distante
por mal que estás aqui

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

no gume



chama-se a este objecto útil um abre-cartas
é de madeira fina, dessa que gostaria de ter sido
folha cheia de tinta

serve para abrir de golpe liso e seco 
e assim ferir de morte incerta 
as palavras que se confiaram ao destino 

sabe-se lá que deus pelo caminho as mudou

sabe-se lá se a flor chegou pedra
se o rio que era fonte
secou e é agora
gota

sabe-se lá se alguma palavra
no caminho tropeçou e ficou para trás
pronome pessoal perdido já da mão humana
nas arestas da vida

certa é a espera em que pousada vive

a carta fechada chegou ao destino
tinta preta, era só o que tinha





 






segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Para G.

ninguém diria que
dois queijos e duas empadas
coubessem tão bem naquela caixa

mãos cuidadosamente exactas
dias exactamente dispostos
quem diria

que a sabedoria assim 
se dispusesse?

o mago que tudo sabe e nada diz
esperava os últimos aniversariantes

duas taças de leve champanhe 
duas rodadas tarareando 
em eterno compasso

também assim vamos pela vida
dispostos a essa sorte imensa

de estarmos





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

do sentido

como quase tudo
também isto se explica
se lhe encontrares o contrário



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

poemadeus

deixou a folha manuscrita no chão de um campo distante
com o único poema  que escreveu
deixou-a assim plana e simples
com o único poema
do mundo


para o Ademar, no nosso aniversário

moldo este tempo a dois
com a leveza do barro novo

aprendiz discreta da arte antiga
rodeio-me das tuas mãos

e torno a ti como à terra
onde roçam as nuvens

decidimos da criação
uma mulher e um homem

e deles moldamos o voo
em que nos esquecemos

do instante em que as tuas mãos
se distraíram para sempre

da roda






domingo, 8 de dezembro de 2013

olaria

preparo o pássaro de barro
para que amanhã liberte
da noite o mistério